15 fatos que você talvez não saiba sobre o Superman

Com a estreia de “Homem de Aço”, o vovô dos super-herois ganha mais um capítulo em sua longa trajetória. Lançado há 75 anos, Superman possui uma lista incalculável de aparições nos quadrinhos, no rádio, na TV e no cinema. Tão longa quanto os títulos são as curiosidades que cercam a vida do filho mais famoso de Krypton. De detalhes de sua criação até os bastidores das produções para o cinema.

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1 – Criado em 1933 pela dupla Joe Shuster e Jerry Siegel, dois meninos de apenas 17 anos, no primeiro rascunho o herói usava várias referências da mitologia e era um personagem poderoso, careca, malvado e com sede de destruição. Somente em um segundo tratamento é que ele se transformou na figura altruísta que conhecemos.

2 – Várias das características de Superman vieram da vida pessoal dos criadores. A inabilidade social de Jerry Siegel com as mulheres, por exemplo, foi o que originou a identidade secreta do herói, o repórter Clark Kent. Outro detalhe também oriundo da vida particular de Siegel é a indestrutibilidade do Super-Homem. O jovem, que havia perdido o pai em um assalto, criou então uma pessoa à prova de balas.

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3 – Os criadores levaram 4 anos para conseguir publicar o super-herói. Todas as editoras que rejeitavam o personagem argumentavam que ele era uma aberração, que nunca faria sucesso no mercado editorial, que naquele momento era dominado por detetives, ficção científica e caubóis.

4 – A justificativa para Clark Kent ser repórter e não outro profissional é simples: sendo um jornalista, ele saberia de todos os problemas e ficaria mais fácil salvar a humanidade.

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5 – No começo, o Superman ainda não possuía uma das suas principais características: ele não voava. Para se deslocar, o herói pulava de prédio em prédio.

6 – Em 1940, o Homem de Aço desembarcou nas rádios. Na adaptação, os roteiristas fizeram alterações importantes na concepção do herói, que foram inclusive adotadas nas HQs. Foi a partir da versão radiofônica que o Superman começou a voar, que foi criada a kryptonita e que o jornal em que Clark e Lois trabalham passou a se chamar Planeta Diário (antes era Estrela Diária).

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7 – O império do Superman quase foi destruído em 1959, mas o responsável não era nenhum vilão. A causa foi o suicídio do ator George Reeves, que vivia o Homem de Aço na adaptação para a televisão. Após seis temporadas interpretando o homem mais forte do mundo, Reeves entrou em depressão porque não conseguia desassociar sua imagem do super-herói e, por isso, não recebia convites para outros papéis.

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8 – Para amenizar o clima fúnebre que pairou após a morte de Reeves, o produtor do seriado de TV criou “As aventuras de Superpup”. O conceito? Era o mesmo seriado do Superman, utilizando até os mesmos cenários, mas protagonizado por cachorros. Tipo um Super-Homem misturado com TV Colosso. Felizmente, nenhuma emissora aceitou o piloto e a série nunca foi ao ar (apesar de hoje já estar no YouTube).

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9 – E se além de combater o crime e enfrentar os bandidos, o Homem de Aço também cantasse e sapateasse? Foi esta a ideia por trás do musical da Broadway “É um pássaro, é um avião, é o Superman”, que estreou no teatro em 1966. Claro que a mistura não podia dar certo e a peça foi cancelada após 128 apresentações. Mesmo assim os produtores foram teimosos e transformaram o espetáculo em um especial para TV que foi ao ar em 1975.

10 – O poder do Superman havia se tornado tão forte e invencível que na década de 1960 não havia obstáculos que ele não pudesse vencer. Foi só então que os quadrinhos começaram as explorar os dramas pessoais do personagem: se ele conseguiria levar uma vida normal, se poderia se envolver amorosamente com alguém etc.

11 – O primeiro roteiro do filme “Superman”, de 1978, tinha uma assinatura de peso. O dono das ideias era Mario Puzo, o autor do livro que originou “O Poderoso Chefão”. Ele escreveu um roteiro de 500 páginas que daria origem ao primeiro filme e também à sua continuação. Porém, depois de entregar os escritos, ele foi substituído por dois outros roteiristas que reescreveram a história.

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12 – A procura pelo ator que daria vida ao Superman no cinema foi uma verdadeira epopeia. Os produtores cogitaram escalar Al Pacino, Clint Eastwood, Robert Redford e Dustin Hoffman para o papel principal. Até Charles Bronson foi considerado! Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger também chegaram a se oferecer, mas foram ignorados Logo, no entanto, se chegou ao consenso de que era preciso um nome desconhecido para não ofuscar o brilho do Homem de Aço. Depois de testar mais de 200 atores novatos, os produtores encontraram Christopher Reeve (que, apesar do sobrenome parecido, não tem nenhum parentesco com o ator George Reeves, que se suicidou nos anos 50).

13 – Para dirigir o filme, a escolha também foi difícil. George Lucas negou o convite, pois já estava comprometido com a franquia “Star Wars”. Steven Spielberg, que tinha estourado com “Tubarão”, também declinou. Até o diretor Francis Ford Coppola chegou a ser cogitado! No final, quem assumir a cadeira foi Richard Donner.

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14 – Os filmes “Superman” e “Superman 2” foram rodados simultaneamente para baratear o custo de produção. No entanto, as filmagens foram interrompidas em 1977 para que o diretor Richard Donner finalizasse o primeiro filme, que seria lançado o ano seguinte. Quando as filmagens foram retomadas, no entanto, o diretor foi demitido mesmo já tendo rodado 75% das cenas da segunda parte. Quem assumiu o comando foi o cineasta Richard Lester, que, além de terminar as filmagens, refilmou cerca 50% das cenas que já estavam prontas.

15 – O contrato fechado com Marlon Brando para participar dos dois filmes previa que o ator receberia quase 12% da bilheteria arrecadada. Depois do sucesso estrondoso da primeira parte, os produtores voltaram atrás e excluíram todas as cenas do ator na sequência para não pagá-lo novamente e para aumentar a margem de lucro. Com isso, cenas importantes para o entendimento da história foram jogadas no lixo.

(Publicado originalmente em 18/07/2013, no site Salada de Cinema)

Como as continuações vão mudar a cara da Pixar

Desde que estreou com “Toy Story”, em 1995, a Pixar construiu uma redoma de admiração. Além da qualidade técnica das animações, que não se comparavam a nada que os concorrentes faziam naquele momento, o estúdio sempre mereceu destaque e reconhecimento pela qualidade dos roteiros que produzia. Histórias de uma inteligência tão grande que conseguiam divertir as crianças e ao mesmo tempo emocionar os adultos. Nos últimos anos, no entanto, uma nova realidade começou a dar as caras: se antes a preferência era por histórias originais, a partir de 2010 as continuações ganharam força na Pixar. Uma alteração que indica que os rumos da empresa vão mudar definitivamente nos próximos anos.

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Não que sequências sejam uma novidade para o estúdio. Afinal, o próprio “Toy Story” ganhou uma em 1999 e outra em 2010. No entanto, ao longo de 15 anos, a turma de brinquedos foi a única exceção no portfólio da Pixar. Dos 11 filmes lançados entre 1995 e 2010, apenas dois são continuações. E ainda assim são trabalhos tão cuidadosos e caprichados que “Toy Story 2” é apontado por muitos cinéfilos como o melhor da trilogia e dá de lavada em outros filmes originais, como “Carros”.

No entanto, a segunda década dos anos 2000 trouxe uma mudança de paradigma. Dos três filmes lançados entre 2011 e 2013, dois são continuações: “Carros 2” e agora “Universidade Monstros”. Uma tendência que deve continuar nos próximos anos, pois a Disney (que comprou a Pixar em 2006) já anunciou para 2015 a sequência de “Procurando Nemo”. No embalo, Brad Bird, de “Os Incríveis”, declarou que pensa em continuar a história da família de super-heróis e Mark Andrews, o homem por trás de “Valente”, também disse que quer um novo filme da princesa Merida. Somados ainda à declaração do presidente da Disney de que nos próximos cinco anos eles vão “continuar investindo em histórias originais e em grandes sequências” (assim mesmo, no plural), é de se esperar que grande parte das histórias ganhem novos desdobramentos.

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Mas o que isso muda? Muita coisa. Para a Pixar, a qualidade da história sempre foi tão importante quanto o sucesso de bilheteria e muitas vezes este sucesso era uma simples consequência da qualidade. O que mais chama atenção nas novas continuações, no entanto, é que elas soam extremamente gratuitas. “Carros”, por exemplo, já é um filme original tão fraco que não precisava de uma sequência. “Monstros S.A.” e “Procurando Nemo”, por outro lado, são filmes incríveis, mas com um final muito claro. Por isso, os novos projetos levam a crer que o mais importante agora não é a continuidade da história e o desenvolvimento dos personagens, mas sim a busca por dinheiro. Uma mudança de rumos na Pixar que tem tudo a ver com o jeito que a Disney conduz suas empresas.

É só olhar, por exemplo, para a Marvel, outra empresa que o estúdio do Mickey comprou. A gigante dos quadrinhos criou uma verdadeira avalanche de filmes de super-heróis e construiu os personagens de forma que eles rendam novas histórias sempre, nem que para isso precisem juntar todos em um só filme (como em “Os Vingadores”) ou recomeçar a história com um novo elenco (taí “O Espetacular Homem Aranha”). E por que isso? Porque agora os personagens são estrelas multiplataforma. Além do cinema e dos quadrinhos, os heróis têm atrações temáticas na Disney World e são fonte inesgotável de produtos licenciados. Logo, precisam estar sempre em evidência. A partir do momento em que entraram para o universo Disney, Capitão América, Homem de Ferro, Nemo, Buzz Lightyear e todos os personagens da Pixar se tornaram grandes geradores de renda, com público fiel e cativo. Um potencial de lucro que qualquer empresa comercial do mundo exploraria até a última gota.

A curto prazo, os novos anúncios geraram tanto felicidade nos fãs quanto preocupação nos críticos. Além de uma necessidade empresarial, será que as continuações são um sinal de que a Pixar está passando por uma crise criativa? É uma questão que só o tempo vai responder.

(Publicado originalmente em 25/06/2013, no site Salada de Cinema)

As mil faces de ‘O Mágico de Oz’

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A lembrança de muita gente sobre Oz é semelhante: um lugar colorido, com música e seres estranhos, na qual uma garotinha vaga com três amigos bem intencionados, mas atrapalhados, em busca de um mago para achar o caminho de volta para casa. Uma memória coletiva totalmente justificável pelo sucesso do filme clássico de 1939, que povoou a infância de muitos de nós. A produção, adaptada de um livro do escritor L. Frank Baum, sobreviveu ao tempo graças à simplicidade da história e aos valores universais da trajetória de Dorothy. Ao longo das décadas, novas interpretações sobre este universo ganharam as telas e os palcos, recontando a história original ou buscando novos horizontes.

“The Wiz” é um representante da primeira vertente. Produzido em 1978, no ápice da gravadora de black music Motown, foi mais uma das tentativas de emplacar a cantora Diana Ross como símbolo da cultura negra. A história perde o clima rural do Kansas e se torna um conto urbano, no qual Ross assume o papel de Dorothy, uma professora de Nova York. Transportada para Oz, ela encontra o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão (vivido por Michael Jackson) e segue até a Cidade das Esmeraldas para encontrar o mágico. O filme foi dirigido pelo cineasta Sidney Lumet a partir do original da Broadway e conta apenas com atores afroamericanos. Mesmo com tantas estrelas, o filme foi um fracasso de crítica e bilheteria, enterrando de vez a carreira de Diana Ross no cinema. Nem mesmo as quatro indicações ao Oscar (Direção de Arte, Figurino, Trilha Sonora e Fotografia) salvaram a adaptação.

Já “O Mundo Fantástico de Oz”, de 1985, foi escrito com base em dois livros de Frank Baum que deram sequência a “O Mágico de Oz” (“Ozma de Oz” e “The Marvelous Land Of Oz”). No entanto, é considerado uma sequência não oficial do filme de 1939 devido à rivalidade entre os estúdios de cinema: a Disney, que produziu o filme, era a dona dos direitos sobre os livros, mas a MGM (dona do filme original) não reconheceu a sequência. Na história, Dorothy retorna a Oz e descobre que está tudo destruído. Como o Homem de Lata e o Leão foram transformados em pedra e o Espantalho foi sequestrado, Dorothy se une à galinha Billina, a João Cabeça de Abóbora e ao robô Tik-tok para recuperar os dias de glória da terra mágica. O filme possui cenas mais violentas que o musical de 1939, mas é mais fiel à obra de Frank Baum, que tem clima sombrio. Foi tão criticado por ser inapropriado para crianças que naufragou nas bilheterias, mas se tornou cult depois de lançado em VHS.

Melhor sucedido foi o musical da Broadway “Wicked”, cujo nome completo é “Wicked: The Untold Story of the Witches of Oz” (algo como “A História Desconhecida das Bruxas de Oz”). A produção foi baseado em um livro do escritor Gregory Maguire, que criou uma trama paralela ao filme original e à obra de Frank Baum. O musical traz a história pelo ponto de vista das rivais Elphaba (a Bruxa Má do Oeste) e Glinda (a Bruxa Boa do Norte) e narra os conflitos entre as duas antes da chegada de Dorothy, durante sua permanência em Oz e após sua volta para casa. O musical estreou na Broadway em 2003 e recebeu três prêmios Tony (Melhor Atriz, Design Cênico e Figurino). Ainda em cartaz, é considerado o 12º musical mais duradouro da Broadway, com quase 4 mil apresentações. Foi remontado em diversos países, como Reino Unido, Alemanha e  Austrália, e especula-se que seja a próxima adaptação a ganhar as telonas após o sucesso de “Os Miseráveis”.

Dorothy e seus amigos também foram parar na TV, naquela que deve ser a releitura mais radical da história original. Na minissérie “Tin Man”, de 2007, a história deixa de ser uma fantasia e se torna uma ficção científica. Aqui, Dorothy (chamada de DG e vivida pela atriz Zooey Deschanel) é uma garçonete entediada do Kansas, que, após uma tempestade, vai parar em O.Z. (sigla para Outer Zone). Lá, encontra cada um dos clássicos amigos: Glitch (o Espantalho), é um inventor que teve o cérebro removido pela bruxa malvada e perdeu a memória; Cain (o Homem de Lata), é um ex-policial que ficou anos aprisionado em uma armadura por contrariar a bruxa; e Raw (o Leão), é um ser metade homem, metade animal com poderes telepáticos. A estreia da minissérie foi a mais assistida da história da TV cabo americana até aquele momento e a produção foi indicada a nove Emmys (venceu apenas um, de Maquiagem).

E se a febre de adaptar “O Mágico de Oz” correu o mundo, claro que o Brasil não ficaria de fora. Aqui, a história originou o filme “Os Trapalhões e o Mágico de Oroz”, em 1984. No ápice do sucesso d’Os Trapalhões, o filme segue Didi pelo sertão nordestino. No caminho, ele encontra os três amigos: o Espantalho (Zacarias), que quer ter um cérebro; o Homem de Lata (Mussum), que quer um coração; e o Leão (Dedé), um ex delegado medroso que quer recuperar a coragem. No meio da caatinga, eles recebem uma tarefa do Mágico de Oróz: capturar um monstro de lata que vai resolver o problema da seca. É, sem dúvida, a produção mais politizada d’Os Trapalhões, que terminam o filme pedindo providências dos governantes para acabar com a seca no Nordeste. Uma curiosidade: a cidade de Orós realmente existe, fica no Ceará e o filme foi gravado lá.

Hollywood e as novas releituras de contos de fadas

As últimas adaptações de clássicos infantis e de contos de fadas para o cinema parecem não seguir a cartilha de boas maneiras que a Disney popularizou. Nem ao menos se importam com o material que lhes deu origem. Em comum, possuem ao menos uma das seguintes características: são extremamente adultas, não prezam pela fidelidade ou são fermentadas com muita violência e suspense.

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Especialistas creditam esta nova era ao sucesso de “Alice no País das Maravilhas”, do diretor Tim Burton. Mas também não seria errado atribuí-la a “A Garota da Capa Vermelha”, de 2011, que reformulou a história de Chapeuzinho Vermelho. Até associá-la à franquia “Shrek”, que desconstruiu nossa visão sobre os contos de fadas, também não seria de todo errado. O que é inegável é que os filmes com a temática realmente inundaram o cinema: “Branca de Neve e o Caçador”, “Espelho, Espelho Meu”, “João e Maria, Caçadores de Bruxas” e, agora em março, “Oz: Mágico e Poderoso” e “Jack: O Caçador de Gigantes”.

São filmes que procuram novas motivações para a história (“A Garota da Capa Vermelha”) ou pontos de vista inusitados (como conhecer a narrativa pelos olhos da vilã em “Espelho, Espelho Meu”). Propostas, aliás, que se multiplicam em Hollywood e devem chegar aos cinemas nos próximos anos. “Malévola” aposta na sedução de Angelina Jolie para contar a história da Bela Adormecida segundo a bruxa malvada. Na nova versão de “A Pequena Sereia”, produzida pelo ator Tobey Maguire, muda-se totalmente o centro da história. Agora, uma princesa quer se casar com o príncipe Christophe para salvar seu reino, sem saber, no entanto, que ele está apaixonado sereia Lenia, que sacrificou sua voz e sua saúde para estar com o príncipe. Para alcançar seu objetivo, a princesa fará de tudo para mandar a sereia de volta para o mar, planejando, inclusive, sua morte.

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No entanto, nenhuma proposta é mais radical que a do projeto “Neverland”. Usando como base a história de Peter Pan, o filme inverte os papéis de Pan e Capitão Gancho e os apresenta como irmãos em lados opostos: Pan é um sequestrador de crianças, enquanto Gancho é um policial que faz de tudo para prendê-lo. Gavin O’Connor, diretor de “Guerreiro”, foi apresentado como diretor para o projeto, o que significa que terá muita pancadaria entre os dois.

Mas por que os estúdios insistem em chamar essas histórias de adaptações, se o produto final está tão distante do original? Aparentemente, a familiaridade que o público já possui com os personagens vale o risco de rejeição. Além disso, para boa parte dos espectadores, subverter o universo dos personagens pode soar como ousadia e qualificar o projeto como criativo e revolucionário.

(Publicado originalmente em 12/03/2013, no site Salada de Cinema)

Serão os críticos todos recalcados?

Desde a década de 80, com mais gente tendo acesso aos produtos culturais, o papel do crítico entrou em crise e ele deixou de ser uma referência para o público. No meio deste desprestígio, a imprensa parece que lavou as mãos e não tem feito nenhum esforço para ajudar o setor a se reerguer. Pelo contrário. No desespero por visualizações e compartilhamentos, os portais de internet adotaram a postura do “twittem falando mal, mas twittem de mim”. O exemplo da Folha, chamando a Beyoncé de chacrete, é apenas um. Hoje, outro me chamou a atenção.

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Com a desculpa de selecionar os shows que não valiam a pena no Rock in Rio, a Veja disparou acusações para todos os lados. Assim, nasceram pérolas como “ninguém merece a gritaria de Florence Welch”, “os rebolados de Jon Bon Jovi deveriam ter ficado nos anos 1980” e que Maria Rita e Selah Sue são “duas cantoras enjoadas e sem sal juntas”. Ainda segundo a lista, a apresentação do DJ David Guetta só valeria a pena para você que “não gosta de música” e o show da britânica Jessie J era “um verdadeiro show de horrores de tanta falta de talento”.

Tudo bem, a liberdade de expressão é um direito previsto na Constituição. No entanto, o que se espera de um veículo jornalístico é que no mínimo a crítica seja feita com argumentos menos infantis, que contextualizem os méritos ou defeitos de uma atração cultural ao invés de valorizar picuinhas como a suposta personalidade enjoada da cantora. Já que uma das funções da crítica é ajudar o leitor a enriquecer seu repertório, ela deveria focar no que realmente importa (neste caso a música) e não nos rebolados de um cantor. Até porque , contextualizando, Elvis Presley também rebolava, criou uma produção cultural importante até hoje e ninguém o desqualificaria por causa dos movimentos pélvicos.

O mais irônico no texto da Veja é que ele foi publicado em uma seção cujo slogan é “Informação, curiosidade e diversão que enriquece a notícia”. Só que, neste caso, não enriqueceu em nada. Sua única contribuição foi reforçar a ideia de que os críticos são todos uns recalcados, frustrados e mal humorados.

Por que os brasileiros torcem contra os brasileiros?

Segunda-feira, 12 de setembro, 22h40. Foi a cantora Cláudia Leitte subir ao palco do Miss Universo 2011 para se apresentar durante o desfile em trajes de banho que o twitter foi invadido por uma onda de comentários maldosos. Os motivos? O inglês confuso da música, os clichês da apresentação (com bandeiras do Brasil, berimbaus, araras, muitas penas e capoeiristas) e suposta falta de originalidade da cantora, que teria tentando se igualar a outras artistas internacionais. Foi questão de minutos para Claudia Milk (apelido criado pela personagem Katylene) se tornar um dos assuntos mais comentados do twitter no mundo. Pra muitos, foi um dos maiores micos globais brasileiros dos últimos tempos. Será mesmo?

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Já é tradição no Miss Universo escolher um artista para se apresentar durante o desfile de traje de banho, sempre com uma música animada e cujo ritmo anima a plateia. Aconteceu o mesmo, por exemplo, em 2008 com a apresentação de Lady Gaga. Sim, uma ainda desconhecida Lady Gaga, que seguiu à risca a cartilha do evento e que, com certeza, chamou a atenção de muitas pessoas para seu trabalho (eu mesmo fui um deles, que correu para a internet, achou o álbum “The Fame” e ficou feliz por ter achado uma cantora legal). Claudia Leitte dançou conforme a música, fez o mesmo que todas as artistas fazem e ainda aproveitou para se divulgar para milhões de pessoas o mundo inteiro. Qual foi o erro da cantora baiana? Veredicto: querer fazer sucesso.

Nunca fui fã da Claudia Leitte, por isso não tenho motivos para querer defendê-la, mas tenho percebido nos últimos anos, aqui no Brasil, que sempre que um artista tenta se aventurar no exterior, surge um movimento que torce contra ele. Foi assim quando o ator Rodrigo Santoro conseguiu um papel no filme “As Panteras 2 – Detonando”. Muita gente comemorou as poucas falas do ator no filme, em um coro que parecia dizer: “Bem feito, ninguém mandou querer sair do Brasil”. O mesmo se repetiu com a dupla Sandy & Junior em sua tentativa de carreira internacional. Mais recentemente, a patrulha anti-Made in Brazil atacou a cantora Wanessa, que se distanciou de seu passado no pop nacional e passou a investir em músicas em inglês, com arranjos e visual muito próximos das artistas pop dos EUA. No caso de Wanessa, uma tentativa de emplacar algumas músicas no exterior (como conseguiu com a música “Fly”) e também roubar uma fatia do mercado nacional ocupado pelas Spears e Aguileras. No cinema, o diretor Fernando Meirelles também tem sofrido com a torcida negativa, como apontou o crítico Pablo Villaça no twitter recentemente. O caso mais recente foi Claudia Leitte, e certamente não foi o último.

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São tantos casos, com tantas características em comum, que me fazem pensar o que leva o brasileiro a torcer contra outro brasileiro, principalmente nós, que sempre nos orgulhamos de ser receptivos e hospitaleiros. Primeiro, acredito que o torcer contra venha do egoísmo do fã brasileiro. Ver seu ídolo buscando outros mercados é uma verdadeira punhalada nas costas. “Eu te dei tanto carinho, comprei seus cds, vi seus filmes, torci pelo seu sucesso e é assim que você me retribui? Vai fracassar então, bem feito!”. Conhecendo nossa passionalidade latina e nossa capacidade de nos apegarmos emocionalmente a tudo, acho uma hipótese bem viável.

No entanto, é a segunda hipótese que me deixa preocupado. Somos um povo que valoriza tanto a humildade, que acabamos condenando aqueles que ambicionam mais. Isso é perceptível na nossa cultura. Nas novelas, o vilão é sempre ambicioso, movido por desejos de riqueza e conquista. O rico no Brasil sempre foi a encarnação da ambição, do mal a ser combatido, pois pra nós o sucesso sempre está ligado a uma satisfação econômica. Nossa sociedade valoriza o humilde, o cara que, apesar de ser o melhor no que ele faz, se subjulga e diz não ser tudo isso, o cara que não gosta de receber elogios. No Brasil, é proibido bater no peito e dizer “Eu sou bom mesmo no que eu faço”, pois isso é para os arrogantes. Logo, desejar o fracasso dos ambiciosos é quase uma ferramenta de educação moral e social. E por que acho isso preocupante? Porque sem os ambiciosos e seu sucesso, é impossível alcançar uma palavrinha que está gravada na nossa bandeira: progresso.

A realidade no Casamento Real

“O mundo em contagem regressiva para o casamento do século”. “Uma sexta-feira que vai entrar para a história”. Foi assim que a imprensa noticiou o matrimônio na monarquia britânica, assistido na sexta-feira passada. A projeção é de que cerca de dois bilhões de pessoas no mundo tenham acompanhado a união. Passada a ressaca do casamento, fica a pergunta: como um evento local, regionalizado, conseguiu atrair tanta evidência?

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Por aqui, todas as emissoras abertas interromperam e alteraram sua programação para mostrar, minuto a minuto, o percurso dos noivos. Por isso, não faltam artigos criticando o destaque exagerado ao Casamento Real. As críticas que li seguem sempre a mesma linha: critica-se que a cobertura tornou o casamento um grande espetáculo, além de estar totalmente desvinculado do contexto social brasileiro. No entanto, ninguém tenta entender por que ele recebeu esse destaque e o que fez tantas pessoas pararem para acompanhar a cerimônia.

A atmosfera criada ao redor do casamento responde muito da questão. Divulgado como um conto de fadas, o enlace entre William e Kate é a versão em carne e osso da Cinderela que todos conhecemos desde criança: a moça plebeia escolhida pelo príncipe para ser sua amada. Sua narrativa é tão popular que está presente em grande parte das histórias românticas da cultura ocidental, seja em sua versão literal ou em suas adaptações, como o rico empresário que se apaixona pela empregada. A Disney educou uma geração de crianças (como eu) usando seus desenhos sobre reinos, príncipes e princesas como uma forma de escapismo e de educação social. Assim, assistir ao Casamento Real é a oportunidade de toda uma geração ver um conto de fadas se tornar realidade.

Acompanhar o casamento não foi o mesmo que ver uma cobertura jornalística. Foi uma experiência de realização, de presenciar uma fantasia do imaginário coletivo. Por isso, a recriação do mito da Cinderela cuidadosamente ignorou ou minimizou alguns detalhes para que Willian e Kate se encaixassem como uma luva no mito. Detalhes como o fato de Kate ser uma plebeia, mas necessariamente não ser pobre; como a informação de que ela e o William já moravam juntos antes do matrimônio; e, principalmente, o fato de que ela nunca seria princesa pois não tinha linhagem real, mas ocuparia o título de duquesa. A construção do evento seguiu a cartilha das mais lúdicas fantasias: ruas repletas de súditos, histeria, cenários (como igrejas e castelos) grandiosos. O matrimônio foi um sucesso graças a esta fidelidade, pois correspondeu exatamente a tudo que a audiência esperava.

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Muitos continuarão dizendo que o destaque dado a Willian e Kate foi descabido e que um tempo valioso foi desperdiçado, que outros temas mais importantes foram relegados. Muitos continuarão resmungando que o povo tem preocupações muito mais reais que o casamento de um príncipe. Qual o problema em os meios de comunicação dedicarem um dia a um drama da monarquia, por mais que ela não faça mais parte da nossa sociedade? Recentemente, nossos dias foram interrompidos para coberturas extensivas do tsunami no Japão e do massacre no Rio de Janeiro, temas pesados, trágicos e tristes. Não deveria ser algo tão problemático e vergonhoso deixar o público acompanhar algo feliz, se deixar levar, por um dia, por uma fantasia real.

A repercussão só explicita a visão de que o jornalismo deveria se ocupar apenas de assuntos sérios e densos, trazer apenas problemas. Porém, eventos como o Casamento Real são como meteoros, ocorrem raramente. O anterior foi o da princesa Diana, em 1981 e, seguindo a regra, o próximo só deve ocorrer em 30 anos. Até lá, temos 10.950 dias para nos dedicarmos e resolvermos os problemas da realidade.

A teimosia da indústria cultural

Há cerca de dez dias, o vice-presidente da Associação Cinematográfica dos EUA (MPAA), Greg Frazier, veio ao Brasil divulgar dados de uma pesquisa sobre o consumo de pirataria no país. Na mala, trouxe o impressionante dado de que 55% dos brasileiros consumem filmes piratas. Várias reuniões com as lideranças nacionais em Brasília e em São Paulo foram agendadas para pedir maior combate à pirataria. Porém, qual a contrapartida da MPAA para diminuir o problema? Nenhuma. É o que se entende de sua entrevista concedida à Folha de S. Paulo.

A MPAA considera consumo ilegal os filmes assistidos por DVDs comprados em camelôs, por download na internet, via streaming (como os filmes disponíveis no YouTube), por cópia de filmes originais, pelo empréstimos de filmes piratas e pelo compartilhamento de arquivos entre amigos. Portanto, não entra na lista apenas o produto em si, mas também as relações sociais estabelecidas entre os consumidores. Logo, para combater a pirataria no Brasil os investimentos não devem focar apenas em uma maior fiscalização, mas também projetar uma mudança cultural no comportamento da população. E isso é fácil? Não. Como levantado pelo jornalista da Folha, vivemos em um país em 44% das residências não possuem acesso à rede de esgoto. Como colocar na cabeça dessas pessoas, que não possuem o básico de infraestrutura para moradia, que um filme adquirido a R$ 5 reais é errado?

Foto: Filipe Redondo – 20.jun.2008/Folhapress

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Greg Frazier, vice-presidente da Associação Cinematográfica dos EUA

É muito fácil para um empresário norte-americano chegar ao Brasil e exigir uma série de mudanças, eximindo-se da culpa e fechando os olhos para as particularidades do país. Greg chega a afirmar que “estamos falando das pessoas que eu represento e eles fazem entretenimento”. Resumindo: não quero saber dos problemas de vocês, quero resolver o meu problema. Mas, da mesma forma que joga para o governo brasileiro a responsabilidade pelos seus problemas sociais, deveria saber que o dilema da indústria do entretenimento é, antes de tudo, de sua própria alçada.

A indústria cultural já seguia na corda bamba durante a década de 90. Com a popularização da internet nos anos 2000, a situação ficou ainda mais grave. A facilidade no compartilhamento de arquivos e na disponibilização de conteúdo sem proteção dos direitos autorais aumentaram o acesso à pirataria. Some a isto a imensidão da rede, que inviabiliza o contínuo monitoramento dos arquivos, e percebe-se que frear a internet não é a maneira mais inteligente de tapar o buraco. A solução lógica para o problema seria a própria indústria revisar o modelo de negócio e propor mudanças, adequando-se às novas características do mercado. É o percurso que todos os ramos comerciais têm sido obrigado a percorrer com as mudanças tecnológicas. Mas, sabe lá por que, o entretenimento considera-se alguém que não precisa seguir as regras. Ao invés de buscar a renovação do modelo, tem batido o pé como uma criança teimosa, insistido que o erro está nos outros. Parece dizer: “Eu sempre funcionei assim e sempre deu certo”. E, enquanto ela se comportar assim, cada vez mais perderá espaço .

Se a indústria do entrenimento quer mudar este cenário, precisa se preocupar cada vez mais com o acesso aos itens culturais. Não adianta exigir que os governos revisem as leis de direitos autorais e apertem o cerco. Se a internet não pode ser vencida, ela precisa agir como parceira. O combate ao compartilhamento de arquivos precisa ser feito analisando as raízes do problema. Por que tantos seriados são baixados mundo a fora? De modo geral, pela demora entre a exibição nos EUA e a distribuição ao redor do mundo. E como se resolve isso? De forma simplória, de duas formas: ou a própria indústria deve criar canais para disponibilizá-la legalmente para download ou os episódios precisam chegar mais rapidamente às TVs pagas locais (“Lost” provou que isso é possível em sua última temporada, chegando ao Brasil com apenas uma semana de atraso em relação aos EUA; nas temporadas anteriores, o prazo era de seis meses) . Porém, alterações implicam em aumento nos investimentos e, possivelmente, em redução na margem de lucro. E mexer nos rendimentos é justamente o que a indústria não quer.

O pacto com o demônio

Ciara é uma artista pouco conhecida no Brasil. Cantora de R&B, Ci-ci (seu apelido na mídia americana) surgiu no mercado fonográfico em 2004 e vendeu mais de 4 milhões de cópias pelo mundo do seu primeiro álbum. Por aqui, sua única música a emplacar nas rádios foi “Love Sex Magic”, em parceria com Justin Timberlake, feito explicado apenas pela popularidade do cantor.

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Apesar da minha pouca afinidade com Ci-ci, um fato recente me sensibilizou. No final de 2010, ela lançou seu quarto álbum de estúdio, chamado “Basic Instinct”. Na primeira semana de vendas, considerada a mais forte e decisiva para o sucesso de um cd, foram comercializadas apenas 37 mil cópias, um valor irrisório perto das 200 mil cópias vendidas da coletânea “Michael”, de Michael Jackson. Considerando que as vendas diminuem com o passar das semanas, o cenário não era dos mais animadores. Não a toa, surgiram rumores de que Ciara seria despedida de sua gravadora, a Jive. Na segunda-feira passada, Ciara divulgou um desabafo surpreendente, esclarecendo a situação ao público com uma sinceridade mordaz. Eis o comunicado publicado em seu site:

 

Esta semana rondou pela internet um rumor de que eu teria sido abandonada pela minha gravadora. Até agora esse rumor é falso. A verdade é que eu pedi e rezo para que a minha gravadora me deixe sair. Eu tive ótimos momentos e muito sucesso com minha gravadora, mas, como em todas as grandes parcerias, chegamos naquele ponto em que eu sinto que não compartilhamos mais do mesmo ponto de vista sobre quem eu sou como artista. Os dois últimos cds foram muito frustrantes para mim. Em alguns momentos, houve músicas que eu escolhi para liderar o projeto e fui ignorada! Neste projeto, eu tentei impulsionar “Gimmie Dat”, gastei dezenas de milhares de dólares do meu próprio dinheiro e ouvi das rádios que a gravadora não queria que minha música tocasse. Eu gastei mais de 100 mil dólares do meu bolso no vídeo de “Gimmie Dat” para mostrar a minha visão para a música e ainda assim não tive apoio da gravadora. Entendo que algumas gravadoras não estão apoiando financeiramente seus artistas e eu me tornei uma delas. Vocês, meus fãs, sabem que eu ralo para trazer a vocês as melhores músicas e a melhor visão criativa. Eu sou dedicada à minha música, à minha performance e aos meus fãs! Eu tentei trabalhar em conjunto com a minha gravadora, mas acabei comprometendo o que eu acredito. E não me deram a oportunidade de promover o cd de forma correta e informar meus fãs sobre o lançamento desse cd. Tem tanto de mim como artista para eu ainda quero compartilhar com o mundo e meus fãs. Minha liberação pela gravadora me permitiria ser criativa com as pessoas que realmente se importam e me entendem como artista. Daqui a pouco eu serei capaz de trazer para vocês uma nova energia musical e deleite visual! Muito obrigada por me apoiarem nos bons momentos, nos maus momentos e também nos confusos. Eu amo todos vocês.

 

Usando o caso de Ciara como exemplo, qual a diferença entre ser contratada e ser indie? Ela colocou dinheiro do próprio bolso para poder ver sua arte realizada, enfrentou sozinha o tanque de tubarões das rádios para ouvir sua música tocar, produziu sozinha o videoclipe para expressar sua criatividade da maneira que julgava mais autêntica. O que recebeu da gravadora foi boicote. De acordo com alguns blogs, um dos motivos da ausência de sua gravadora seria a preocupação com a carreira de Chris Brown (que volta a fazer sucesso nos EUA) e com o novo álbum de Britney Spears (a grande galinha dos ovos de ouro da gravadora). A frustração de Ci-ci deve ser muito maior por ser preterida ao invés de simplesmente ignorada, pois evidencia que o problema não é a falta de dinheiro, mas sim uma questão de prioridade. E Ciara não é.    

O estilo de Ciara (pelo o que eu, leigamente, conheço) está muito próximo do hip hop e do rap, com músicas mais declamadas do que propriamente cantadas. É um gênero muito menos popular que o de seus colegas de gravadora, que têm uma pegada mais pop e radiofônica. Logo, seu alcance é muito mais restrito e seu sucesso depende de uma boa dose de investimentos, algo em que uma gravadora seria bem-vinda. No entanto, o que uma gravadora ganha mantendo um artista em seu cast sem aproveitar seu potencial? A aproximação de Ciara de Justin foi, sem dúvida, uma tentativa de popularizá-la, inclusive alterando seu estilo musical. Qual seria o próximo passo? Fazer dela uma concorrente ao mesmo mercado de Beyoncé? Se era essa a intenção, a tentativa foi frustrada pelo grito de liberdade de Ci-ci.

Mesmo que não nos identifiquemos com um artista (e é o meu caso com Ciara), é triste e doloroso ver um desabafo tão visceral e desesperado. É a prova cabal de que um contrato e a estabilidade de uma gravadora não trazem independência, realização pessoal e liberdade. O caso de Ciara revela a face nefasta da industria da música, em que assinar um contrato é vender a alma ao diabo. E a primeira exigência, em letras pequenas, é deixar de decidir quem você é.

*com informações do Don’t Skip.

Mulher de fases

Chegou nesta semana ao Brasil, para alívio dos fãs de Christina Aguilera e Cher, o atrasado filme “Burlesque”, lançado em novembro dos EUA. A demora de três meses certamente foi planejada para esperar abaixar a poeira que se levantou nas bilheterias e na crítica especializada. O musical, que teoricamente teria tudo para fazer sucesso, pois trazia diversos elementos de outros musicais que marcaram o gênero (como “Cabaret e “Chicago), simplesmente naufragou: custou 60 milhões de dólares e, até agora, não conseguiu nem pagar os gastos de produção com os 55 milhões arrecadados em ingressos pelo mundo.

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Mas o que deu errado? Não era aguardado o retorno de Cher ao cinema, do qual estava afastada desde 2003? Não era a oportunidade de ver a cantora de volta aos palcos depois de anunciar seu afastamento em 2005? E quanto a Aguilera? A vertente suol e jazz (com um maior apelo pop, claro) e o visual das vedetes já tinha sido explorado com sucesso no seu cd Back To Basics em 2006. Por que não colou de novo? Talvez porque muita água passou embaixo da ponte do showbiz.

Desde Candyman, o mundo de Aguilera simplesmente desabou. Ela lançou uma coletânea dos seus melhores sucessos que não decolou. Quando questionada na época sobre a semelhança entre seu visual e o de Lady Gaga, simplesmente ignorou a concorrente (que ainda era uma iniciante, mas causou tanto barulho como se a destratada fosse Britney Spears). Depois da pausa para a gravidez, voltou no ano passado com o cd Bionic, um fracasso retumbante que não teve mais que dois singles, não teve turnê de shows (cancelados pela baixa venda de ingressos) e foi, com menos de seis meses de lançamento, vendido a 10 dólares nas bancas do Wal-Mart. Foi aqui, neste momento, que o filme foi lançado no mercado norte-americano. Depois disso, terminou o casamento, engordou, errou a letra do hino nacional dos EUA e quase caiu no palco no Grammy no domingo passado. Colapso. Mas, além da má fase de Aguilera, o que mais pode explicar o fracasso de “Burlesque”?

O primeiro problema é cinematográfico. O fiapo de história não é suficiente pra sustentar as 2 horas de duração. Além disso, a inspiração em filmes tão marcantes como Cabaret e Chicago acabam prejudicando o filme, pois já conhecemos de trás pra frente a história da mocinha que queria ser vedete. O grande acerto no filme (e, aqui, palmas para os responsáveis por terem percebido e investido nisso) é o espaço dedicado à voz e às performances de Aguilera, sem dúvida seus melhores atributos. Algo que tinha ficado evidente nas apresentações de “Express” para divulgação.

Mas, para mim, mais grave é o problema com a imagem já cristalizada de Christina na indústria cultural. Fracassos, divórcios e tropeços a parte, sua imagem fixada em mais de 10 anos de carreira não condiz com uma garota humilde. Aguilera sempre foi uma pessoa forte, de atitude, que nem um cd mal recebido é capaz de calar. Sempre enfrentou de peito aberto os problemas que se colocaram à frente e, pelo menos até o aparecimento da Gaga, esteve sempre um passo a frente das concorrentes. Sempre teve um entendimento muito sólido sobre a sexualidade que exalava de suas apresentações, motivo que sustentou insinuações mais ousadas como em Dirrty. Ainda que venha de origem humilde, nada no ícone que se tornou condiz com a moça frágil do interior, que vem buscar um sonho, deixa seu maior talento (a música) encoberto, se submete a um papel de garçonete e fica num joguinho amoroso de gato e rato.

Ok, ser atriz é a arte de viver uma outra vida. Porém, há raros casos em que a sombra do ator encobre a luz do personagem. Esse é um deles. “Burlesque” é nitidamente a batalha em que o Davi de Aguilera na música aniquilou seu Golias no cinema.