Os créditos criativos dos filmes da Marvel

Lembram que eu já disse aqui no blog que os créditos de elenco e equipe técnica estavam cada vez mais sendo deixados para o fim dos filmes? Pois é! Se por um lado os cinéfilos mais exigentes podem dizer que essa estratégia deixa um vácuo no começo da projeção, por outro dá pra afirmar que os diretores não relegaram os créditos a segundo plano só porque muita gente levanta depois que o filme “acaba”. Muitas dessas sequências finais são tão caprichadas e lapidadas quanto os minutos iniciais que prendem a atenção da plateia no filme.

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Apesar de ser uma tendência que atinge vários gêneros, de dramas a ficções científicas, de comédias a filmes de ação, em um nicho específico os créditos finais se tornam pequenas obras de arte: os filmes de super-herói. Nada mais natural, afinal são produções que possuem um orçamento graúdo e muito mais condições de investir pesado no desenvolvimento dessas animações. Principalmente os filmes da Marvel sabem usar este recurso como ninguém. A partir de “Homem de Ferro”, em 2008, que o estúdio criou um jeitão de encerrar os longas que foi replicado em tudo a gigante dos quadrinhos filmou desde então. São basicamente sequências que reinterpretam aspectos da história que você acabou de assistir. Na primeira aventura de Tony Stark, por exemplo, os créditos se concentram no que o filme tinha de mais incrível: viajam pelos detalhes do uniforme super poderoso do herói. Além, é claro, de também reinventar o tema clássico de Black Sabbatah.

Já em “Capitão América”, em 2011, apesar de o filme terminar com o super-herói nos dias atuais, os créditos finais bebem na origem bélica do primeiro Vingador para recriar ilustrações e propagandas clássicas do exército americano durante a Segunda Guerra Mundial. De forma classuda, desfilam aviões dos anos 40, pin-ups e fronts de batalha que reforçam as raízes do herói e ainda complementam o período histórico que vivenciamos ao longo da projeção.

Ainda que todos estes créditos sejam inspirados, nenhum se compara ao da maior aposta da Marvel de todos os tempos: “Os Vingadores”, de 2012. Depois da batalha épica pelo domínio de Nova York, a sequência encerra o filme de forma grandiosa e, ao mesmo tempo, singela. Utilizando apenas detalhes da caracterização dos heróis, os créditos conseguem mostrar a forma como eles se completam e ainda dar a dimensão dos estragos que a batalha provocou ao expor a textura dos uniformes e os arranhões das armaduras. Não é a toa que a sequência esteve entre as finalistas da maior premiação de designers cinematográficos em 2012.

Com “Homem de Ferro 3” neste ano, a Marvel deu o pontapé inicial na segunda aventura dos Vingadores e ainda encerrou a trilogia de Tony Stark com um resumo sensacional dos três filmes do milionário excêntrico. Uma criação que exalta a estética dos quadrinhos e a mescla à dinâmica dos seriado de ação dos anos 70. É uma sequência inspirada que, se somarmos aos créditos de “Thor – O Mundo Sombrio”, mostra que o estúdio está em sua melhor fase criativa e que ótimos desfechos ainda virão até o Vingadores se reunirem novamente em 2015.

(Publicado originalmente em 11/11/2013, no site Salada de Cinema)

A bruxa está solta em ‘Abracadabra’

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No começo dos anos 90, mais precisamente em 1993, o diretor Kenny Ortega, criador de “High School Musical”, foi o homem por trás de outro o filme da Disney “Abracadabra” que marcou uma geração. Um lançamento de Dia de Bruxas que correu o mundo e conquistou audiência até onde a data não é comemorada (como o Brasil).

Inicialmente desenvolvido como um telefilme para o Disney Channel, “Abracadabra” chamou a atenção dos executivos da Disney, que viram no filme potencial para fazer sucesso em escala global. Como prova da confiança do estúdio, o elenco foi liderado pela veterana Bette Midler. Hoje, é engraçado também identificar no trio de protagonistas a atriz Sarah Jessica Parker. Vivendo uma bruxa burra, porém sedutora, a feiticeira Sarah Sanderson poderia muito bem ser um laboratório para Carrie, o símbolo sexual da série “Sex And The City” que ela daria vida muitos anos depois.

No roteiro de “Abracadabra”, as três irmãs bruxas são ressuscitadas pelo jovem Max, que invade a antiga casa das feiticeiras na véspera do Dia das Bruxas para impressionar a garota por quem está apaixonado. Começa então uma perseguição pela cidade de Los Angeles na qual as feiticeiras vão fazer de tudo para recuperar o livro de magia que está com o garoto. É literalmente uma questão de vida ou morte, pois se elas não fizerem o feitiço para a vida eterna antes do nascer do sol, as três morrerão novamente.

O ponto alto do filme fica por conta da cena em que as três feiticeiras se veem no meio de um baile à fantasia. Embora Max tente alertar a todos que as bruxas estão vivas, ninguém lhe dá ouvidos. As irmãs Sanderson aproveitam, então, e lançam um feitiço sobre todos que estão no salão. É só ouvirem a música “I Put A Spell On You” para que todos os convidados dancem até a morte.

Prepare-se para ser amaldiçoado!

(Publicado originalmente em 09/11/2013, no site Salada de Cinema)

‘Mudança de Hábito’ alegra a terça

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Já deu pra perceber a minha predileção por cenas musicais, não? Principalmente as de filmes dos anos 90. Tomando a década como referência, não tem como não falar de uma das comédias de maior sucesso daquela época, o filme “Mudança de Hábito”. Tão bem sucedido, aliás, que ganhou uma continuação e ainda gerou um musical na Broadway.

Protagonizado pela atriz Whoopi Goldberg, o filme conta a história de uma cantora de cassino que, após testemunhar um crime, é colocada no sistema de proteção à testemunha pela polícia. Para não ser descoberta pelos bandidos, Dolores é escondida em um convento. Para ocupar o tempo da cantora, a Madre Superiora coloca Dolores na regência do coral da igreja. É aí que surge seu maior desafio: ensaiar um conjunto de freiras desafinadas e sem sintonia alguma.

A cena mais memorável do filme é esta abaixo, que marca a primeira apresentação pública do coral. O que começa como um coro gospel tradicional aos poucos se transforma em uma apresentação musical menos religiosa, na qual Dolores utiliza técnicas musicais de uma apresentação em um cassino para atrair a atenção. Uma evolução que desagrada os líderes religiosos presentes, mas que cai no gosto da maioria dos frequentadores comuns.

Além do talento de Whoopi Goldberg, merece destaque o tratamento pop que é dado à música gospel na cena e no filme como um todo. Não à toa, a trilha sonora de “Mudança de Hábito” ficou mais de um ano entre os 200 álbuns mais vendidos nos Estados Unidos na época de lançamento (1992).

(Publicado originalmente em 02/11/2013, no site Salada de Cinema)

Uma declaração de amor pra aquecer o coração pro fim de semana

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Tá com o coração gelado, desacreditado no amor ou fechado para balanço? Então hoje até o mais desacreditado dos leitores vai recuperar a fé no cupido. Afinal, não tem como assistir a esta declaração de amor em forma de música do filme “10 Coisas que Eu Odeio em Você” e continuar de mal com a vida. Vamos voltar ao fim dos anos 90?

O ano de 1999 foi especialmente frutífero para as comédias românticas adolescentes que inundaram o cinema no final da década de 90. Junto com “10 Coisas que Eu Odeio em Você”, os filmes “Nunca Fui Beijada” e “Ela é Demais” compõem uma sequência de lançamentos que poderiam muito bem constituir uma trilogia do amor nos tempos de escola. Se os critérios forem mais elásticos, dá até pra transformar em uma quadrilogia com a inclusão do drama cheio de cenas de sexo “Segundas Intenções”. Pelo menos pra mim, são quatro filmes que marcaram muito a adolescência com essa mistura de conto da Cinderela, liçãozinha de moral e trilha sonora bacaninha.

No entanto, “10 Coisas Que Eu Odeio em Você” sempre teve um tempero a mais. Talvez pelo fato de a história adaptar para o ambiente escolar a peça “A Megera Domada”, escrita por Shakespeare no século XVI. No roteiro, o calouro Cameron se apaixona por Bianca, mas ela só pode começar a namorar alguém quando a irmã mais velha dela, a mal humorada Kat, também arrumar um namorado. Para resolver o problema, Cameron paga para o bad boy Patrick conquistar o coração de Kat. (Se você achou a história parecida com a da novela “O Cravo e a Rosa”, saiba que ambas se inspiram na peça de Shakespeare).

Olhando hoje em perspectiva, o elenco, que revelava atores que se destacariam futuramente no cinema, também pode ser visto como um fator que justifica o sucesso do filme. Para isso, o carisma de Heath Ledger e Joseph Gordon-Levitt foram fundamentais, além da forte identificação que todas as meninas estabeleciam com a atriz Julia Stiles. A cena que justifica a entrada de “10 Coisas que Eu Odeio em Você” neste especial está logo abaixo. Nela, Patrick chama a atenção de Kat com um cover meio desastrado da música “Can’t Take My Eyes Off Of You”, que foi sucesso na voz do cantor Frankie Valli em 1967. Marco da cultura pop desde a década de 60, a canção mais uma vez deixou marcas na história cultural ao ser a grande protagonista de uma cena que inspirou milhares de adolescentes no mundo inteiro. Tanto que muita gente da minha geração, em algum momento da vida, seja em pedidos de namoro ou casamentos, usou a música para imortalizar momentos em que queriam compartilhar com o mundo o amor que sentiam.

(Publicado originalmente em 26/10/2013, no site Salada de Cinema)

A cena que transformou chuva em sinônimo de amor

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Sempre que chove, passam duas coisas pela minha cabeça: tomar um banho de chuva que nem a cantora Vanessa da Mata diz na música “Ai ai ai” ou pegar um guarda-chuva e sair dançando que nem o ator Gene Kelly em “Cantando na Chuva”. Se você é cinéfilo mesmo, principalmente um fã de musicais, tenho certeza de que compartilha comigo este segundo desejo. Afinal, a cena se tornou um clássico do cinema e faz parte do imaginário coletivo do mundo inteiro.

Inclusive, chama atenção a forma como a sequência resistiu ao tempo. Na época de lançamento do filme, 1952, os críticos e as premiações quase deixaram “Cantando na Chuva” passar em branco. No Oscar, por exemplo, a produção só conseguiu duas indicações (melhor atriz coadjuvante para Jean Hagen e melhor trilha musical), mas não levou nenhuma estatueta para casa. O filme ficou engavetado pelo estúdio MGM até a década de 70, quando passou por um processo de restauração. Foi só nos anos 80, quando entrou na grade de programação das emissoras de TV, que “Cantando na Chuva” ganhou popularidade e começou a conquistar prestígio. O ciclo de louros tardio se fechou em 2007 quando o American Film Institute elegeu a produção como o quinto melhor filme da história do cinema.

Pra entender o sucesso de “Cantando na Chuva” é só assistir à sua cena mais famosa. Felizes, bem-humorados e despretensiosos, os quatro minutos que Gene Kelly passa dançando e rodopiando deixam sempre um sorriso na boca de quem assiste. Neste momento do filme, o personagem está repleto de felicidade, pois tem um grande plano para o trabalho e é retribuído no amor. Ou seja, dois motivos de sobra pra transbordar felicidade e contaminar todo mundo do lado de cá.

E haja bom humor pra conseguir fazer a cena! Quem vê o ator esbanjando felicidade, não imagina que ele estava com 38 graus de febre quando gravou a coreografia. Mesmo sem uma certeza sobre o tempo que levou a filmagem (alguns dados apontam um dia inteiro, enquanto outros sites noticiam 3 dias), o que importante é que, mesmo doente, o ator permaneceu lá, encharcado, repetindo e repetindo a cena até que ela estivesse ok. Além do desconforto do resfriado, Kelly ainda precisou trocar várias vezes de figurino, pois além de molhados, os ternos ainda encolhiam com a água.

Outra curiosidade sobre a cena é em relação à tempestade. Por muito tempo, correu a informação de que a água foi misturada com leite para que os pingos d’água ficassem grossos e se tornassem visíveis para a câmera. Apesar de criativa, a solução foi desmentida por produtores do filme há pouco tempo. Eles afirmaram a chuva era composta apenas de água mesmo e que a visibilidade dos pingos foi obtida usando apenas técnicas de iluminação do cenário.

Além de não ser uma música inédita (“Singing in the Rain” foi criada em 1929 para o filme “Hollywood Revue”), quase que a cena da chuva não existiu. No roteiro original, a canção seria executada em trio por Gene Kelly, Donald O’Connor e Debbie Reynolds. Após algumas alterações, o número envolvendo os três passou a ter a música “Good Morning” como trilha sonora e “Singing in the Rain” ficou então liberada para o número solo de Gene Kelly. Uma mudança que há 60 anos deixa os dias chuvosos muito mais alegres.

(Publicado originalmente em 14/09/2013, no site Salada de Cinema)

Aprenda a seduzir com as chefes de torcida de ‘Beleza americana’

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Não é novidade para ninguém que as chefes de torcida são um grande ícone cultural dos EUA. Qualquer um que tenha crescido nas décadas de 80 e 90 e acompanhado os filmes adolescentes da época sabe que elas são um importante elemento da hierarquia social nas escolas americanas e, por isso mesmo, um fator preponderante na formação dos jovens. Não é surpresa, portanto, que elas protagonizem uma cena-chave do filme “Beleza Americana”, que critica abertamente o american way of life.

É a chefe de torcida Angela que tem a função de despertar o protagonista Lester de seu estado de apatia. Passando pela crise da meia idade e imerso num casamento em ruínas, Lester descobre uma nova motivação para a vida numa apresentação de cheerleaders durante um jogo de basquete. Uma sequência que mistura realidade e devaneio para criar uma cena sedutora e poética.

Se em uma cena os elementos nunca estão ali por acaso, em uma produção como “Beleza Americana”, que se propõe a criticar a sociedade, cada item possui um significado. O esporte não poderia ser outro que não o basquete, número um em popularidade nos EUA. A música, outra que não fosse “On Broadway”, que fala tão bem do sonho americano de fama, riqueza e reconhecimento. Isso sem contar que canção ficou marcada como parte da trilha do musical “All That Jazz”, um filme que trata sobretudo da morte, o que cria um paralelo interessante com a história de Lester, que sabemos desde o começo do filme que está prestes a morrer. As repetições de movimentos enquanto Lester fantasia sobre Angela têm relação direta com o nosso apego a detalhes, à forma como o nosso cérebro parece registrar cada momento de um acontecimento para deixá-lo para sempre vivo na memória.

E, claro, ainda tem as rosas, marca registrada do filme. A espécie, que tem o mesmo nome da produção (Beleza americana), é linda, mas não possui espinho nem perfume. Por isso, dá pra pensar que são uma alusão à superficialidade das pessoas, que priorizam a aparência e ignoram detalhes da essência do ser humano. Ao surgirem do decote de Angela, as pétalas deixam transparecer que Lester começa a construir seu castelo sobre o que a cheerleader tem de mais efêmero e fugaz.

A cena das chefes de torcida é apenas o ponto de partida para uma trajetória que vai se mostrar trágica e irreversível. Nela, o sonho americano está presente em cada detalhe e as fraquezas da sociedade começam a aparecer nas entrelinhas. Sem a coreografia, outras cenas marcantes do filme, como as rosas que caem do teto, não seriam possíveis. Porque a vida só ganhou um novo significado quando Lester olhou para Angela e viu apenas flores.

(Publicado originalmente em 07/09/2013, no site Salada de Cinema)