Cultura: a gente (não) vê no JN

Qual o lugar da cultura na história de um país? Pelo menos pra mim, a resposta é óbvia, já que cada produto cultural traz em seu DNA os dilemas, angústias e também festejos da época em que ganhou vida. Em alguns casos, quando a censura amordaça a imprensa, também são as entrelinhas de músicas e espetáculos que denunciam sutilmente os desmandos de uma sociedade vigiada. Mas não parece tão óbvio assim para o Jornal Nacional.

Foto: Rodrigo Gorosito/G1

Foto: Rodrigo Gorosito/G1

Prestes a completar 50 anos, a Globo anunciou um projeto ambicioso: o JN passaria a limpo cinco décadas de jornalismo usando as memórias de 16 repórteres icônicos da emissora. Após o segundo episódio, que foi ao ar nesta terça (21/04), listei os assuntos abordados até aqui. Quase na metade dos seis episódios, a série sinaliza o que o maior telejornal do Brasil considera essencial para um povo: cobertura política, tragédias e esporte, além de uma pitada generosa de noticiário internacional e autorreferência. E só. Isso quer dizer que grandes tragédias, como o incêndio do Edifício Joelma, não sejam relevantes? Não. Ou que a chegada do homem à Lua não seja marcante? De forma alguma. Mas será que se resume a apenas isto? Não deveria.

Ao relembrar duas décadas de telejornal (até agora, a série revisitou os primeiros 20 anos da Globo), o JN não dedicou um minuto sequer à cultura brasileira. Ainda que, pela censura militar, o telejornal não deva ter abordado a resistência política exercida pela MPB, nem mesmo um sucesso como o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976, mereceu citação. A renúncia do presidente americano Richard Nixon ganhou mais destaque do que a morte de Nelson Rodrigues, em 1980, que simplesmente passou em branco. E cito estes exemplos pois foram os que me vieram à mente, devem existir outros mais revelantes. Nem mesmo fenômenos criados pela própria Globo, como a febre disco de “Dancing Days”, ou artistas de seu casting, como o “rei” Roberto Carlos, ganharam espaço. Pode-se argumentar que é impossível falar de tudo, mesmo com 20 minutos por episódio – o que, diga-se de passagem, é uma eternidade em televisão! Porém, com esforço, seria possível chegar a uma solução mais equilibrada.

Já ouvi várias vezes no meu dia a dia de jornalista que “cultura não é importante porque não mexe com a vida de ninguém”, que é apenas entretenimento, “perfumaria”. Se levarmos os argumentos ao pé da letra, eles também caberiam ao esporte, não? Afinal, ninguém ficou mais rico com a Copa de 70 ou mais consciente graças ao atleta João do Pulo. No entanto, cultura e o esporte são registros de um tempo e trazem sim marcas sociais. Logo, se o jornalismo esportivo está presente na série e conta com dois jornalistas da área (Tino Marcos e Galvão Bueno), por que o mesmo não acontece com o setor de artes? Meu receio é de que essa lacuna seja mais do que um mero descuido, de que ela reflita o lugar inexistente que a cultura assumiu nesses 50 anos de Rede Globo e 45 anos de Jornal Nacional.

Assim como o William Bonner, também acredito que este encontro de repórteres do JN seja realmente histórico. É uma revisão importante sobre a trajetória do maior telejornal do país, com a mea culpa de episódios polêmicos, como a discreta cobertura do movimento Diretas Já. Por isso mesmo, resistirá ao tempo como material de referência. Daí minha tristeza em ver a cultura relegada ao esquecimento. Se o telejornalismo já é a área mais deficitária da formação universitária em Comunicação, a cultura tem tudo pra continuar como a filha bastarda do noticiário.

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