6 interpretações que conquistam apenas pela voz

Com certeza você já assistiu a um filme e ficou com uma voz presa na memória porque ela mexeu com as suas emoções ou porque queria descobrir o dono daquele som. Criar a interpretação vocal de um personagem é comum nas animações, mas os filmes “de carne e osso” também têm uma galeria de vozes famosas em os atores sequer aparecerem na tela.

Samantha, em “Ela”

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No caso mais recente da nossa lista, a voz sexy da atriz Scarlett Johanson dá vida ao sistema operacional Samantha que conquista o coração do protagonista Joaquin Phoenix no novo filme do diretor Spike Jonze. Uma interpretação com tanta vivacidade que rendeu a Scarlett o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Roma, mas a colocou em uma grande polêmica ao ser desqualificada do Globo de Ouro. De acordo com as regras da premiação, o fato de a atriz não aparecer na tela nem por um segundo tornou seu papel inelegível.

 

HAL 9000, em “2001 – Uma odisseia no espaço”

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Se um dia as máquinas se virarem contra o homem graças à inteligência artificial, o maior medo dos cinéfilos é que elas ajam como o HAL 9000 de “2001 – Uma odisseia no espaço”. Muito desse temor vem da personalidade sádica, fria e dissimulada presente na voz do canadense Douglas Rain. Ator com várias montagens de Shakespeare no currículo, Rain escondeu as más intenções do supercomputador com uma falsa gentileza sem qualquer vestígio de sentimentos. O resultado é que HAL é o maior destaque na filmografia do ator, que retomou o personagem no filme “2010 – O ano em que faremos contato”, de 1984.

 

J.A.R.V.I.S., na trilogia “Homem de Ferro”

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Outro sistema operacional famoso é o escudeiro do magnata Tony Stark. O dono da voz é o ator Paul Bettany, mundialmente conhecido como o assassino albino Silas, de “O Código Da Vinci”. Apesar de estar em uma das trilogias mais rentáveis da Marvel e no sucesso “Os Vingadores”, Bettany já afirmou em entrevistas que nunca assistiu aos filmes. Segundo ele, o trabalho de dublar J.A.R.V.I.S é realizado após as filmagens, dura cerca de duas horas e ele não sabe sequer a história inteira dos filmes, pois recebe um papel com as falas e não o roteiro completo. Um jeito fácil de embolsar alguns milhões de dólares, não é?

 

Darth Vader, em “Star Wars”

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Apesar de ser vivido pelo ator britânico David Prowse, que vestiu o figurino, fez as cenas de ação e interpretou todos os diálogos nas filmagens, o maior vilão das galáxias tem a voz do ator americano James Earl Jones. A dublagem ocorreu porque George Lucas considerava o sotaque de Prowse muito forte e o ator só descobriu a troca na noite de estreia! Como não era a pessoa na tela, Jones pediu para não ser creditado nos dois primeiros filmes, pois considerava a dublagem um efeito especial, e não um trabalho de interpretação. No entanto, ele mudou de ideia no terceiro filme e seu nome passou a aparecer em todas as produções a partir do relançamentos de 1997.

 

Ghostface , na quadrilogia “Pânico”

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Se a franquia de Wes Craven mudou o cinema de terror dos anos 90, o dublador Roger L. Jackson tem uma parcela de responsabilidade. A ideia era que ele dublasse o serial killer Ghostface apenas na pós-produção do primeiro filme, mas o diretor gostou tanto de sua interpretação que o incorporou à rotina de filmagem. Para dar realismo às cenas, Jackson conversava de verdade com os personagens por telefone. Só que este era o único contato que ele tinha com a equipe! O dublador era proibido de conhecer os atores para que eles não associassem sua voz a uma pessoa e sempre tivessem medo deste assassino sem rosto. Diabólico, não?

 

O Liquidificador, em “Reflexões de um liquidificador”

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O representante brasileiro nesta lista é o onipresente Selton Mello, que dá vida a um eletrodoméstico nesta comédia de humor negro de 2010. Narrador da história e espécie de consciência da protagonista Elvira, o liquidificador é quem dá o tom surreal ao roteiro. É uma pena, no entanto, que os anos de experiência de Selton como dublador não acrescentem nenhuma característica marcante à voz do liquidificador, que soa tagarela e cínico como tantos outros personagens de sua carreira.

(Publicado originalmente em 19/02/2014, no site Salada de Cinema)

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Uma declaração de amor pra aquecer o coração pro fim de semana

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Tá com o coração gelado, desacreditado no amor ou fechado para balanço? Então hoje até o mais desacreditado dos leitores vai recuperar a fé no cupido. Afinal, não tem como assistir a esta declaração de amor em forma de música do filme “10 Coisas que Eu Odeio em Você” e continuar de mal com a vida. Vamos voltar ao fim dos anos 90?

O ano de 1999 foi especialmente frutífero para as comédias românticas adolescentes que inundaram o cinema no final da década de 90. Junto com “10 Coisas que Eu Odeio em Você”, os filmes “Nunca Fui Beijada” e “Ela é Demais” compõem uma sequência de lançamentos que poderiam muito bem constituir uma trilogia do amor nos tempos de escola. Se os critérios forem mais elásticos, dá até pra transformar em uma quadrilogia com a inclusão do drama cheio de cenas de sexo “Segundas Intenções”. Pelo menos pra mim, são quatro filmes que marcaram muito a adolescência com essa mistura de conto da Cinderela, liçãozinha de moral e trilha sonora bacaninha.

No entanto, “10 Coisas Que Eu Odeio em Você” sempre teve um tempero a mais. Talvez pelo fato de a história adaptar para o ambiente escolar a peça “A Megera Domada”, escrita por Shakespeare no século XVI. No roteiro, o calouro Cameron se apaixona por Bianca, mas ela só pode começar a namorar alguém quando a irmã mais velha dela, a mal humorada Kat, também arrumar um namorado. Para resolver o problema, Cameron paga para o bad boy Patrick conquistar o coração de Kat. (Se você achou a história parecida com a da novela “O Cravo e a Rosa”, saiba que ambas se inspiram na peça de Shakespeare).

Olhando hoje em perspectiva, o elenco, que revelava atores que se destacariam futuramente no cinema, também pode ser visto como um fator que justifica o sucesso do filme. Para isso, o carisma de Heath Ledger e Joseph Gordon-Levitt foram fundamentais, além da forte identificação que todas as meninas estabeleciam com a atriz Julia Stiles. A cena que justifica a entrada de “10 Coisas que Eu Odeio em Você” neste especial está logo abaixo. Nela, Patrick chama a atenção de Kat com um cover meio desastrado da música “Can’t Take My Eyes Off Of You”, que foi sucesso na voz do cantor Frankie Valli em 1967. Marco da cultura pop desde a década de 60, a canção mais uma vez deixou marcas na história cultural ao ser a grande protagonista de uma cena que inspirou milhares de adolescentes no mundo inteiro. Tanto que muita gente da minha geração, em algum momento da vida, seja em pedidos de namoro ou casamentos, usou a música para imortalizar momentos em que queriam compartilhar com o mundo o amor que sentiam.

(Publicado originalmente em 26/10/2013, no site Salada de Cinema)

15 fatos que você talvez não saiba sobre o Superman

Com a estreia de “Homem de Aço”, o vovô dos super-herois ganha mais um capítulo em sua longa trajetória. Lançado há 75 anos, Superman possui uma lista incalculável de aparições nos quadrinhos, no rádio, na TV e no cinema. Tão longa quanto os títulos são as curiosidades que cercam a vida do filho mais famoso de Krypton. De detalhes de sua criação até os bastidores das produções para o cinema.

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1 – Criado em 1933 pela dupla Joe Shuster e Jerry Siegel, dois meninos de apenas 17 anos, no primeiro rascunho o herói usava várias referências da mitologia e era um personagem poderoso, careca, malvado e com sede de destruição. Somente em um segundo tratamento é que ele se transformou na figura altruísta que conhecemos.

2 – Várias das características de Superman vieram da vida pessoal dos criadores. A inabilidade social de Jerry Siegel com as mulheres, por exemplo, foi o que originou a identidade secreta do herói, o repórter Clark Kent. Outro detalhe também oriundo da vida particular de Siegel é a indestrutibilidade do Super-Homem. O jovem, que havia perdido o pai em um assalto, criou então uma pessoa à prova de balas.

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3 – Os criadores levaram 4 anos para conseguir publicar o super-herói. Todas as editoras que rejeitavam o personagem argumentavam que ele era uma aberração, que nunca faria sucesso no mercado editorial, que naquele momento era dominado por detetives, ficção científica e caubóis.

4 – A justificativa para Clark Kent ser repórter e não outro profissional é simples: sendo um jornalista, ele saberia de todos os problemas e ficaria mais fácil salvar a humanidade.

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5 – No começo, o Superman ainda não possuía uma das suas principais características: ele não voava. Para se deslocar, o herói pulava de prédio em prédio.

6 – Em 1940, o Homem de Aço desembarcou nas rádios. Na adaptação, os roteiristas fizeram alterações importantes na concepção do herói, que foram inclusive adotadas nas HQs. Foi a partir da versão radiofônica que o Superman começou a voar, que foi criada a kryptonita e que o jornal em que Clark e Lois trabalham passou a se chamar Planeta Diário (antes era Estrela Diária).

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7 – O império do Superman quase foi destruído em 1959, mas o responsável não era nenhum vilão. A causa foi o suicídio do ator George Reeves, que vivia o Homem de Aço na adaptação para a televisão. Após seis temporadas interpretando o homem mais forte do mundo, Reeves entrou em depressão porque não conseguia desassociar sua imagem do super-herói e, por isso, não recebia convites para outros papéis.

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8 – Para amenizar o clima fúnebre que pairou após a morte de Reeves, o produtor do seriado de TV criou “As aventuras de Superpup”. O conceito? Era o mesmo seriado do Superman, utilizando até os mesmos cenários, mas protagonizado por cachorros. Tipo um Super-Homem misturado com TV Colosso. Felizmente, nenhuma emissora aceitou o piloto e a série nunca foi ao ar (apesar de hoje já estar no YouTube).

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9 – E se além de combater o crime e enfrentar os bandidos, o Homem de Aço também cantasse e sapateasse? Foi esta a ideia por trás do musical da Broadway “É um pássaro, é um avião, é o Superman”, que estreou no teatro em 1966. Claro que a mistura não podia dar certo e a peça foi cancelada após 128 apresentações. Mesmo assim os produtores foram teimosos e transformaram o espetáculo em um especial para TV que foi ao ar em 1975.

10 – O poder do Superman havia se tornado tão forte e invencível que na década de 1960 não havia obstáculos que ele não pudesse vencer. Foi só então que os quadrinhos começaram as explorar os dramas pessoais do personagem: se ele conseguiria levar uma vida normal, se poderia se envolver amorosamente com alguém etc.

11 – O primeiro roteiro do filme “Superman”, de 1978, tinha uma assinatura de peso. O dono das ideias era Mario Puzo, o autor do livro que originou “O Poderoso Chefão”. Ele escreveu um roteiro de 500 páginas que daria origem ao primeiro filme e também à sua continuação. Porém, depois de entregar os escritos, ele foi substituído por dois outros roteiristas que reescreveram a história.

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12 – A procura pelo ator que daria vida ao Superman no cinema foi uma verdadeira epopeia. Os produtores cogitaram escalar Al Pacino, Clint Eastwood, Robert Redford e Dustin Hoffman para o papel principal. Até Charles Bronson foi considerado! Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger também chegaram a se oferecer, mas foram ignorados Logo, no entanto, se chegou ao consenso de que era preciso um nome desconhecido para não ofuscar o brilho do Homem de Aço. Depois de testar mais de 200 atores novatos, os produtores encontraram Christopher Reeve (que, apesar do sobrenome parecido, não tem nenhum parentesco com o ator George Reeves, que se suicidou nos anos 50).

13 – Para dirigir o filme, a escolha também foi difícil. George Lucas negou o convite, pois já estava comprometido com a franquia “Star Wars”. Steven Spielberg, que tinha estourado com “Tubarão”, também declinou. Até o diretor Francis Ford Coppola chegou a ser cogitado! No final, quem assumir a cadeira foi Richard Donner.

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14 – Os filmes “Superman” e “Superman 2” foram rodados simultaneamente para baratear o custo de produção. No entanto, as filmagens foram interrompidas em 1977 para que o diretor Richard Donner finalizasse o primeiro filme, que seria lançado o ano seguinte. Quando as filmagens foram retomadas, no entanto, o diretor foi demitido mesmo já tendo rodado 75% das cenas da segunda parte. Quem assumiu o comando foi o cineasta Richard Lester, que, além de terminar as filmagens, refilmou cerca 50% das cenas que já estavam prontas.

15 – O contrato fechado com Marlon Brando para participar dos dois filmes previa que o ator receberia quase 12% da bilheteria arrecadada. Depois do sucesso estrondoso da primeira parte, os produtores voltaram atrás e excluíram todas as cenas do ator na sequência para não pagá-lo novamente e para aumentar a margem de lucro. Com isso, cenas importantes para o entendimento da história foram jogadas no lixo.

(Publicado originalmente em 18/07/2013, no site Salada de Cinema)

Como as continuações vão mudar a cara da Pixar

Desde que estreou com “Toy Story”, em 1995, a Pixar construiu uma redoma de admiração. Além da qualidade técnica das animações, que não se comparavam a nada que os concorrentes faziam naquele momento, o estúdio sempre mereceu destaque e reconhecimento pela qualidade dos roteiros que produzia. Histórias de uma inteligência tão grande que conseguiam divertir as crianças e ao mesmo tempo emocionar os adultos. Nos últimos anos, no entanto, uma nova realidade começou a dar as caras: se antes a preferência era por histórias originais, a partir de 2010 as continuações ganharam força na Pixar. Uma alteração que indica que os rumos da empresa vão mudar definitivamente nos próximos anos.

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Não que sequências sejam uma novidade para o estúdio. Afinal, o próprio “Toy Story” ganhou uma em 1999 e outra em 2010. No entanto, ao longo de 15 anos, a turma de brinquedos foi a única exceção no portfólio da Pixar. Dos 11 filmes lançados entre 1995 e 2010, apenas dois são continuações. E ainda assim são trabalhos tão cuidadosos e caprichados que “Toy Story 2” é apontado por muitos cinéfilos como o melhor da trilogia e dá de lavada em outros filmes originais, como “Carros”.

No entanto, a segunda década dos anos 2000 trouxe uma mudança de paradigma. Dos três filmes lançados entre 2011 e 2013, dois são continuações: “Carros 2” e agora “Universidade Monstros”. Uma tendência que deve continuar nos próximos anos, pois a Disney (que comprou a Pixar em 2006) já anunciou para 2015 a sequência de “Procurando Nemo”. No embalo, Brad Bird, de “Os Incríveis”, declarou que pensa em continuar a história da família de super-heróis e Mark Andrews, o homem por trás de “Valente”, também disse que quer um novo filme da princesa Merida. Somados ainda à declaração do presidente da Disney de que nos próximos cinco anos eles vão “continuar investindo em histórias originais e em grandes sequências” (assim mesmo, no plural), é de se esperar que grande parte das histórias ganhem novos desdobramentos.

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Mas o que isso muda? Muita coisa. Para a Pixar, a qualidade da história sempre foi tão importante quanto o sucesso de bilheteria e muitas vezes este sucesso era uma simples consequência da qualidade. O que mais chama atenção nas novas continuações, no entanto, é que elas soam extremamente gratuitas. “Carros”, por exemplo, já é um filme original tão fraco que não precisava de uma sequência. “Monstros S.A.” e “Procurando Nemo”, por outro lado, são filmes incríveis, mas com um final muito claro. Por isso, os novos projetos levam a crer que o mais importante agora não é a continuidade da história e o desenvolvimento dos personagens, mas sim a busca por dinheiro. Uma mudança de rumos na Pixar que tem tudo a ver com o jeito que a Disney conduz suas empresas.

É só olhar, por exemplo, para a Marvel, outra empresa que o estúdio do Mickey comprou. A gigante dos quadrinhos criou uma verdadeira avalanche de filmes de super-heróis e construiu os personagens de forma que eles rendam novas histórias sempre, nem que para isso precisem juntar todos em um só filme (como em “Os Vingadores”) ou recomeçar a história com um novo elenco (taí “O Espetacular Homem Aranha”). E por que isso? Porque agora os personagens são estrelas multiplataforma. Além do cinema e dos quadrinhos, os heróis têm atrações temáticas na Disney World e são fonte inesgotável de produtos licenciados. Logo, precisam estar sempre em evidência. A partir do momento em que entraram para o universo Disney, Capitão América, Homem de Ferro, Nemo, Buzz Lightyear e todos os personagens da Pixar se tornaram grandes geradores de renda, com público fiel e cativo. Um potencial de lucro que qualquer empresa comercial do mundo exploraria até a última gota.

A curto prazo, os novos anúncios geraram tanto felicidade nos fãs quanto preocupação nos críticos. Além de uma necessidade empresarial, será que as continuações são um sinal de que a Pixar está passando por uma crise criativa? É uma questão que só o tempo vai responder.

(Publicado originalmente em 25/06/2013, no site Salada de Cinema)

As trilham que embalam Baz Luhrmann – parte 2

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Se a trilha de “Romeu + Julieta” colocou o nome de Baz Luhrmann no cenário fonográfico americano, a de “Moulin Rouge” mostra como a música pop pode estar na raiz de um filme. Em um momento no qual o musical era visto como um gênero morto em Hollywood, o diretor decidiu que era hora de atualizar o formato para os dias atuais e para a geração que cresceu assistindo aos clipes da MTV. Para isso, Luhrmann traçou uma estratégia infalível: fez releituras de canções que as pessoas já conheciam e criou novas músicas juntando versos de várias composições. Uma fórmula que originou uma das trilhas mais marcantes dos anos 2000.

De original mesmo, há apenas uma música: “Come What May”, que é cantada pelos atores Nicole Kidman e Ewan McGregor. Todo o restante são covers ou mashups (junção das letras ou melodias de duas músicas ou mais). Dentre as releituras, tem Nirvana (“Smell Like Teen Spirit”), Nat King Cole (“Nature Boy”), Madonna (“Like a Virgin”) e Queen (“The Show Must Go On”). O cover mais famoso, sem dúvida, é o de “Lady Marmalade”, que fez a música do grupo Labelle voltar com tudo para as rádios quase 30 anos após ter sido número um na Billboard. Nas vozes de Christina Aguilera, Mya, Pink e Lil’ Kim, a canção esteve novamente no topo das paradas de vários países, ganhou um Grammy e o clipe recebeu dois prêmios no MTV Video Awards.

Já dentre os mashups, nenhum consegue bater o “Elephant Love Medley”. Na música de pouco mais de 4 minutos são misturados trechos de 12 canções dos mais diferentes artistas. De Beatles, Phil Collins e U2 a Elton John, Kiss e Whitney Houston. Além da dinâmica que dá ao filme, o mashup é responsável por um dos momentos mais divertidos, que leva o espectador a tentar adivinhar qual verso é de qual música.

Além de cativar o espectador, a música pop no filme também é usada parasurpreender. Com as mudanças de arranjo e principalmente com as misturas musicais, cada coreografia é uma surpresa para o público, que nunca sabe o que esperar. O melhor exemplo é “El Tango de Roxanne”. Após uma introdução de tango clássico emprestada da música “Tanguera”, entram os vocais de “Roxanne”, do The Police. O resultado é uma música tão criativa quanto improvável.

Unindo o que existe de melhor na música pop, é claro que a recepção também seria a melhor possível. O álbum da trilha sonora de “Moulin Rouge” estreou em quinto lugar na parada americana e foi subindo até ficar em terceiro. Em outros países, como a Austrália, virou hit absoluto e emplacou em primeiro. Resultado que compensou os dois anos de negociações para conseguir autorização de uso de todas as músicas.

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Depois de optar por uma trilha instrumental clássica e épica em “Austrália” (pra mim, um tiro no pé que justifica boa parte do fracasso do filme com o público, uma vez que a marca pop do diretor não estava presente), Luhrmann volta à boa forma agora com “O Grande Gatsby”. É só pegar a lista das faixas para perceber como ele entregou este trabalho para figurões da música atual. Segundo o diretor, foram dois anos de trabalho nos quais ele tentou identificar quais cantores hoje teriam o mesmo peso e representatividade que os ícones do jazz tinham na década de 1920, na qual se passa a história. Produzida em conjunto com o rapper americano Jay-Z, a trilha aposta em novos nomes de prestígio (como Florence + The Machine, Sia e Gotye) e artistas de popularidade mais que comprovada (como Beyoncé, Fergie, will.i.am e Jack White). Além de canções próprias, novamente a seleção inclui releituras, como a versão para “Back to Black”, da Amy Winehouse, e de “Crazy In Love”, da Beyoncé.

Assim como em “Romeu + Julieta”, mais uma vez Luhrmann investe em uma trilha que sintetiza a indústria musical na época do lançamento do filme. É um álbum que, se ouvido daqui a 10 anos, mostrará ao ouvinte a mistura de pop com influência retrô, música eletrônica e R&B que atualmente domina as rádios. A decisão de sonorizar os anos 1920 com música contemporânea já rendeu inclusive ótimos resultados nas paradas. A trilha sonora estreou em segundo lugar entre os CDs mais vendidos nos Estados Unidos na primeira semana de venda, um resultado melhor que os de “Moulin Rouge” e “Romeu + Julieta” atingiram em todo o tempo em que ficaram na listagem da Billboard. Um sucesso que só mostra que o Midas australiano voltou com tudo!

(Publicado originalmente em 14/06/2013, no site Salada de Cinema)

As trilhas que embalam Baz Luhrmann – parte 1

Pela estética extravagante, farsesca e exagerada, só de bater os olhos em um filme dá pra dizer que ele é do diretor Baz Luhrmann. Do mesmo jeito, dá pra reconhecer suas obras só por um passar de ouvidos. Além de assumir a música pop como uma marca de identidade, o diretor ainda é conhecido por usar músicas atuais para sonorizar histórias que se passam em períodos históricos distantes. Daí surge um bordel na França de 1900 que toca Nirvana e uma Nova York de 1920 embalada pelo rap de Jay-Z. Fator importante ainda na atração do público jovem, as trilhas sonoras recheadas de canções conhecidas e populares são um traço presente desde a estreia do diretor australiano nas telas.

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E não havia melhor jeito de usar música no cinema do que com um musical. Em “Vem Dançar Comigo”, de 1992, Luhrmann mescla composições instrumentais e clássicos do pop para contar a história do bailarino que precisa ganhar um concurso de dança de salão. Com um pé no teatro de revista e outro no conto de fadas, as canções ganham um novo significado: viram ao mesmo tempo um hino de salão e um hit de rádio. É o caso, por exemplo, de “Perhaps Perhaps Perhaps”, bolero em versão de 1964 cantada para atriz Doris Day. Já para embalar o envolvimento entre o dançarino galã e a aprendiz atrapalhada, é o cover de “Time After Time”, de Cindy Lauper, que entra na parada. Uma tática para aproveitar a carga emocional da música para muitas pessoas e usá-la a favor da identificação com o filme.

Uma artimanha que o diretor também usou ao escalar “Love Is In The Air” como música-tema de “Vem Dançar Comigo”. A canção de John Paul Young lançada em 1978 ganhou uma versão remixada, que mantém diversos elementos sonoros da versão original e acrescenta atualidade e efervescência. Ainda possui a aura cafona que tomou conta da música ao longo do tempo, mas a transformou naquele guilty pleasure que ninguém assume que gosta, mas todo mundo ouve e dança. Por causa do filme, “Love Is In The Air” voltou à parada de sucesso australiana e chegou a ser a quarta mais tocada no país em 1992. Uma prova de que as trilhas de Baz não ficam restritas apenas aos filmes e mexem também com a indústria fonográfica.

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Um poder de fogo que os Estados Unidos conheceram com ainda mais força na estreia de Luhrmann em Hollywood. Em “Romeu + Julieta”, a história clássica de William Shakespeare foi atualizada para os dias atuais tanto na concepção visual e narrativa quanto na auditiva. Para falar do amor proibido entre dois adolescentes, além de colocar atores jovens e bonitos em cena, era preciso também incluir o que o público-alvo ouvia naquele momento. Por isso, a trilha transborda bandas que faziam sucesso entre os jovens em 1996 e, com isso, o rock radiofônico não ficou de fora. Estão lá, por exemplo, Everclear, Radiohead e Garbage, que estourou nas paradas americanas naquele ano. “Crush #1”, a música da banda na trilha, ficou no topo da parada de rock por quatro semanas, virou tema de abertura de série de TV e ainda recebeu uma indicação de Melhor Música no MTV Movie Awards.

No entanto, quem realmente virou a cara da MTV naquele ano foi o grupo The Cardigans. “Lovefool” foi lançada dois meses antes da estreia de “Romeu + Julieta” e foi um sucesso imediato. Com isso, o filme se beneficiou e muito do barulho gerado nas paradas de sucesso, uma vez que o clipe com as imagens dos atores Leonardo DiCaprio e Claire Danes passava sem parar na MTV.

Se por um lado “Romeu + Julieta” foi ajudado pelo The Cardigans, o filme também criou seus ícones com a cantora Des’ree. A música “Kissing You”, que toca quando os apaixonados se veem no baile pela primeira vez, é o grande tema romântico do filme e é apontada pelos críticos como o ponto alto da produção. Escrita especialmente para a trilha, a canção é executada quase na íntegra no filme e conta até com a participação especial da própria cantora. Para espremer o hit até a última gota, “Kissing You” também ganhou um videoclipe com imagens do filme e foi incluída no terceiro álbum de Des’ree, “Supernatural”.

Além de catapultar os artistas para o sucesso, o álbum de “Romeu + Julieta” foi ainda o primeiro grande sucesso das trilhas sonoras de Baz Luhrmann. A coletânea alcançou o posto de segunda trilha mais vendida no período de acordo com os levantamentos da Billboard. Um resultado que supera inclusive as vendas da trilha de “Moulin Rouge”, filme no qual a música pop adquiriu o papel mais importante na carreira do diretor australiano.

(Publicado originalmente em 13/06/2013, no site Salada de Cinema)

O homem que transformou o banho em medo

Uma mulher no banho. A porta se abre. Pela cortinha do banheiro, vemos um vulto se aproximar. Uma mão puxa a cortina. A mulher se assusta. O vulto desfere uma série de facadas. A mulher se debate. O sangue da vítima escorre pelo ralo. O vulto vai embora. O corpo da mulher fica caído no chão. Tenho certeza de que só pela descrição você visualizou a cena mais famosa de “Psicose”, do diretor Alfred Hitchcock. E, junto com a cena, ouviu também a trilha sonora angustiante e fatal que embala o homicídio. Além da inventividade do mestre do suspense, um dos responsáveis por este momento tão icônico do cinema é o compositor Bernand Herrmann, um dos maestros mais importantes que passaram por Hollywood e que trabalhou com os diretores como Orson Welles e Martin Scorcese.

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Nascido em Nova York em 1911, Herrmann enveredou pela música graças ao estímulo do pai, que o levava à ópera e o incentivou a aprender violino. Sua primeira experiência profissional na composição de trilhas sonoras foi para programas de rádio. Foi assim que conheceu Orson Welles. O maestro criava as trilhas que davam a atmosfera dramática das adaptações radiofônicas de Welles, inclusive a de “Guerra dos Mundos”, que deixou a população americana em pânico ao acreditar que o país realmente estava sendo invadido por alienígenas (o que só mostra que, desde o começo, Herrmann já estava destinado a mexer com o imaginário das pessoas).

A passagem do rádio para o cinema também foi consequência da parceria com Orson Welles. E não foi qualquer estreia: Herrmann é o compositor da trilha de “Cidadão Kane”, filme tido até hoje como um dos melhores da história do cinema. O debute foi tão bem sucedido que ele recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Trilha Sonora pelo filme.

Apesar de trilhar a obra-prima de Welles, a fama de Herrmann veio mesmo com os trabalhos junto a Hitchcock. Com o diretor, trilhou quase todos os filmes entre “O Terceiro Tiro”, de 1955, a “Marnie, Confissões De Uma Ladra” de 1964, período que inclui os grandes sucessos “Um Corpo que Cai”, “Intriga Internacional” e “Psicose”. Além dos filmes, era também o responsável pela trilha sombria e assustadora do programa de TV do diretor, o “The Alfred Hitchcock Hour”. No entanto, em 1966, a parceria que parecia tão sólida foi abalada. Hitchcock recusou a trilha composta por Herrmann para o filme “Cortina Rasgada”, alegando que queria algo mais pop e o que o estilo do compositor estava ultrapassado. Aí os dois nunca mais de falaram.

Se para Hithcock o som do compositor soava velho, para outros diretores isso não era verdade. Após o fim da parceria com Hitchcock, Herrmann engatou trilhas com François Truffaut (“Fahrenheit 451”), Brian de Palma (“Trágica Obsessão”) e com Martin Scorcese em “Taxi Driver”, em 1976, seu último trabalho no cinema.

As trilhas compostas por Hermann desde cedo se destacaram por fugir do lugar comum. Em uma época em que os temas eram compostos para serem executados por toda a orquestra, o maestro optava por arranjos que privilegiavam determinado naipe de instrumentos. Em “Psicose“, por exemplo, a trilha utiliza apenas instrumentos de corda. Também alterou a duração dos temas, que trocavam os longos arranjos por instrumentações curtas e de fácil identificação.

Dono de um gênio arredio e defensor da liberdade criativa irrestrita para os compositores, Hermman só se envolveu em projetos nos quais pôde transformar um roteiro em notas musicais sem a interferência do diretor (motivo pelo qual os pitacos de Hitchcock tornaram a parceria insustentável). Em busca desta realização artística, envolveu-se em 51 projetos dos mais variados, o que originou uma produção versátil que engloba temas heroicos e aventureiros (como “Intriga Internacional” e “Viagem ao Centro da Terra”) e tensos e angustiantes (como “Taxi Driver” e “Um corpo que cai”). Além de ajudar a narrativa a evoluir, Herrmann queria que as trilhas também fossem relevantes quando ouvidas fora do cinema, o que demonstra que, acima da sétima arte, seu compromisso primordial era com a música. Uma paixão, inclusive, que só considerava completa com o casamento das funções de compositor e maestro. Para ele, não liderar a orquestra na gravação dos temas era como um pintor que permite que outra pessoa coloque as cores no esboço de uma pintura. Era na regência dos músicos que ele deixava sua impressão digital. Uma assinatura que fez os banhos em hotéis nunca mais serem os mesmos no mundo inteiro.

(Publicado originalmente em 09/06/2013, no site Salada de Cinema)