6 interpretações que conquistam apenas pela voz

Com certeza você já assistiu a um filme e ficou com uma voz presa na memória porque ela mexeu com as suas emoções ou porque queria descobrir o dono daquele som. Criar a interpretação vocal de um personagem é comum nas animações, mas os filmes “de carne e osso” também têm uma galeria de vozes famosas em os atores sequer aparecerem na tela.

Samantha, em “Ela”

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No caso mais recente da nossa lista, a voz sexy da atriz Scarlett Johanson dá vida ao sistema operacional Samantha que conquista o coração do protagonista Joaquin Phoenix no novo filme do diretor Spike Jonze. Uma interpretação com tanta vivacidade que rendeu a Scarlett o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Roma, mas a colocou em uma grande polêmica ao ser desqualificada do Globo de Ouro. De acordo com as regras da premiação, o fato de a atriz não aparecer na tela nem por um segundo tornou seu papel inelegível.

 

HAL 9000, em “2001 – Uma odisseia no espaço”

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Se um dia as máquinas se virarem contra o homem graças à inteligência artificial, o maior medo dos cinéfilos é que elas ajam como o HAL 9000 de “2001 – Uma odisseia no espaço”. Muito desse temor vem da personalidade sádica, fria e dissimulada presente na voz do canadense Douglas Rain. Ator com várias montagens de Shakespeare no currículo, Rain escondeu as más intenções do supercomputador com uma falsa gentileza sem qualquer vestígio de sentimentos. O resultado é que HAL é o maior destaque na filmografia do ator, que retomou o personagem no filme “2010 – O ano em que faremos contato”, de 1984.

 

J.A.R.V.I.S., na trilogia “Homem de Ferro”

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Outro sistema operacional famoso é o escudeiro do magnata Tony Stark. O dono da voz é o ator Paul Bettany, mundialmente conhecido como o assassino albino Silas, de “O Código Da Vinci”. Apesar de estar em uma das trilogias mais rentáveis da Marvel e no sucesso “Os Vingadores”, Bettany já afirmou em entrevistas que nunca assistiu aos filmes. Segundo ele, o trabalho de dublar J.A.R.V.I.S é realizado após as filmagens, dura cerca de duas horas e ele não sabe sequer a história inteira dos filmes, pois recebe um papel com as falas e não o roteiro completo. Um jeito fácil de embolsar alguns milhões de dólares, não é?

 

Darth Vader, em “Star Wars”

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Apesar de ser vivido pelo ator britânico David Prowse, que vestiu o figurino, fez as cenas de ação e interpretou todos os diálogos nas filmagens, o maior vilão das galáxias tem a voz do ator americano James Earl Jones. A dublagem ocorreu porque George Lucas considerava o sotaque de Prowse muito forte e o ator só descobriu a troca na noite de estreia! Como não era a pessoa na tela, Jones pediu para não ser creditado nos dois primeiros filmes, pois considerava a dublagem um efeito especial, e não um trabalho de interpretação. No entanto, ele mudou de ideia no terceiro filme e seu nome passou a aparecer em todas as produções a partir do relançamentos de 1997.

 

Ghostface , na quadrilogia “Pânico”

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Se a franquia de Wes Craven mudou o cinema de terror dos anos 90, o dublador Roger L. Jackson tem uma parcela de responsabilidade. A ideia era que ele dublasse o serial killer Ghostface apenas na pós-produção do primeiro filme, mas o diretor gostou tanto de sua interpretação que o incorporou à rotina de filmagem. Para dar realismo às cenas, Jackson conversava de verdade com os personagens por telefone. Só que este era o único contato que ele tinha com a equipe! O dublador era proibido de conhecer os atores para que eles não associassem sua voz a uma pessoa e sempre tivessem medo deste assassino sem rosto. Diabólico, não?

 

O Liquidificador, em “Reflexões de um liquidificador”

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O representante brasileiro nesta lista é o onipresente Selton Mello, que dá vida a um eletrodoméstico nesta comédia de humor negro de 2010. Narrador da história e espécie de consciência da protagonista Elvira, o liquidificador é quem dá o tom surreal ao roteiro. É uma pena, no entanto, que os anos de experiência de Selton como dublador não acrescentem nenhuma característica marcante à voz do liquidificador, que soa tagarela e cínico como tantos outros personagens de sua carreira.

(Publicado originalmente em 19/02/2014, no site Salada de Cinema)

A carreira errante de Chris Pine

O par de olhos azuis veio do pai, o ator Robert Pine. Mas somente eles ainda não foram suficientes para fazer Chris Pine decolar em Hollywood. Apesar dos suspiros que seu olhar e seu sorriso geram por onde passa, o ator ainda não conseguiu emplacar uma carreira consistente ao longo dos 10 anos em que batalha na capital do cinema. E se nem o papel principal de “Star Trek” conseguiu dar uma mão, fica difícil saber o que mais pode ajudar.

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Apesar da árvore genealógica de atores (além do pai, a avó paterna também era atriz), os primeiros papéis de Chris Pine foram muito parecidos com o de outros tantos aspirantes a astro: em seriados de TV. O ator fez pontas em produções como “E.R.” e “CSI: Miami” em uma tentativa de conseguir visibilidade e convites para outros projetos. De certa, a estratégia deu certo! Em 2004, ele foi o galã do filme “O Diário da Princesa 2”, uma produção que rendeu quase 100 milhões de dólares no mundo inteiro.

Se parecia que a partir daí as portas do sucesso haviam se aberto para Pine, logo veio o balde de água de fria. Seu próximo filme, o drama independente“Confession”, foi um fracasso tão grande que foi lançado direto nas locadoras. Entre novas aparições em seriados, Chris intercalou uma série de filmes pequenos. Além de “Maldita Sorte”, em que contracena com Lindsay Lohan, vieram “Encontro às Escuras”“A Última Cartada” e “O Julgamento de Paris”, filmes que mal pagaram seu orçamento e tiveram uma repercussão pífia.

Com um histórico destes, é surpreendente que o diretor J.J. Abrams tenha confiado a Pine o papel principal da refilmagem de “Star Trek”, em 2009. Segundo o ator já contou em entrevistas, seu primeiro teste para o papel foi sofrível, pois ele não se levava a sério como chefe da tripulação da Enterprise. Somente após um segundo teste junto com o ator Zachary Quinto é que Chris conseguiu o papel, muito devido ao seu carisma no vídeo e à boa química com o companheiro de cena. Pesou também para a escolha a opinião de Quinto, pois ambos eram amigos (frequentavam a mesma academia) e essa proximidade poderia ser aproveitada a favor da amizade que une o Capitão Kirk a Spock.

Que “Star Trek” que foi um sucesso, não precisa nem dizer. Afinal, o filme ressuscitou a franquia “Jornada nas Estrelas”, que estava bem mal das pernas desde o fim da década de 1990. Tanto que ganhou a sequência que estreia agora. Mas será que o Capitão Kirk também exerceu um papel positivo na carreira de Pine? Olhando os filmes que ele fez depois que voltou do espaço, parece que mais uma vez o ator está deixando a oportunidade escapar por entre os dedos.

Dos seis filmes lançados após “Star Trek”, os dois mais comerciais são a comédia “Guerra é Guerra” e aventura “Incontrolável”. Dois filmes que não acrescentam nada à carreira artística de Pine e nem mesmo servem como um novo direcionamento para sua carreira, agora como ator de ação. Já os filmes independentes, como “Small Town Saturday Night” e “Bem-vindo à Vida”, também não lhe impuseram um desafio de interpretação ou lhe tornaram um ator sensível e dramático.

Com “Além da Escuridão – Star Trek”, Hollywood dá uma segunda chance para o ator aproveitar positivamente a visibilidade. Com o tom mais dramático da sequência e também mais explosivo, é uma possibilidade para ele mostrar que também pode emocionar ou então ser o novo brucutu de Hollywood. É esperar pra ver se o novo capítulo da franquia vai levar Chris Pine onde ele jamais esteve: perto do reconhecimento.

(Publicado originalmente em 20/06/2013, no site Salada de Cinema)

Uma nova esperança para Zoe Saldana

Depois de tentar a sorte em Hollywood por anos, você consegue o papel da mocinha no filme de um grande diretor. A produção, que desde o anúncio era divulgada como revolucionária, estoura no mundo inteiro. Só de bilheteria são quase 3 milhões de dólares e o filme entra para a história como a maior arrecadação de todos os tempos! Uma visibilidade enorme, não? Só tem um problema: você não aparece no filme. Ou melhor: você aparece, mas não como você mesma e nem com seu rosto. É este o drama da atriz Zoe Saldana, a mocinha por trás da alienígena Neytiri em “Avatar”. Corpo, voz e emoções por trás do personagem, Zoe teve sua atuação registrada por captura de movimentos e, graças à animação gráfica, virou a criatura. Façanha que a transformou, ao mesmo tempo, na atriz mais e menos conhecida do mundo.

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“Avatar”, no entanto, não foi o primeiro grande filme da atriz. Lançado sete meses antes do filme recordista, “Star Trek” foi a primeira grande oportunidade de Zoe. Apesar da aparição pequena e em um papel secundário, o filme garantiu uma visibilidade interessante para a atriz americana. Considerando que em “Avatar” seu rosto não aparece em uma cena sequer, dá pra afirmar que foi como a “namorada” de Spock que ela entrou no radar de muitas pessoas.

De lá pra cá, no entanto, nem tudo são flores. Assim como Chris Pine, seu companheiro de “Star Trek”, Zoe se envolveu em projetos pequenos que tiveram pouco retorno e cuja visibilidade artística é limitada. Em “Morte no Funeral”, por exemplo, seu personagem é tão secundário que por vezes nem é citado nas sinopses. Situação semelhante à de “Ladrões”, no qual o nome da atriz sequer consta no cartaz. E se em “Em busca de vingança” Zoe é a protagonista, o massacre de críticas negativas ao filme abafou completamente seu papel principal.

De volta aos holofotes agora com “Além da Escuridão – Star Trek”, aparentemente os próximos trabalhos de Zoe têm tudo para gerar repercussão. Para o bem ou para o mal. Em “Nina”, que deve ser lançado ainda neste ano, ela dá vida à cantora ícone do jazz Nina Simone. Apesar da polêmica de que seria branca demais para interpretar a artista negra, este pode ser o grande papel dramático de sua carreira e atrair prêmios e reconhecimento. É só olhar o que a cinebiografia de Edith Piaf trouxe para Marion Cottillard e a de Ray Charles trouxe para Jamie Foxx. Se não der certo, pelo menos ela já tem uma posição de coadjuvante reservada na adaptação de “Guardiões da Galáxia”, filme da Marvel que deve ter importância central em “Os Vingadores 2”.

É torcer para que a beleza da atriz não seja uma maldição em sua carreira. E também para que ela se decida se assina Zoe Saldana, Zoë Saldana, Zoe Saldaña ou Zoë Saldaña. Afinal, não dá pra se tornar uma estrela se o seu nome muda a cada trabalho.

(Publicado originalmente em 21/06/2013, no site Salada de Cinema)

Por que as mulheres do show bizz ameaçam tanto os homens?

“As mulheres estão dominando o mundo”. A frase sempre aparece para descrever como elas, desde a década de 70, ocupam territórios majoritariamente masculinos. Por mais que normalmente a frase surja em um contexto positivo e de admiração, algumas vezes também é usada para camuflar o machismo e também a insegurança dos homens em relação a essa mulher independente, dona de si e com objetivos muito bem traçados. Só que, às vezes, o medo aparece nas entrelinhas. E aí, o nosso sexismo se escancara, mesmo que, teoricamente, em tom de piada. Como aconteceu com a cantora Beyoncé na última sexta.

Beyoncé no palco do Rock in Rio - Foto: Raul Aragão/I Hate Flash/Divulgação Rock in Rio

Beyoncé no palco do Rock in Rio – Foto: Raul Aragão/I Hate Flash/Divulgação Rock in Rio

Em reportagem da Folha de S. Paulo, a cantora foi alvo de insinuações que tentavam desconstruir sua imagem de mulher poderosa. Virou motivo de riso desde a manchete, quando foi apelidada de “a maior chacrete do planeta”. Ainda que a matéria tenha superficialmente um tom elogioso, fica o incômodo pela comparação com as dançarinas do Chacrinha. E digo isso sem passionalidade, pois não sou fã irrestrito da cantora. Em uma sequência na qual elogios são sucedidos por alfinetadas, o jornalista Thales de Menezes desenvolve assim sua tese:

Chacrinha (1917-1988) disse certa vez que, se uma de suas dançarinas de palco soubesse cantar, faria dela a maior do mundo.

O Velho Guerreiro não viveu para ver, mas a maior cantora do mundo hoje é, definitivamente, uma chacrete.

Beyoncé vai mostrar esta noite que dança bem como uma delas e veste seu corpão de chacrete com roupinhas de… chacrete.

Por mais que não seja um xingamento dizer que a cantora seja uma chacrete, a comparação é no mínimo irresponsável, principalmente por causa do tom pejorativo por trás dela. Não é surpresa que as chacretes são estigmatizadas pela exploração do corpo como único meio de visibilidade. Junto ao tom sarcástico do texto, fica difícil acreditar que a analogia sirva apenas para destacar a posição de Beyoncé como “a maior do mundo”. Acreditar que o jornalista tenha feito a comparação de forma despretensiosa, sem considerar os juízos de valores por trás das palavras, é no mínimo uma ingenuidade. Principalmente porque ele não é réu primário.

Rihanna no palco do Rock in Rio, em 2011

Rihanna no palco do Rock in Rio, em 2011

Em 2011, quando Rihanna foi uma das principais atrações do Rock in Rio (por coincidência, mesmo destaque que Beyoncé possui nesta vinda ao Brasil), Thales usou seu humor questionável para criticar a independência feminina. Recém-saída de um relacionamento conturbado com o cantor Chris Brown, que terminou de forma trágica quando ele a espancou, o jornalista associou a violência a uma lição por Rihanna ser tão “decidida” e “dona de seu nariz” (escrevi sobre isso na época). Da mesma forma que fez agora com Beyoncé, ainda que as intenções não estejam explícitas, a “piada” infeliz traz nas entrelinhas uma série de preconceitos, podendo ser interpretada até como uma defesa desta “surra corretiva”.

Com a reincidência na última sexta, fica a pergunta: por que as mulheres do show bizz ameaçam tanto os homens? A única explicação é que elas simbolizam da forma mais midiática possível que o sexo feminino descobriu que não precisa do sexo masculino para se sentir realizada. Que, se foram tratadas como objeto durante séculos, agora elas estão em uma posição confortável na qual não precisam mais pautar suas vidas ao redor das necessidades dos homens. E que, por divulgarem o girl power com tanta visibilidade, são um perigo ao servirem de exemplo para a independência de muitas outras mulheres.

As mulheres do show bizz metem medo e, por isso, a reação dos homens só poderia ser a mais instintiva possível: atacar o predador antes que se tornem uma presa imobilizada.

Rock in Rio 2013: Justin Timberlake quebra jejum de 12 anos com melhor show do primeiro fim de semana

A meia hora de atraso não foi suficiente para desanimar os fãs que esperaram 12 anos para a segunda vinda de Justin Timberlake ao Brasil. O jejum, que durava desde 2001, quando ele se apresentou no Rock in Rio ainda como membro do NSYNC, foi recompensado com uma apresentação enérgica e recheada de hits do começo ao fim.

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Foto: Flavio Moraes/G1

No palco, ficou claro porque Justin é apontado como o novo rei do pop. Apesar de pouco mais de uma década de carreira solo, o show trouxe um repertório sólido e muito bem amarrado, que equilibrou na medida certa músicas para dançar e baladas. Foram 19 canções em 1h40 de música, que contemplaram os três CDs do cantor e covers de “I Need You Tonight”, do INXS, e “Shake Your Body”, do Michael Jackson. Uma sucessão de hits que não deixou de fora “Like I Love You”, “My Love”, “Cry Me A River”, “Señorita”, “Futuresex/Lovesound”, “Lovestoned”, “Rock Your Body” e “What Goes Around… Comes Around”. Foi praticamente uma versão estendida da apresentação dele no Video Music Awards, no final de agosto, e só ficaram de fora as músicas do NSYNC. Até “Sexyback”, “Suit & Tie” e “Mirrors”, ausentes no setlist divulgado à imprensa antes do show, apareceram para a alegria dos fãs e finalizaram o show com uma sequência de tirar o fôlego .

Apesar de extremamente carismático e dono de uma presença de palco hipnotizante, Justin conversou pouco com o público no Rock in Rio, limitando-se a algumas declarações de amor ao Rio de Janeiro e a pedidos para levantar as mãos e bater palmas. Mesmo assim, o público seguiu cada ordem do showman, além de gritar a cada vez que JT ameaçava passos de dança.

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Foto: Flavio Moraes/G1

Trazendo um casamento perfeito entre as canções dos três álbuns, o show mostrou que as músicas de “The 20/20 Experience”, seu CD mais recente, funcionam muito bem ao vivo, até por surgirem em versões resumidas, longe dos quase 10 minutos de duração que cada uma tem originalmente. Ainda que o frontman seja a principal estrela do show, merecem destaque também a banda e os bailarinos, que deram um show à altura do poder de fogo do repertório de Timberlake.

Pena que a transmissão do Multishow surja como um ponto negativo. O canal a cabo parecia não conhecer o show que tinha em mãos e exibiu uma sucessão de cortes frenéticos, em que cada imagem não ficava mais que 5 segundos na tela. A edição prejudicou principalmente as coreografias, pois as imagens privilegiavam gerais do palco a distância, imagens aéreas e closes da plateia.

Ainda assim, o espetáculo conduzido por Justin Timberlake só deixa uma conclusão: foi um show memorável, cuja empolgação da plateia durante o encerramento com”Sexyback” tem tudo pra entrar para a galeria de imagens inesquecíveis do Rock in Rio.

Atualizado às 12h54: Já estão pipocam no YouTube os vídeos da apresentação do Justin no Rock in Rio. Delicie-se!

 

Sexyback

 

Suit & Tie + Mirrors

 

Pusher Love Girl

Summer Love + Senorita

What Goes Around… Comes Around

Rock in Rio 2013: Jessie J faz bom show, mas perde a chance de ser apoteótica

Jessie J foi a segunda atração do Palco Mundo na terceira noite do Rock in Rio 2013 e trouxe um show animado e com grande presença de palco, dois fatores que ajudaram bastante a animar o público da Cidade do Rock. Apesar da desconfiança de que não daria conta de um público tão grande quanto o do palco principal, a inglesinha trouxe um repertório quase que totalmente calcado em seu primeiro e único álbum de estúdio até agora, “Who You Are”, e se mostrou a vontade e confiante na tarefa.

Foto: Flavio Moraes/G1

Foto: Flavio Moraes/G1

Mesmo com a escolha arriscada de abrir a apresentação com “Price Tag”, seu maior sucesso até hoje, Jessie construiu um setlist bastante sólido, pelo menos até a metade do show. Junto com seu enorme carisma e conversando o tempo todo com a plateia, a cantora conseguiu na primeira meia hora satisfazer os fãs e ainda angariar os seguidores de Justin Timberlake, que com certeza são maioria nesta noite do Rock in Rio.

Pena que a receita foi suficiente para segurar a atenção durante o show inteiro. Da metade para o fim, ao investir em músicas com uma pegada mais eletrônica, o show esfriou. Depois de incendiar a Cidade do Rock com “Laserlight”, Jessie tropeçou no repertório com duas músicas menos conhecidas e empolgantes. Quando “Domino” apareceu pra encerrar o show, ela desceu do palco para ficar mais perto da público e cantou a música com a ajuda dos fãs. Apesar de ser louvável a aproximação com a plateia, a cantora desperdiçou a chance de encerrar o show de forma apoteótica. Segundo maior sucesso de sua carreira, “Domino” tem um refrão forte e poderia ter sido a cereja do bolo se executada em cima do palco, à vista de todos, com Jessie regendo a festa.

Uma prova de que até a interação com a plateia precisa ser realizada na hora certa.

Atualizado em 16/09, às 14h20: Os vídeos das apresentações.

Price Tag

Nobody’s Perfect

Laserlight

Domino

55 anos da Madonna e o dia em que ela estrangulou a backing vocal

No dia 16 de agosto, a cantora Madonna comemorou 55 anos de vida! Tá bonitona, tá esbanjando saúde, tá rica até não poder mais! Mas, nesse dia de festa, eu tenho uma denúncia a fazer que vai cortar o clima: a rainha do pop pode ser a responsável pelo sumiço de uma backing vocal.

Madonna performs with an AK machine gun on stage during her

Alguém errou o passo na coreografia?

Sim, leitores! Todo mundo sabe o quanto Madonna é obcecada com a perfeição. Isso fica claro no tempo que ela leva ensaiando cada turnê e na forma como centraliza e cuida de cada detalhe de um show. E foi justamente por atrapalhar essa perfeição que Niki Harris pagou com a própria vida. Sua última aparição foi na coreografia de “Holiday” durante a turnê “Drowned Tour” da rainha do pop. Ela é essa aqui, ó!

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Niki Harris: 1961 – 2001

A sorte de Niki é que o vídeo da turnê é a prova cabal de que Madonna foi a responsável por seu desaparecimento. Vamos aos fatos!

No começo de “Holiday”, tanto Madonna quanto as duas backing vocals entram no palco com lenços vermelhos pendurados na calça. Parte do figurino, você diria? Não só isso! Foi este acessório que motivou a nossa investigação.

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Oba, é feriado!

Pois bem, continuando! A música começa, elas executam os primeiros passos e é então que acontece a tragédia: com 1 minutos e 8 segundos de apresentação, o lenço de Niki cai da calça e ela não percebe.

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Sambando sem lenço e sem documento!

A coreografia continua, todo mundo é só sorrisos e empolgação, mas eis que aos 2 minutos e 29 segundos chega o momento de dançar com o lenço na mão. É quando Niki percebe que seu acessório sumiu! Desespero! Fica nítido no rosto da backing vocal a cara de “fudeu!”.

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Amiga, me ajuda! Eu perdi o lenço!

O que Niki faz então? Num milésimo de segundo, vem a ideia brilhante: ela dança do mesmo jeito, mas sem o lenço na mão. E assim Niki balança a mão vazia, joga o lenço imaginário para cima, pega-o novamente e continua como se nada tivesse acontecido. Afinal, o show tem que continuar!

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Ufa, ela nem percebeu!

Madonna está tão empolgada e concentrada que nem percebe que companheira de palco está de mãos abanando.

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Isso aí, meninas! Estamos arrasando em Detroit!

E assim a coreografia segue até o fim. Mas Niki é esperta. Se Madonna não tinha percebido ainda, não ia ser no grand finale que ela ia notar, né?! A backing, num momento de inteligência, sutileza e rapidez, dá uma última passada pelo palco antes de a música terminar, pega o lenço no chão e termina a coreografia do lado de Madonna com o acessório na mão.

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Ainda bem que eu sou esperta!

O que Niki não contava é que Madonna veria a gravação do show e perceberia que foi ludibriada pela backing vocal. Aquele número musical ensaiado por tantos meses a fio, com tanto suor, que deveria ser um momento apoteótico do show, agora estava registrado para a eternidade como o número em que Niki dançou com um lenço imaginário. Depois disso, a backing vocal nunca mais vista.

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Matei mesmo!

Por isso, Madonna, o nosso veredicto é: culpada! Mas mesmo assim a gente te ama! Parabéns pelos 55 anos!

Uma esfinge chamada Galisteu

A televisão aberta no Brasil tem algumas lendas, seja pelo talento e longevidade, como Fernanda Montenegro e Sílvio Santos, ou por ter feito muito sucesso no passado e hoje viver um pastiche de si mesmo, como a Xuxa. Mas, de todo o cast nacional, o caso mais intrigante atende pelo nome de Adriane Galisteu. Por que até hoje ela se mantém em evidência, apesar da carreira cheia de altos e baixos?

Por mais que Galisteu tivesse uma carreira como modelo, ela só se tornou conhecida no Brasil com a morte de Ayrton Senna, em 1994. Revendo os vídeos daquela época (como sua participação no “Globo Repórter” sobre a morte do piloto), fiquei impressionado ao ver como aquele bicho do mato se transformou em uma mulher forte e independente. Seu grito de alforria, a capa de Playboy de 1995, com a famosa foto em que ela se depilava, até hoje é a terceira edição mais vendida da revista no Brasil, um sucesso que ela tentou repetir este ano, mas que não deu muito certo.

Foi a Playboy que abriu as portas da TV para Galisteu. Ela apresentou programas na GNT, na MTV, na Rede TV  (foi a primeira apresentadora do “Superpop”) e chegou à Record. Na emissora da Barra Funda, teve o momento de maior sucesso da carreira à frente do “É Show”. Mas a ida para o SBT afundou sua carreira. Após várias brigas com Sílvio Santos, foi colocada na geladeira, castigada com um programa nas madrugadas e precisou implorar para que seu contrato fosse rescindido. Conseguiu a rescisão, mas a vida na televisão continuou ladeira abaixo. Acabou chegando à Band, emissora em que seu talento nunca foi totalmente aproveitado e cujos programas duraram poucos meses no ar.

Mas, apesar dos altos e baixos, Galisteu nunca saiu dos holofotes, mesmo quando esteve fora do ar. Muitos críticos se perguntam se a habilidade para vender sua imagem não seria seu verdadeiro talento. Mas questionar o talento de Galisteu é um tanto pesado, pois ela é sim uma boa apresentadora. Principalmente, uma boa entretainer. A época do “É Show” a transformou em uma boa entrevistadora. Além disso, sua imagem no vídeo a consolidou como uma mulher por dentro da moda e cujas roupas eram invejadas. A visibilidade foi tanta que venceu o Troféu Imprensa de 2000 como Melhor Apresentadora, deixando Hebe Camargo para trás. O que aconteceu, então, para que o trem saísse dos trilhos?

Em seu esforço para se manter nas capas de revista, Galisteu acabou comprometendo demais a sua imagem, virando “arroz de festa”, abrindo demais sua privacidade. Além disso, se meteu em uma sucessão de projetos ruins, exibidos em horários piores ainda. O próprio “Projeto Fashion”, seu programa atual, é um exemplo disso: vai ao ar nas noites de sábado, às 22h45, horário em que ninguém mais está com a tv ligada ou já saiu de casa para aproveitar o fim de semana (o programa deu 1 ponto de audiência na estreia). Mas, apesar dos problemas, todas as cotas de patrocínio do “Projeto Fashion” foram vendidas do dia para a noite, apenas para grandes marcas (Fiat, Lojas Marisa, Embelleze, Contém 1 Grama, Impala, e Calvin Klein). Como?

Em 2002, uma pesquisa encomendada pela Veja elegeu Galisteu uma das mulheres mais adoradas pelas brasileiras. O motivo: o modo como refez sua imagem após a morte de Senna, virou exemplo de “alguém capaz de conquistar um lugar ao sol sem que um homem lhe fizesse sombra” e que “encarna a vontade das mulheres de ter independência econômica, mudar a própria vida e ter coragem de superar uma situação adversa”. Talvez estes sejam os segredos da sua sobrevivência e também as armas para superar mais esse desafio chamado “Projeto Fashion”.

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P.S.: Visitando o site do “Projeto Fashion”, descobri que todos as roupas produzidas durante o reality show serão doadas ao Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo e leiloadas. A renda obtida será revertida ao tratamento de garotas que sofrem de anorexia e bulimia. Apesar de ter se tornado clichê buscar uma veia social nos programas, é uma iniciativa bem legal e bem louvável. Praticamente um mea-culpa dos profissionais da moda ao sofrimento que causam a tantas modelos em todo o mundo.

Quem paga a conta mesmo?

Foi-se o tempo que as gravadoras desembolsavam milhões de dólares para produzir videoclipes. Pelo menos é essa a conclusão a que chegamos depois de ver o novo clipe da Jennifer Lopez, “Papi”, lançado hoje. O vídeo, que traz um batalhão de homens correndo atrás da cantora, além de muitos atores, explosões, acidentes e efeitos especiais, com certeza não custou barato. Mas ok, afinal não foi pago unicamente pela Universal Music. Porém, se não foi a gravadora quem pagou, quem foi?

Eu, que não sou ligado a marcas e grifes, identifiquei pelo menos seis merchandisings nos cinco minutos de vídeo: o celular BlackBerry, o site de relacionamentos Planet Love Match, a joalheria Tous, a garrafa da bebida que a garçonete serve (não-sei-o-que Black), o carro da Fiat e a bolsa azul que aparece no meio e no fim (não sei a grife, mas, pela persistência com que aparece, deve ser famosa). Não duvidaria se os salgadinhos atrás da porteira do prédio também fossem propaganda. Até o cachorrinho oferecido pra Jennifer Lopez deve ser de um pet shop. O que importa é que todo o investimento do clipe foi dividido entre essas empresas. A gravadora em si deve ter entrado apenas com uma pequena parte do bolo, se é que entrou.

Já faz um tempo que os clipes têm apelado ao merchan para se pagarem. Lady Gaga já usou essa tática em “Bad Romance“, Britney em “Hold It Against Me” e Katy Perry , então, nem se fala (a cantora conseguiu a façanha de ter o merchandising mais escancarado da última década com os óculos da Vogue no final de “E.T“). Clipes inteiramente bancados pelas gravadoras, como o de “Scream“, do Michael Jackson (que custou 7 milhões de dólares e é até hoje o clipe mais caro da história), não fazem mais parte da indústria fonográfica, que está em crise pelo menos desde o começo dos anos 2000. Mas isso é um problema? Pra mim, não. Afinal, se a indústria precisa manter a roda rodando e os cofres secaram, de algum lugar tem que vir o dinheiro. Essa “venda” só passa a ser problemática quando o merchan atrapalhar a história do filme. E em “Papi”, ele não atrapalha.

No final, é muito bom ver que Jennifer Lopez fez um bom clipe, principalmente bem humorado. Humor é um artigo em faltando no showbiz e, de alguma forma, 2011 está recuperando essa característica. Além de “Papi”, “I Wanna Go“, da Britney, e “Last Friday Night“, da Katy Perry, mostraram neste ano que o melhor pop é aquele que não se leva a sério. E tomara que o ano e a década continuem assim.

Os homens contra Rihanna

Quais limites um jornalista deve respeitar na hora de escrever uma reportagem? É um questionamento que nós, profissionais da comunicação, sempre temos em mente. Mas, aparentemente, este cuidado não passou pela cabeça dos jornalistas Thales de Menezes e Iuri de Castro Tôrres ao criarem a matéria de capa da Ilustrada na Folha de S. Paulo da última sexta-feira (16 de setembro). Aproveitando a chegada da cantora Rihanna ao Brasil, eles fizeram um panorama interessante sobre o comportamente irreverente das cantoras pop que fazem shows por aqui nos próximos meses. A sacada da pauta era realmente boa, mas a forma como ela foi conduzida beirou a falta de respeito.

O trecho mais problemático é este:

Rihanna gravou o primeiro CD -e recebeu disco de ouro- ainda adolescente. Nascida em Barbados, era descrita na imprensa como “decidida” e “dona de seu nariz”.

Aí o marido, o cantor Chris Brown, acertou esse nariz e outras partes do corpo dela.

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Ao tratar a agressão contra Rihanna com comicidade, como parte do espetáculo, os jornalistas demonstraram total falta de sensibilidade com uma situação séria e preocupante. Da forma como é relatada, com extremo mau gosto, a violência não parece um fato grave. Pior ainda, chega a soar como corretiva, em uma visão claramente machista. Afinal, sendo Rihanna uma mulher “decidida” e “dona do seu próprio nariz”, não ia demorar muito para que um homem lhe recolocasse de volta em seu lugar de mulher submissa. Ao debochar dos socos que ela recebeu do ex-namorado, os jornalistas acabam, por tabela, debochando também de milhares de brasileiras que vivem uma situação semelhante.

Pode parecer um exagero, mas não é. Depois que foi agredida pelo ex, Rihanna se tornou um ícone para as mulheres que eram agredidas pelos companheiros, e involuntariamente, já que nunca se posicionou como um mártir ou usou a agressão Seu caso foi explorado em muitos programas de televisão nos EUA, como o da apresentadora Oprah, para alertar as mulheres sobre como se defender e incentivando-as a denunciar os agressores. Em um de seus últimos clipes, “Man Down”, Rihanna retrata uma situação de violência e conclama as mulheres a reagirem ante seus predadores (apesar de clipe mostrar sua vingança, a cantora declarou que era uma encenação extrema de como as mulheres precisavam reagir). Por isso, sempre que se zomba da agressão contra Rihanna, os autores estão zombando também de toda a luta contra a violência que as mulheres sofrem, estão rindo de todas as vítimas que, assim como a cantora, se sentem humilhadas pelas mãos dos homens que julgavam amá-las, mas que não pensaram duas vezes antes de fazer isto:

O rosto de Rihanna após a agressão de Chris Brown. Sim, é uma imagem forte, mas precisa ser mostrada para que nunca se esqueça a violência pela qual passam milhares de mulheres no mundo que não tem tanta visibilidade quanto a artista

O rosto de Rihanna após a agressão do ex. Sim, é uma imagem forte, mas precisa ser mostrada para que nunca se esqueça a violência pela qual passam milhares de mulheres que não tem tanta visibilidade quanto ela

Já faz um bom tempo que o jornalismo enveredou por um caminho em que a informação não é mais o único fator importante, em que a notícia deve divertir e entreter o público. É o que fazem, por exemplo, programas como o “Hoje em Dia”, da Record, e o “Globo Esporte”, da Globo. Principalmente em editorias consideradas mais leves, como cultura e esporte, é cada vez mais sutil a linha que separa a informação do entretenimento, que prioriza as piadinhas em detrimento à informação. Como reverter isso? Sinceramente, acredito que não há mais como frear essa modificação, mas há como evitar que casos como o da Folha se repitam. Manter sempre o respeito ao ser humano pode ser o melhor ponto de referência.

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Atualização em 18 de setembro, às 16h04: O Papel Pop divulgou um vídeo de 10 minutos com os melhores momentos do show da Rihanna em São Paulo. Quem gosta da cantora, vale a pena ver.