Oscar 2015 – ‘Caminhos da Floresta’

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Quem me conhece, sabe que sou um cara otimista. Do mesmo jeito que procuro um lado bom nos problemas, tenho o hábito de também enxergar qualidades até em filmes ruins. Portanto, quando meu veredicto é de que uma produção é uma bomba, é sinal de que deva ser mesmo um caso perdido. É esse o meu sentimento em relação a “Caminhos da Floresta”. Indicado a três estatuetas no Oscar deste ano (sendo a mais importante a de Melhor Atriz Coadjuvante para a Meryl Streep), o musical é uma decepção do começo ao fim. E como dói um fã de musicais – como eu – ter que afirmar isso!

Apesar da embalagem bonitinha que pode até lhe valer os dois prêmios técnicos a que concorre – Design de Produção e Figurino, o filme se arrasta e consegue a façanha de minguar até o carisma de personagens consagrados como Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e Rapunzel. Com isso, o cineasta Rob Marshall só deixa claro, a cada trabalho, que os prêmios recebidos por “Chicago”, em 2003, foram realmente uma compensação pelo desprezo que “Moulin Rouge” recebeu no ano anterior.

Mas quais são os problemas de “Caminhos da Floresta”? Será que nem o carisma de Meryl Streep salva o filme? São alguns pontos que comento no vídeo abaixo.

P.S.: Não bastassem os problemas, o roteiro ainda inclui pitadas de moralismo e machismo constrangedores. É só observar o desfecho do adultério envolvendo dois personagens comprometidos. O homem segue a vida, enquanto a mulher é punida. Com a morte. Deve ser ranço do selo Disney…

(para conferir os comentários anteriores, é só clicar aqui, aqui e aqui)

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Oscar 2015 – ‘Livre’

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Quando li as primeiras notícias sobre “Livre”, não posso mentir que me bateu uma preguiça danada do filme. Afinal, quantas vezes a gente já não viu essa história da pessoa que põe o pé na estrada pra refletir sobre a vida e encontrar seu lugar no mundo? Até Machado de Assis caiu nesse clichê em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (ainda que seja pra criticar esse costume da elite – o que, claro, escapou da minha leitura adolescência). Pra piorar, histórias de autoajuda me dão sono! Tanto que a única vez em que dormi no cinema foi vendo “Comer, Rezar, Amar”. Ou seja, fui assistir ao filme com os dois pés atrás.

E não é que saí emocionado do cinema? Se é verdade que todas as histórias da humanidade já foram contadas, “Livre” é a maior prova de que o mais importante não é “o que acontece”, mas sim “como acontece”. Um roteiro adulto, doloroso, extremamente fragmentado e que nos leva a repensar profundamente as decisões que tomamos. Se a vida é feita de escolhas, enfrentar as consequências precisa ser parte do jogo. Mesmo que a gente não sabia como.

Nesta terceira postagem sobre os indicados ao Oscar, eu comento minhas impressões sobre o filme e quais as chances dele (na minha modesta opinião) nos prêmios de “Melhor Atriz” e “Melhor Atriz Coadjuvante”. É só dar play aqui embaixo!

(você confere as postagens anteriores aqui e aqui)

Oscar 2015 – ‘O Jogo da Imitação’

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Quarta-feira é o dia nacional de pagar meia no cinema. Que tal usar a promoção pra conferir mais um indicado ao Oscar deste ano? A minha dica é o filme “O Jogo da Imitação”, que concorre a oito estatuetas no dia 22 de fevereiro (Filme, Diretor, Ator, Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Montagem e Direção de Arte).

Pra quem não sabe do que se trata, é a cinebiografia do matemático Alan Turing, que foi peça-chave para descobrir o código secreto que os nazistas usavam para se comunicar na Segunda Guerra Mundial e que contribuiu e muito para o fim do conflito. Não bastasse ser um drama sensacional, é ainda a oportunidade de conhecer uma história que ficou guardada a sete chaves por muitas décadas e que tem como ponto central um protagonista cheio de nuances e contradições, herói e “bandido” ao mesmo tempo.

Quer saber o motivo? Então aperta o play aqui embaixo e confere o meu comentário sobre o filme.

(e aqui você confere a primeira postagem dessa série com os filmes “Boyhood – Da Infância à Juventude” e “O Grande Hotel Budapeste”).

Oscar 2015 – ‘Boyhood’ e ‘O Grande Hotel Budapeste’

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Crítica de cinema é algo que todo mundo acha que sabe fazer, mas nem todo mundo faz. Exige conhecimento profundo sobre estética, técnica, história, semiótica e muita bagagem cultural. Por isso, dificilmente eu me arrisco a dizer que faço “crítica”. Por mais que conheça ou goste da sétima arte (ou de música e televisão), não acho que tenha (ainda!) um conhecimento sistêmico que me gabarite como crítico.

Prefiro muito mais a resenha ou o comentário. Nesses dois formatos, posso me prender mais ao meu ponto de vista sobre determinado produto cultural. Posso mesclar minha opinião com curiosidades e detalhes da produção, com a única função trazer um guia pessoal e subjetivo para quem quer ver ou ouvir uma obra.

É com esse pensamento que tenho abordado os indicados ao Oscar deste ano no telejornal Unesp Notícias, da TV Unesp. Pra mim, funciona também como um laboratório, já que comentários sobre cinema são frequentes em jornais, mas raros na televisão. De modo geral, trata-se de uma conversa franca com o telespectador para que ele obtenha informações para decidir se quer ou não assistir a determinado filme. E, caso escolha vê-lo, que aceite esse convite com a liberdade total e irrestrita de discordar da minha opinião. Até prefiro que discorde!

Neste primeiro vídeo, dou destaque a duas produções: “O Grande Hotel Budapeste”, do diretor Wes Anderson, e “Boyhood – Da Infância à Juventude”, do cineasta Richard Linklater.

Vamos lá, contrariem-me!

As mil e uma manias de Hitchcock

Ao longo dos 51 anos em que se dedicou ao cinema, Alfred Hitchcock foi uma verdadeira máquina de produzir filmes. São 54 projetos, praticamente um a cada ano. Se em alguns anos não houve produção, como 1952, isso foi compensado pelos períodos em que mais de um filme chegava aos cinemas, como 1954, que contou com as estreias de “Disque M Para Matar” e “Janela Indiscreta”. Tão vasta quanta a produção são também as manias que o mestre do suspense colecionava por trás das câmeras e que muitos cinéfilos não conhecem.

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A primeira delas está no nível de planejamento que ele exigia para os filmes. A partir do momento em que aprovava um roteiro, Hitchcock o esmiuçava nos mínimos detalhes. Os storyboards e esboços eram precisos para cada cena e traziam todos os detalhes de enquadramentos e movimentos de câmera. Era um processo tão criativo e detalhado que, ao terminar a decupagem do roteiro de “Psicose”, Hitchcock disse aos seus colaboradores em tom de lamento: “Pronto, o filme acabou. Agora tenho que ir lá e colocá-lo em película”.

Além disso, Hitchcock editava o roteiro e retirava quaisquer sequências desnecessárias, mantendo apenas o essencial para a compreensão da história. Um hábito que ele cultivava desde o tempo em que não possuía o corte final que chegaria às telas. Era bastante comum, na época, que os estúdios afastassem diretores quando o resultado não era satisfatório. Todo o conteúdo filmado era então entregue a outro profissional, que, na sala de montagem, reorganizava as cenas até chegar ao resultado que agradasse ao estúdio. Para defender sua visão criativa, Hitchcock filmava pouco material, apenas o suficiente. Assim, o estúdio não teria como remontar o filme caso não gostasse dele.

Durante a pré-produção, um filme de Hitchcock era marcado pela otimização do processo e pela obsessão pela verossimilhança. No primeiro caso, como o filme estava pronto nos storyboards, as decisões sobre o que por na tela eram muito direcionadas. Não se perdia tempo, por exemplo, discutindo qual sapato o ator usaria se nos desenhos os pés não apareciam na cena. Apesar da riqueza de detalhes dos rascunhos, Hitchcock não dava orientações precisas sobre o que queria, deixando a equipe criar e ter suas próprias deias. Pena que depois, no entanto, o diretor nunca dava crédito aos profissionais e assumia as ideias como suas.

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Para garantir que o filme fosse aceito como real pelo espectador, Hitchcock exigia que todas as decisões tivessem amparo na realidade. Em “Psicose”, equipes fotografaram a cidade de Phoenix de todos os modos possíveis para embasar as decisões de cenário, figurino e caracterização dos personagens. Chegaram, inclusive, a visitar casas de moradores e fotografar tudo, até o interior das gavetas. Para a confecção dos cadáveres, o diretor ouvia donos de funerárias e seguia fielmente os dados sobre o estado de conservação dos corpos, tudo para que fossem realmente assustadores.

Mas o grande cabo de guerra em um set de filmagem hitchcockiano era mesmo com os atores. Por diversas vezes, o diretor declarou publicamente que eram eles que estragavam seus filmes. Também dizia que eram “crianças mimadas” e que mereciam ser tratados como gado. O diretor não tinha paciência com as exigências dos astros e chegava a dizer que “ou eles vestem a roupa e interpretam o papel da forma como eu quiser, ou estão fora”. Atuar em um filme do diretor era um grande desafio, pois a liberdade criativa dos atores era limitada por dois fatores: pelas ideias de Hitchcock para cada cena (“Você pode fazer qualquer coisa com o personagem e eu não vou interferir, desde que esteja dentro da minha concepção”) e pelo storyboard de cada cena, que dizia exatamente as marcações que os atores deviam seguir para não atrapalhar os enquadramentos e movimentos pensados pelo diretor (“A câmera é absoluta”).

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No entanto, o jogo de gato-e-rato com os atores não impedia Hitchcock de se encantar com as atrizes. Em alguns casos, um fascínio exagerado e inconveniente. Duas delas afirmam ter passado por maus momentos nas mãos de Hitchcock: Tippi Hedren, protagonista de “Os Pássaros”, e Vera Miles, que trabalhou em “O Homem Errado” e “Psicose”. Tippi conta que sua vida virou um inferno após rejeitar flertes do diretor. A partir daí, ele ameaçava constantemente destruir sua carreira e a torturava psicologicamente (a história baseou o telefilme “The Girl”, da HBO). Já as consequências para Vera Miles foram mais sutis. Após protagonizar “O Homem Errado”, Hitchcock assumiu o controle sobre a carreira da atriz. No entanto, a relação entre eles começou a se deteriorar quando ela anunciou casamento e entrou de vez em colapso a partir da primeira gravidez. Como vingança, Hitchcock a colocou em um papel menor em “Psicose” e ordenou que a figurinista lhe vestisse com as roupas mais feias possíveis (os detalhes da história estão no livro “Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose”, que originou o filme “Hitchcock”).

Ou seja: no final das contas, a mente do mestre do suspense era tão misteriosa quanto seus filmes.

(Publicado originalmente em 09/03/2013, no site Salada de Cinema)

‘Caçadores de Obras-Primas’ peca pela pouca importância com a História

Um tema delicado e complexo, cheio de feridas não cicatrizadas. Abordar o nazismo num filme por si só já é uma tarefa complicada. Pior ainda é se o foco da película ganha destaque nos jornais poucos meses antes da estreia. Foi com todos estes complicadores que “Caçadores de Obras-Primas” precisou lidar. É uma pena, no entanto, que muitas das boas intenções tenham ficado pelo caminho.

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Quinta experiência por trás das câmeras do mundialmente famoso George Clooney, o filme retrata um fato da Segunda Guerra Mundial pouco explorado pela sétima arte. Em meio ao holocausto, Hitler ordenou que o exército alemão roubasse obras de arte de museus e de colecionadores particulares. As pinturas e esculturas de gênios como Michelangelo, Picasso e Rodin, entre muitos outros, seriam a principal atração do museu que o chefe nazista planejava erguer na Áustria. Para frustrar os planos do ditador, um grupo de especialistas em arte se uniu ao exército americano para vasculhar a Europa, encontrar as obras saqueadas e evitar que ícones da arte ocidental caíssem em mãos erradas.

De volta às manchetes em novembro, quando o governo alemão localizou 1.500 quadros pilhados durante a Segunda Guerra, o fato histórico flerta na telona com as aventuras de Indiana Jones, mas infelizmente não tem o brilho do herói criado na década de 70. Mesclando desproporcionalmente ação, sentimentalismo e uma comédia pouco inspirada, falta ao filme transmitir a real gravidade do roubo das obras de arte e a importância da missão de resgate. Ao saquear e destruir obras-primas, Hitler pôs em perigo uma parte significativa da História. Mesmo que não sejamos amantes de arte, esses símbolos culturais representam o mundo ocidental e, indiretamente, cada um de nós. Ao ofuscar a nobreza dos heróis e o drama da situação com uma abordagem e uma trilha que transformam tudo em piada, George Clooney colocou “Caçadores de Obras-Primas” abaixo de filmes recentes como “Bastardos Inglórios” e “Operação Valquíria”. E tudo porque não consegue fazer o público se importar com o destino da humanidade.

Além disso, mesmo com astros como Cate Blanchett, Matt Damon e o próprio George Clooney, criar nove protagonistas é um exagero que só dificulta a identificação com a história. No final, sabemos tão pouco sobre cada um deles que não faz diferença se eles vivem, morrem ou voltam para suas famílias.

“Caçadores de Obras-Primas” mostra que um grande orçamento não fez bem à criatividade de George Clooney. Faltam a ele a sensibilidade de “Boa Noite, Boa Sorte” e a coragem de “Tudo Pelo Poder”. No entanto, o pior problema do filme talvez não esteja na tela, mas sim em cada pessoa na plateia. Afinal, o golpe mais dolorido é na expectativa de que o filme estivesse à altura da pequena, porém consistente, filmografia do diretor, que nunca havia amarelado diante de assuntos difíceis.

(Publicado originalmente em 19/02/2014, no site Social Bauru)

Desabafos garantem show de interpretação em ‘Álbum de Família’

Diz a sabedoria popular que família é tudo igual. Talvez venha daí a sensação de alívio após assistir a “Álbum de Família”. Isso porque o filme, que tem um elenco recheado de estrelas como Meryl Streep, Julia Roberts e Ewan McGregor, retrata um núcleo familiar desunido e cheio de ressentimentos, que felizmente se distancia bastante do dia a dia de muita gente.

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Segunda empreitada no cinema do diretor John Wells, que tem uma carreira dedicada principalmente a seriados de TV, a película acompanha a família Weston, que precisa se reunir depois que o pai desaparece sem motivo. Para tentar localizá-lo e fazer companhia para a mãe, as filhas do casal voltam para sua terra natal no Meio Oeste americano. Mas o que deveria ser um encontro reconfortante traz à tona desabafos, discussões e segredos que mostram que por dentro a grama do vizinho é mesmo sempre menos verde.

Baseado em uma peça do dramaturgo Tracy Letts (que também ficou responsável pelo roteiro), o filme não nega suas raízes teatrais ao se concentrar nos ótimos diálogos e nos embates entre os familiares. Por isso, o elenco estelar é o principal destaque. É hipnotizante a forma como os doze atores “principais” estão completamente entregues às fragilidades e deficiências de seus personagens, dando-lhes humanidade em caracterizações que poderiam facilmente descambar para a caricatura. A forma como o roteiro costura as relações familiares torna todos essenciais para a narrativa, sendo uma tarefa árdua criar uma escala de importância entre eles.

Porém, usando como referência as indicações de Meryl Streep e Julia Roberts ao Oscar, é correto afirmar que a dupla é mesmo a espinha dorsal do filme. A primeira como Violet, a mãe com câncer viciada em medicamentos, e a segunda como Barbara, a filha que se mudou pra longe da família e que retorna ao interior enquanto seu próprio casamento desmorona. É desta relação despedaçada, marcada por feridas nunca cicatrizadas, que explodem confissões cheias de mágoa e que obrigam as atrizes a navegar do afeto à loucura em poucos segundos e dentro de uma mesma cena. Um espetáculo que vale cada centavo do ingresso!

Ainda que aqui e ali surjam risadas pontuais, principalmente graças às farpas irônicas e sarcásticas trocadas pelos personagens, os risos parecem funcionar muito mais como reações nervosas à tensão da história. Confinados em uma casa do meio do nada, a sensação é de que os personagens estão sempre desconfortáveis e, como o filme bem define, em um “estado de aflição espiritual” que só aumenta com o calor insuportável do lugar.

Com isso, fica a dúvida de por que “Álbum de Família” concorreu ao Globo de Ouro entre as produções de comédia. A explicação mais sensata é a de que o estúdio inscreveu o filme na categoria para garantir indicações a Meryl Streep e Julia Roberts em um ano em que a disputa entre os dramas já estava muito acirrada. Um artifício baixo que não precisaria ser utilizado, já que os desempenhos das atrizes estão entre os melhores de suas carreiras.

(Publicado originalmente em 05/02/2014, no site Salada de Cinema)

‘O Lobo de Wall Street’ é uma comédia feroz e provocativa

Um palavrão que é repetido 506 vezes. Consumo de drogas que vai do álcool ao crack. Muita nudez, com sexo para todos os lados. Se você se incomodou com estes detalhes, talvez “O Lobo de Wall Street” não seja indicado pra você. Recomendado apenas para maiores de 18 anos, o novo projeto do diretor Martin Scorsese é uma comédia que extrapola todos os limites. E é justamente por essa ousadia que vale a pena baixar a guarda!

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Roteirizado a partir das memórias de um especulador da bolsa de valores de Nova York, o filme acompanha a vida de Jordan Belfort desde a década de 80. Entre golpes, crimes e picaretagens, ele vê seu pequeno escritório se tornar um grande centro de venda de ações. Com a riqueza, surge o vício em drogas, em sexo (na maioria das vezes com prostitutas) e a necessidade de escapar de uma equipe do FBI que investiga crimes financeiros.

Apesar de uma carreira construída principalmente com dramas, Scorsese se mostra muito seguro em “O Lobo de Wall Street” e com timing para a comédia. Enquanto algumas sequências são conduzidas devagar, dando tempo para compreender os acontecimentos que resultarão numa grande piada, em outras o diretor investe em rápidas tiradas visuais, em exageros que beiram a caricatura e em diálogos ácidos e diretos. Tudo isso sem esquecer características da sua filmografia, como a violência explícita.

A direção do elenco reforça a tradição de que ele consegue tirar o melhor dos atores. Leonardo DiCaprio, por exemplo, se entrega de forma tão intensa à loucura, ao deboche e ao nonsense do protagonista que cria o melhor papel da sua carreira. Não é a toa que o ator já ganhou o Globo de Ouro e é apontado como um dos favoritos ao Oscar. Como na maioria dos filmes de Scorsese, “O Lobo de Wall Street” conta ainda com uma galeria memorável de coadjuvantes, como o amigo vivido por Jonah Hill e a participação de Matthew McConaughey como tutor do protagonista, todos cativantes e com personalidades marcantes.

Censurado em vários países por causa dos excessos e acusado nos EUA de glamourizar a vida de criminosos (o que só mostra que muita gente não entendeu que o filme na verdade os ridiculariza), “O Lobo de Wall Street” só não é perfeito porque suas 3 horas de duração tornam a experiência um pouco cansativa. Indicada a cinco Oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado), é pouco provável que esta loucura de Scorsese leve o maior prêmio da noite. Porém, é animador ver que um cineasta com quase 50 anos de carreira ainda tem disposição para sair da zona de conforto e provocar quem assiste.

(Publicado originalmente em 28/01/2014, no site Social Bauru)

‘Frozen’ atualiza o papel da mulher nas histórias de princesa

Todo mundo na faixa dos 30 anos cresceu rodeado pelos clássicos da Disney. Seja com a Branca de Neve, a Bela Adormecida ou a Cinderela, em algum momento da infância a gente se rendeu aos contos de fada em que uma princesa esperava um príncipe encantado mudar sua vida. Com “Frozen – Uma Aventura Congelante ”, a Disney dá sinais que de que entendeu que hoje os tempos são outros, mas sem perder a magia e as características que a tornaram famosa no mundo dos desenhos animados.

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Inspirado em um conto dinamarquês de 1845 considerado clássico na Europa, o filme conta a história das irmãs Anna e Elsa, princesas do reino de Arendelle. Mas há um segredo: Elsa, a mais velha, tem o poder de controlar a neve e de transformar tudo que toca em gelo. Na noite em que ela é coroada rainha, este segredo vem à tona. Nervosa, Elsa coloca todo o reino sob um rigoroso inverno e foge para as montanhas. Cabe então a Anna ir atrás da irmã e trazer o verão de volta.

Em cartaz aqui no Bauru desde o começo do mês, “Frozen” se transformou em um sucesso imediato desde sua estreia nos EUA, em novembro. Além de conquistar a crítica logo de cara, o filme já arrecadou mais de 700 milhões de dólares em bilheteria no mundo inteiro, número que só comprova sua popularidade. Há duas semanas, o filme ganhou o troféu de Melhor Animação no Globo e Ouro e já é considerado favorito ao Oscar deste ano nesta mesma categoria. Mas o que faz a película assim tão encantadora?

Primeiro de tudo, o padrão Disney de qualidade. Os personagens e os cenários são tão bonitos e detalhados que é até difícil escolher para onde olhar em cada cena. Depois, que a história intercala romance, ação, humor, drama e foca na bonita mensagem de amor entre irmãs. É um filme que faz diverte e emociona e que ainda reforça os laços familiares.

Em terceiro lugar, é legal ver como a Disney aprendeu a rir de si mesma e recheou o filme de piadas sobre os clichês de contos de fada. É uma tiração de sarro sem fim com amor à primeira vista, príncipes encantados, amor verdadeiro, mas sem soar agressivo ou ofensivo. E ainda tem o boneco de neve Olaf, que foi dublado pelo humorista Fábio Porchat e que rouba a cena com sua inocência e suas gracinhas.

Mas o que provavelmente vai colocar “Frozen” como um marco na história da Disney é ver que o filme criou duas protagonistas fortes e que não dependem dos homens à sua volta. Ainda que essa mudança de perfil tenha começado há dois anos com a princesa Merida, de “Valente”, Elsa e Anna concretizam de vez a independência feminina entre as princesas e o entendimento de que hoje a felicidade das mulheres não está mais inteiramente nas mãos de um príncipe encantado. Uma visão que vai agradar às mamães e criar uma nova referência feminina para as meninas na plateia.

Publicado originalmente em 24/01/2014, no site Social Bauru)

6 interpretações que conquistam apenas pela voz

Com certeza você já assistiu a um filme e ficou com uma voz presa na memória porque ela mexeu com as suas emoções ou porque queria descobrir o dono daquele som. Criar a interpretação vocal de um personagem é comum nas animações, mas os filmes “de carne e osso” também têm uma galeria de vozes famosas em os atores sequer aparecerem na tela.

Samantha, em “Ela”

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No caso mais recente da nossa lista, a voz sexy da atriz Scarlett Johanson dá vida ao sistema operacional Samantha que conquista o coração do protagonista Joaquin Phoenix no novo filme do diretor Spike Jonze. Uma interpretação com tanta vivacidade que rendeu a Scarlett o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Roma, mas a colocou em uma grande polêmica ao ser desqualificada do Globo de Ouro. De acordo com as regras da premiação, o fato de a atriz não aparecer na tela nem por um segundo tornou seu papel inelegível.

 

HAL 9000, em “2001 – Uma odisseia no espaço”

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Se um dia as máquinas se virarem contra o homem graças à inteligência artificial, o maior medo dos cinéfilos é que elas ajam como o HAL 9000 de “2001 – Uma odisseia no espaço”. Muito desse temor vem da personalidade sádica, fria e dissimulada presente na voz do canadense Douglas Rain. Ator com várias montagens de Shakespeare no currículo, Rain escondeu as más intenções do supercomputador com uma falsa gentileza sem qualquer vestígio de sentimentos. O resultado é que HAL é o maior destaque na filmografia do ator, que retomou o personagem no filme “2010 – O ano em que faremos contato”, de 1984.

 

J.A.R.V.I.S., na trilogia “Homem de Ferro”

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Outro sistema operacional famoso é o escudeiro do magnata Tony Stark. O dono da voz é o ator Paul Bettany, mundialmente conhecido como o assassino albino Silas, de “O Código Da Vinci”. Apesar de estar em uma das trilogias mais rentáveis da Marvel e no sucesso “Os Vingadores”, Bettany já afirmou em entrevistas que nunca assistiu aos filmes. Segundo ele, o trabalho de dublar J.A.R.V.I.S é realizado após as filmagens, dura cerca de duas horas e ele não sabe sequer a história inteira dos filmes, pois recebe um papel com as falas e não o roteiro completo. Um jeito fácil de embolsar alguns milhões de dólares, não é?

 

Darth Vader, em “Star Wars”

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Apesar de ser vivido pelo ator britânico David Prowse, que vestiu o figurino, fez as cenas de ação e interpretou todos os diálogos nas filmagens, o maior vilão das galáxias tem a voz do ator americano James Earl Jones. A dublagem ocorreu porque George Lucas considerava o sotaque de Prowse muito forte e o ator só descobriu a troca na noite de estreia! Como não era a pessoa na tela, Jones pediu para não ser creditado nos dois primeiros filmes, pois considerava a dublagem um efeito especial, e não um trabalho de interpretação. No entanto, ele mudou de ideia no terceiro filme e seu nome passou a aparecer em todas as produções a partir do relançamentos de 1997.

 

Ghostface , na quadrilogia “Pânico”

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Se a franquia de Wes Craven mudou o cinema de terror dos anos 90, o dublador Roger L. Jackson tem uma parcela de responsabilidade. A ideia era que ele dublasse o serial killer Ghostface apenas na pós-produção do primeiro filme, mas o diretor gostou tanto de sua interpretação que o incorporou à rotina de filmagem. Para dar realismo às cenas, Jackson conversava de verdade com os personagens por telefone. Só que este era o único contato que ele tinha com a equipe! O dublador era proibido de conhecer os atores para que eles não associassem sua voz a uma pessoa e sempre tivessem medo deste assassino sem rosto. Diabólico, não?

 

O Liquidificador, em “Reflexões de um liquidificador”

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O representante brasileiro nesta lista é o onipresente Selton Mello, que dá vida a um eletrodoméstico nesta comédia de humor negro de 2010. Narrador da história e espécie de consciência da protagonista Elvira, o liquidificador é quem dá o tom surreal ao roteiro. É uma pena, no entanto, que os anos de experiência de Selton como dublador não acrescentem nenhuma característica marcante à voz do liquidificador, que soa tagarela e cínico como tantos outros personagens de sua carreira.

(Publicado originalmente em 19/02/2014, no site Salada de Cinema)