‘Perdido em música’ com uma freira e Cindy Lauper

Singing nun Sister Cristina Scuccia on Italy’s The Voice

Quando lançou “De A-ha a U2 – os bastidores das entrevistas do mundo da música” em 2006, o jornalista e apresentador Zeca Camargo dedicou o livro ao sentimento sublime e prazeroso de estar “perdido em boa música”. Ele não falava de composições sisudas ou compositores consagrados pelos intelectuais, mas sim de música pop e dos artistas que tornam a experiência musical popular, massiva e empolgante, de melodias simples e que grudam no ouvido. Em resumo, as Madonnas, as Alanis e os George Michaels que tocam todo dia no rádio e que criam pequenas obras-primas louvadas pelo mercado e aprovadas por multidões.

Muita gente torce o nariz pra esse pensamento. Afinal, como colocar “Like A Virgin” no mesmo patamar que um Chico Buarque? Dizer que a estrutura “parte 1-refrão-parte 2-refrão” é similar à experimentação de um Pink Floyd? Cada um tem um gosto, mas eu compartilho da opinião do Zeca. Até porque criar algo simples, direto e acessível é muito mais difícil do que cair na fórmula (esta sim fácil) de soar pretensioso e rebuscado. Eu vivo esse dilema todos os dias como jornalista.

E por que eu estou dizendo tudo isso? Porque hoje eu tive mais uma prova do poder hipnotizante da boa música pop. E justo com um clássico dos anos 80, a tal década perdida. Com “Girls Just Wanna Have Fun”, da Cindy Lauper, eu vi uma freira chacoalhar a edição italiana do reality show The Voice e criar os dois minutos mais alegres e emocionantes do meu dia. Quando percebi, pimba: eu estava com os olhos cheios de lágrimas e “perdido em boa música” no meio da redação. E essa viagem valeu cada segundo.

Anúncios

Se a vida fosse um musical com a Beyoncé

Você já teve aqueles dias em que gostaria de estar em um musical, cantando e dançando na rua pra demonstrar sua alegria? Pois é, essa é a explicação mais lógica que eu imagino para um flash mob. Pra que não sabe o que é, um flash mob é uma reunião entre pessoas em um lugar público para fazer uma determinada ação, normalmente inusitada, como dançar ou interpretar uma cena de um filme. Do mesmo jeito que um flash mob começa de repente, ele também termina.

Pois bem. Eis que esse pessoal aqui do vídeo abaixo resolveu fazer um flash mob da música “End Of Time” da Beyoncé, que está no seu novo álbum recém-lançado, o “4”. Vejam o que eles aprontaram no meio de um supermercado.

Fala que não dá vontade de dançar junto com esse povo? (Depois de um ensaio, logicamente, pra não passar vergonha e ser aquele que sempre se destaca por estar fora do ritmo…). Em se tratando de flash mobs da Beyoncé, só não é mais sensacional que o de “Single Ladies” em Londres.

Sem querer ficar vangloriando os gringos e falando mal de tudo que é brasileiro (pois não sou desses): por que no Brasil toda vez que alguém tenta fazer um flash mob assim, vira vergonha alheia? Tipo o de “Mamma Mia” no Shopping Vila Olímpia, em São Paulo? E nem é uma opinião minha, é só prestar atenção na cara de constrangimento dos clientes do shopping…

Update: O vídeo foi dirigido pelo Ryan Jamees Yezak, que é famoso na internet por dirigir clipes gays para músicas pops. Os mais famosos são os de California Gays e Peacock.

Uma câmera na mão e um ídolo na cabeça

Tenho uma compulsão por regravações. Se achar um mp3 com a inscrição “cover” entre parênteses, fico louco. Talvez isso explique porque gosto tanto de Glee (mas Glee é assunto pra outro post). Na minha loucura, tenho uma verdadeira coleção de covers. E, mais recentemente, de vídeo-paródias. Afinal, uma paródia é o equivalente ao cover numa versão audiovisual. De toda a minha coleçãozinha, nunca tinha ficado tão impressionado como fiquei com a versão de dois filipinos para a música Telephone, da Lady Gaga.                                                                                                          

Media_http4bpblogspot_iager

O clipe original foi lançado no começo de março e, além de causar aquele burburinho no qual Gaga já se especializou, veio cheio de referências a outras obras da cultura pop, em especial aos filmes Thelma & Louise e Kill Bill. Produzir um vídeo desses com o aporte de uma grande gravadora é simples quando se possui os melhores diretores, produtores e editores à disposição. Mas e quando não se tem?

Tudo na reprodução filipina é tosco ou improvisado. Mas nem por isso é gratuito. As coreografias são iguais, as roupas são semelhantes (apesar de feitas com sacos de lixo ou papel) e, o mais incrível, os enquadramentos e a edição são muito parecidos. É assombroso ver tanta criatividade em um barraco. No início do vídeo aparece uma menção a uma certa Mayaman University, mas não achei nada no Google que mostre se o vídeo é fruto de uma universidade; pra começar, não achei nem o site dessa suposta universidade. Mas achei muitas histórias de que Lady Gagita e Haronce moram numa favela nas Filipinas e fazem shows em boates locais. Mas não sei até onde isso realmente importa.

Não é de hoje que fãs desejam imitar seus ídolos, mas parece que essa loucura chegou a um grau muito mais elevado, o que faz pensar sobre a a força desses ícones na cultura mundial, independente da classe social. Que perspectiva Gagita e Haronce têm para o futuro? Se o ambiente em que vivem for realmente esse do vídeo, provavelmente são muito poucas no meio de tanta pobreza. Mas isso não impediu que elas investissem tempo em cada detalhe do vídeo, em cada trouxa de papel que serviu de seio, em carcaça de ventilador que serviu de volante ou em cada passo exaustivamente ensaiado para a coreografia. E, com isso, fizeram a melhor paródia de Telephone, com pouquíssimos recursos. Pode-se não ter o que comer, mas há tempo para alimentar um sonho. E não digam que isso é alienação porque pra mim é pura criatividade e persistência. Pode ser escapismo, mas é uma forma de contornar essa situação desumana e indigna a que estão sujeitas e encontrar forças pra seguir em frente. Mesmo que seja apenas marketing, que haja uma mega produtora por trás usando essa estética paupérrima pra satirizar sei lá o que, a mensagem pra mim continua a mesma, pois não deixa de ser impressionante pensar que existem sim milhares de Gagitas pelo mundo dançando no quintal de casa.

É por essa lógica que vejo cada vez mais sentido em a Lady Gaga chamar seu álbum de Fame Monster, de chamar a atenção para o monstro da fama. E, por tabela, fica fácil entender porque ela chama seus fãs de little monsters. É o único jeito de explicar a capacidade que eles têm de surpreender.