Quando o BBB me faz mal

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Foto: Reprodução/@realitysocial

Todo ano eu passo pela mesma situação com o BBB: começo adorando, fico fã e depois abandono. Essa mudança de humor não acontece só porque os meus preferidos são os primeiros a sair, mas porque chega a um ponto em que o programa começa a mexer comigo. E não necessariamente de um jeito agradável. Em vez de ser apenas um programa de entretenimento no qual eu sintonizo pra relaxar, passa a ser uma tortura, algo que me afeta psicologicamente.

Se eu analisar corretamente, é um fenômeno que se estende a todos os realities de convivência. Qualquer um que enclausure pessoas num espaço delimitado. E a barra ficar mais pesada ao longo da convivência, com uma disputa psicológica mais intensa, fica ainda pior pra mim. Porque uma hora eu me dou conta de que não estou assistindo personagens que saíram da cabeça de um novelista. De que aquelas pessoas não são atores que brigam entre si e saem do personagem depois do fim da gravação. De que quanto mais eu espero barraco ou queira ver o pior das pessoas, mais eu torço pra fragilização de uma pessoa de carne e osso. Mesmo que essa pessoa tenha deliberadamente assumido aquele personagem como estratégia de jogo. Mesmo que esse sentido seja moldado pela edição do programa.

No BBB 16, há duas semanas eu tenho me sentido assim. Torcer pela loucura da Ana Paula era desejar que sua saúde mental ficasse cada vez mais fragilizada. Ver Renan e companhia planejando tirá-la do sério, a ponto de ela forçar uma agressão, era presenciar o pior lado do ser humano. Rir de alguém bêbada que mal se aguenta em pé era me divertir com a desgraça alheia. Muita gente vai dizer que estou exagerando ou levando tudo muito à sério, mas neste momento eu não consigo mais desligar a TV e fazer de conta que aquele universo ficcional desaparece quando a tela se apaga. Ou que aqueles personagens só  voltarão aos seus papéis no próximo episódio.

Talvez eu leve reality show como uma experiência muito mais sociológica do que deveria. Mas se aquele microcosmos consegue refletir mesmo a nossa sociedade, com todos os seus preconceitos e contradições, me faz mal ter a consciência de que eu torço pelo pior apenas para a minha diversão. Que eu faço parte daquela arquibancada enlouquecida que torcia para o leão devorar o gladiador. Se tudo é mesmo um circo, então eu prefiro não bater mais palma pro palhaço.

P.S.: Este texto não defende nenhum dos participantes e nem julga quem está certo ou errado. É apenas um desabafo sobre a minha percepção geral sobre o programa.

Cultura: a gente (não) vê no JN

Qual o lugar da cultura na história de um país? Pelo menos pra mim, a resposta é óbvia, já que cada produto cultural traz em seu DNA os dilemas, angústias e também festejos da época em que ganhou vida. Em alguns casos, quando a censura amordaça a imprensa, também são as entrelinhas de músicas e espetáculos que denunciam sutilmente os desmandos de uma sociedade vigiada. Mas não parece tão óbvio assim para o Jornal Nacional.

Foto: Rodrigo Gorosito/G1

Foto: Rodrigo Gorosito/G1

Prestes a completar 50 anos, a Globo anunciou um projeto ambicioso: o JN passaria a limpo cinco décadas de jornalismo usando as memórias de 16 repórteres icônicos da emissora. Após o segundo episódio, que foi ao ar nesta terça (21/04), listei os assuntos abordados até aqui. Quase na metade dos seis episódios, a série sinaliza o que o maior telejornal do Brasil considera essencial para um povo: cobertura política, tragédias e esporte, além de uma pitada generosa de noticiário internacional e autorreferência. E só. Isso quer dizer que grandes tragédias, como o incêndio do Edifício Joelma, não sejam relevantes? Não. Ou que a chegada do homem à Lua não seja marcante? De forma alguma. Mas será que se resume a apenas isto? Não deveria.

Ao relembrar duas décadas de telejornal (até agora, a série revisitou os primeiros 20 anos da Globo), o JN não dedicou um minuto sequer à cultura brasileira. Ainda que, pela censura militar, o telejornal não deva ter abordado a resistência política exercida pela MPB, nem mesmo um sucesso como o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976, mereceu citação. A renúncia do presidente americano Richard Nixon ganhou mais destaque do que a morte de Nelson Rodrigues, em 1980, que simplesmente passou em branco. E cito estes exemplos pois foram os que me vieram à mente, devem existir outros mais revelantes. Nem mesmo fenômenos criados pela própria Globo, como a febre disco de “Dancing Days”, ou artistas de seu casting, como o “rei” Roberto Carlos, ganharam espaço. Pode-se argumentar que é impossível falar de tudo, mesmo com 20 minutos por episódio – o que, diga-se de passagem, é uma eternidade em televisão! Porém, com esforço, seria possível chegar a uma solução mais equilibrada.

Já ouvi várias vezes no meu dia a dia de jornalista que “cultura não é importante porque não mexe com a vida de ninguém”, que é apenas entretenimento, “perfumaria”. Se levarmos os argumentos ao pé da letra, eles também caberiam ao esporte, não? Afinal, ninguém ficou mais rico com a Copa de 70 ou mais consciente graças ao atleta João do Pulo. No entanto, cultura e o esporte são registros de um tempo e trazem sim marcas sociais. Logo, se o jornalismo esportivo está presente na série e conta com dois jornalistas da área (Tino Marcos e Galvão Bueno), por que o mesmo não acontece com o setor de artes? Meu receio é de que essa lacuna seja mais do que um mero descuido, de que ela reflita o lugar inexistente que a cultura assumiu nesses 50 anos de Rede Globo e 45 anos de Jornal Nacional.

Assim como o William Bonner, também acredito que este encontro de repórteres do JN seja realmente histórico. É uma revisão importante sobre a trajetória do maior telejornal do país, com a mea culpa de episódios polêmicos, como a discreta cobertura do movimento Diretas Já. Por isso mesmo, resistirá ao tempo como material de referência. Daí minha tristeza em ver a cultura relegada ao esquecimento. Se o telejornalismo já é a área mais deficitária da formação universitária em Comunicação, a cultura tem tudo pra continuar como a filha bastarda do noticiário.

A nova novela das oito está nos EUA

Para quem gosta de novela no Brasil, a vida não anda muito fácil desde o fim de Avenida Brasil, em 2012. De lá para cá, “Salve Jorge”, “Amor à Vida”, “Em Família” e “Império”, em maior ou menor grau, até conseguiram segurar o público na frente da TV, mas bem longe da empolgação histérica com a vingança da Nina. Para muita gente, como eu, a saída foi ocupar o tempo com seriados americanos. E não é que os americanos estão fazendo série com jeitão de novela muito melhores que a gente?

Não chega a ser uma surpresa, afinal série e novela vêm da mesma tradição de histórias seriadas do folhetim tradicional. Porém, os gringos sempre amenizaram as características melodramáticas do gênero. Nos últimos tempos, no entanto, parece que eles perderam a vergonha e abraçaram com força as regras mais rocambolescas do gênero. E nem uso como exemplo séries como “Ugly Betty” e “Jane The Virgin”, que são adaptações de telenovelas latinas e, por motivos óbvios, terão um percentual de semelhanças muito mais significativo. Só que o maior sucesso atual da TV americana, “Empire”, é um novelão sem tirar nem por!

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É só ler a sinopse. É a história de Lucius Lyon, um rapper que se tornou o dono de uma gigante da indústria fonográfica e que, ao descobrir que está com uma doença incurável, desafia os três filhos a disputarem a cadeira de presidente do império musical. Só que essa família é completamente disfuncional: o pai renega o filho mais velho por ele não ter talento para a música. Já o filho do meio, apesar de talentoso, é rejeitado por ser homossexual. Somente o filho mais novo, um rapper jovem e imaturo, é o preferido do pai. Junte a isso o fato de que a mãe dos meninos, Cookie, está presa há 17 anos por um crime que o marido cometeu e que ela assumiu para não prejudicar a carreira dele. E que, às vésperas de a empresa comercializar ações na Bolsa de Nova York, Cookie sai da cadeia e cobra sua parte no império, ameaçando destruir a gravadora com a informação de que ela foi fundada com dinheiro do tráfico de drogas. E não pense dei spoiler: tudo isso acontece apenas no primeiro episódio! É mais agitação do que “Em Família” inteira!

Pra mim, essa “mexicanização” dos seriados tem duas explicações. Primeiro, que em um mercado tão competitivo como o de televisão nos EUA, apelar para o melodrama é uma estratégia que rende ganchos de tirar o fôlego ao final dos episódios e que seguram a audiência curiosa até a semana seguinte. Ou seja, garante uma audiência constante e a longevidade da série por várias temporadas. E, em segundo lugar, demonstra a importância que o público latino conquistou na disputa por audiência e faturamento. Assim, incorporar características do dramalhão mexicano é uma forma de trazer os imigrantes para os canais americanos e roubá-los das emissoras voltados à comunidade latina, que retransmitem telenovelas latinas por lá.

Se as estratégias vão funcionar a longo prazo, sem empobrecer o formato, só saberemos com o tempo. Mas a minha audiência eles já conseguiram.

P.S.: “Empire” ainda não tem data de estreia no Brasil, mas procure ver! Ainda que a sinopse se assemelhe a dezenas de novelas que já vimos, a história é cheia de reviravoltas e sua condução torna impossível não se envolver. Para quem ainda gosta de hip hop, tem um motivo a mais: a série conta com músicas inéditas criadas especialmente para embalar a vida musical dos personagens, tudo sob a batuta do produtor Timbaland (o CD desbancou, inclusive, o novo álbum da Madonna na Billboard). E ainda tem vários músicos circulando em participações especiais, além de personagens construídos com características que os associam a figuras célebres da música americana.

Oscar 2015 – ‘Caminhos da Floresta’

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Quem me conhece, sabe que sou um cara otimista. Do mesmo jeito que procuro um lado bom nos problemas, tenho o hábito de também enxergar qualidades até em filmes ruins. Portanto, quando meu veredicto é de que uma produção é uma bomba, é sinal de que deva ser mesmo um caso perdido. É esse o meu sentimento em relação a “Caminhos da Floresta”. Indicado a três estatuetas no Oscar deste ano (sendo a mais importante a de Melhor Atriz Coadjuvante para a Meryl Streep), o musical é uma decepção do começo ao fim. E como dói um fã de musicais – como eu – ter que afirmar isso!

Apesar da embalagem bonitinha que pode até lhe valer os dois prêmios técnicos a que concorre – Design de Produção e Figurino, o filme se arrasta e consegue a façanha de minguar até o carisma de personagens consagrados como Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e Rapunzel. Com isso, o cineasta Rob Marshall só deixa claro, a cada trabalho, que os prêmios recebidos por “Chicago”, em 2003, foram realmente uma compensação pelo desprezo que “Moulin Rouge” recebeu no ano anterior.

Mas quais são os problemas de “Caminhos da Floresta”? Será que nem o carisma de Meryl Streep salva o filme? São alguns pontos que comento no vídeo abaixo.

P.S.: Não bastassem os problemas, o roteiro ainda inclui pitadas de moralismo e machismo constrangedores. É só observar o desfecho do adultério envolvendo dois personagens comprometidos. O homem segue a vida, enquanto a mulher é punida. Com a morte. Deve ser ranço do selo Disney…

(para conferir os comentários anteriores, é só clicar aqui, aqui e aqui)

Oscar 2015 – ‘Livre’

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Quando li as primeiras notícias sobre “Livre”, não posso mentir que me bateu uma preguiça danada do filme. Afinal, quantas vezes a gente já não viu essa história da pessoa que põe o pé na estrada pra refletir sobre a vida e encontrar seu lugar no mundo? Até Machado de Assis caiu nesse clichê em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (ainda que seja pra criticar esse costume da elite – o que, claro, escapou da minha leitura adolescência). Pra piorar, histórias de autoajuda me dão sono! Tanto que a única vez em que dormi no cinema foi vendo “Comer, Rezar, Amar”. Ou seja, fui assistir ao filme com os dois pés atrás.

E não é que saí emocionado do cinema? Se é verdade que todas as histórias da humanidade já foram contadas, “Livre” é a maior prova de que o mais importante não é “o que acontece”, mas sim “como acontece”. Um roteiro adulto, doloroso, extremamente fragmentado e que nos leva a repensar profundamente as decisões que tomamos. Se a vida é feita de escolhas, enfrentar as consequências precisa ser parte do jogo. Mesmo que a gente não sabia como.

Nesta terceira postagem sobre os indicados ao Oscar, eu comento minhas impressões sobre o filme e quais as chances dele (na minha modesta opinião) nos prêmios de “Melhor Atriz” e “Melhor Atriz Coadjuvante”. É só dar play aqui embaixo!

(você confere as postagens anteriores aqui e aqui)

Oscar 2015 – ‘O Jogo da Imitação’

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Quarta-feira é o dia nacional de pagar meia no cinema. Que tal usar a promoção pra conferir mais um indicado ao Oscar deste ano? A minha dica é o filme “O Jogo da Imitação”, que concorre a oito estatuetas no dia 22 de fevereiro (Filme, Diretor, Ator, Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Montagem e Direção de Arte).

Pra quem não sabe do que se trata, é a cinebiografia do matemático Alan Turing, que foi peça-chave para descobrir o código secreto que os nazistas usavam para se comunicar na Segunda Guerra Mundial e que contribuiu e muito para o fim do conflito. Não bastasse ser um drama sensacional, é ainda a oportunidade de conhecer uma história que ficou guardada a sete chaves por muitas décadas e que tem como ponto central um protagonista cheio de nuances e contradições, herói e “bandido” ao mesmo tempo.

Quer saber o motivo? Então aperta o play aqui embaixo e confere o meu comentário sobre o filme.

(e aqui você confere a primeira postagem dessa série com os filmes “Boyhood – Da Infância à Juventude” e “O Grande Hotel Budapeste”).

BBB 15: mais jogo, menos novela

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imagem: @RealitySocial

Nesta terça, a primeiro eliminação do Big Brother Brasil deixou claro que a maior deficiência do programa continua sendo o apego aos clichês do folhetim em oposição ao jogo. A saída de Fran, participante que em uma semana fez muito mais pelo reality show do que muitos finalistas de edições anteriores, é a prova cabal de que os 13 anos do programa não alteraram muita coisa em sua espinha dorsal. O público e a própria Globo continuam tratando o BBB como um simples formato de confinamento e convivência, cuja função é criar romances, mocinhos e malvados. Ou seja, basicamente uma novela com atores amadores, mas sem vilões, já que eles são eliminados sumariamente.

Ainda que a vida “real” possa ser organizada a partir de relacionamentos amorosos e conflitos, em uma disputa por R$ 1,5 milhão o foco deveria estar justamente no que diferencia o BBB das 5 novelas diárias da Globo: o jogo. É partir dele (e por causa dele) que se formam alianças, aproximações, distanciamentos e afinidades. Se o objetivo é ficar milionário, os beijos, edredons, brigas e amores possuem um subtexto muito mais interessante do que a simples observação da rotina de 14 anônimos. São artimanhas e estratégias de guerra, algo que enriquece a narrativa audiovisual desgastada da teledramaturgia.

Pra quem acompanha o Big Brother, não é fato inédito que a audiência do programa está em queda nos últimos anos. Será que o motivo não seria justamente esse esgotamento do apego ao folhetim? Essa insistência de mostrar que os participantes entram no programa para viver um grande amor, e não para disputar R$ 1,5 milhão? Desde do BBB 1, a vitória no programa é insistentemente retratada como recompensa a uma trajetória exemplar e “honesta”. Uma decisão moralista e que que deixa os participantes confortáveis para dominar uma narrativa viciada e para a qual eles já estão treinados.

Por isso, colocar o jogo em primeiro plano é uma mudança urgente para oxigenar o BBB e chacoalhar quem de fato precisa ser surpreendido pelo reality. Os fãs do programa agradecem!

Oscar 2015 – ‘Boyhood’ e ‘O Grande Hotel Budapeste’

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Crítica de cinema é algo que todo mundo acha que sabe fazer, mas nem todo mundo faz. Exige conhecimento profundo sobre estética, técnica, história, semiótica e muita bagagem cultural. Por isso, dificilmente eu me arrisco a dizer que faço “crítica”. Por mais que conheça ou goste da sétima arte (ou de música e televisão), não acho que tenha (ainda!) um conhecimento sistêmico que me gabarite como crítico.

Prefiro muito mais a resenha ou o comentário. Nesses dois formatos, posso me prender mais ao meu ponto de vista sobre determinado produto cultural. Posso mesclar minha opinião com curiosidades e detalhes da produção, com a única função trazer um guia pessoal e subjetivo para quem quer ver ou ouvir uma obra.

É com esse pensamento que tenho abordado os indicados ao Oscar deste ano no telejornal Unesp Notícias, da TV Unesp. Pra mim, funciona também como um laboratório, já que comentários sobre cinema são frequentes em jornais, mas raros na televisão. De modo geral, trata-se de uma conversa franca com o telespectador para que ele obtenha informações para decidir se quer ou não assistir a determinado filme. E, caso escolha vê-lo, que aceite esse convite com a liberdade total e irrestrita de discordar da minha opinião. Até prefiro que discorde!

Neste primeiro vídeo, dou destaque a duas produções: “O Grande Hotel Budapeste”, do diretor Wes Anderson, e “Boyhood – Da Infância à Juventude”, do cineasta Richard Linklater.

Vamos lá, contrariem-me!

O cliente sempre tem razão (mas precisa exigir)

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Poucas tarefas no Brasil são tão frustrantes quanto exigir respeito na compra de um produto ou serviço. Quase 25 anos depois do Código de Defesa do Consumidor, parece que ele ainda não foi suficiente para fazer empresários, gerentes e funcionários agirem de forma ética e honesta numa relação comercial. Vou ilustrar com dois casos que aconteceram comigo nas últimas 24 horas. Coincidentemente, foram na mesma loja do Mc Donalds, em Bauru/SP.

Cena 1 – domingo à tarde
Resolvi almoçar uma Mc Salada, como já tinha feito outras vezes. Fui à lanchonete, pedi, paguei, mas, quando ela chegou, veio sem vários ingredientes. Cadê o tomate, por exemplo? Só aí fui informado de que a salada havia mudado e de que agora era só alface, queijo parmesão e umas tiras de frango. Reclamei com a atendente e ela respondeu que a salada anterior havia saído do cardápio. Pergunta 1: Custava ter informado quando fiz o pedido? Informação nunca é demais, principalmente quando o menu passa por uma mudança tão recente. Como estava com muita fome, aceitei. A atendente, então, me deu um garfo de plástico fora da embalagem lacrada e sem a faca. Precisei exigir os talheres higienizados. Enquanto uma das moças foi buscá-los, a que estava no balcão olhou minha bandeja e disse: “Moço, faltam os croutons. Pede pra ela também, senão ela não vai te dar”. Pergunta 2: Se ela notou que faltava algo no meu prato, por que ela mesma não providenciou? E outra: por que jogou essa responsabilidade pra mim, em vez de ela mesma chamar a atenção da colega? Notem que não estou pedindo regalias, só estou exigindo os itens pelos quais paguei. Resumo: tive que pedir também os croutons, fui atendido com desdém e com certeza fui taxado de “cliente chato”.

Cena 2 – segunda à noite
Com preguiça de cozinhar, fui jantar no Mc Donalds novamente. Fiz o pedido e transformei a oferta média em grande pagando um adicional de R$ 2. Meu “erro” desta vez foi trocar o refrigerante por suco. Quando veio a bandeja, o suco era de 500ml, não de 700ml. Lá fui eu cobrar novamente e a “justificativa” foi de que não existia suco grande. Pergunta 1: Se eu comprei um suco maior e ele não existe, eu deveria ter sido informado, não é? Pois é, não fui. A atendente então argumentou que não tinha cobrado os R$ 2, mas apenas R$ 1 por causa da batata frita maior. Pergunta 2: se o lanche custava R$ 21 e o adicional era de R$ 1, como o total deu R$23? Conclusão: eu paguei sim o adicional inteiro e estava levando apenas metade pra casa. Quando o gerente veio resolver o problema, a culpa foi… do sistema! Claro, essa entidade invisível que se autoprograma, sem a interferência de humanos. Resumo: ele cancelou o suco médio e me “deu” um refrigerante grande no lugar.

Por que contei esses dois casos? Pra mostrar como o consumidor no Brasil tem que supervisionar tudo, até o tamanho do copo do fast food. Não sei se é má-fé ou falta de treinamento, mas não dá pra vacilar. E, principalmente, não dá pra deixar passar. Por causa da pressa, da fome ou porque R$ 1 não vale a dor de cabeça, tem horas que a gente releva. Só que essa postura faz o erro se institucionalizar e se tornar prática comum. De R$1 em R$1, a gente fica com serviços mais sucateados e as empresas se acomodam.

Eu sei que dá muito trabalho exigir os nossos direitos, mas é o único jeito de mostrar que respeito ao consumidor vai além de um slogan bacana. Não adianta dizer “que bom que você veio” na TV. É melhor mostrar essa satisfação quando a gente estiver em frente ao balcão.

A Ancine pode colocar Hollywood contra o Brasil?

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Na última quarta, o mercado de cinema no Brasil sofreu um chacoalhão. De acordo com um termo de compromisso divulgado pela Ancine e assinado pelas maiores redes de cinema e por grandes distribuidoras, a partir de 1 de janeiro de 2015 os filmes lançados no país devem respeitar um limite de salas em exibição. O número varia segundo o tamanho de cada complexo, mas, de modo geral, um lançamento só poderá ocupar no máximo 35% das salas de um cinema. Pra ficar mais claro, aqui em Bauru, onde cada cinema tem 5 ou 6 salas, um filme só pode estar em cartaz em, no máximo, duas salas de cada empresa. Ou seja, ao menos no interior chegou ao fim a época em que um cinema tinha “O Senhor dos Anéis” ou “Os Vingadores” em todas as salas.

Na teoria, a medida vai trazer uma diversidade maior de títulos para as telas e abrir espaço para lançamentos menores, que ficam de fora do circuito porque “Crepúsculo” monopoliza os multiplexes. Porém, na prática, conhecendo a habilidade do mercado para encontrar brechas, o resultado pode ser apenas um redimensionamento do monopólio. Assim, em vez de um único filme levando tudo, o bolo passaria a ser dividido em mais dois pedaços. No exemplo de Bauru, um cinema de 6 salas teria 2 salas para “Batman”, 2 para “Capitão América” e 2 para “Star Trek”. E o tal filme independente vai continuar fora do circuito.

E aí eu pergunto: esse novo cenário vai, de alguma forma, diminuir o prestígio do Brasil em Hollywood?

Há pelo menos uma década, o umbigo de indústria cinematográfica deixou de ser apenas os EUA. Desde então, para alcançar recordes de bilheteria, um filme precisa conquistar o mercado americano e também fazer bonito pelo mundo a fora. Para muitas franquias que vão de mal a pior no próprio quintal, é o mercado internacional que garante que as contas não fechem no vermelho. Por isso, o Brasil e outros mercados emergentes ganharam uma importância estratégica.

É só observar como nos últimos dez anos aumentaram os eventos de première e a presença dos grandes astros por aqui. Tom Cruise, por exemplo, veio mais pra cá nos últimos 5 anos do que nos 15 anteriores. Alguns filmes chegam a estrear aqui antes de serem lançados nos EUA e Hollywood cobra cada vez o combate à pirataria.

Portanto, não é conspiratório pensar que a limitação proposta pela Ancine pode fazer Hollywood rever a posição estratégica do Brasil. Por que investir em um país que limita o alcance dos blockbusters? É uma hipótese a se acompanhar de perto.