Sobre um livro, Roberto Carlos e meu pai

A lembrança que sempre tive de Roberto Carlos foi a do cara que atrapalhava meu fim de ano. Enquanto eu queria ver desenhos no Natal, meu pai ocupava a TV com o interminável e repetitivo especial do rei. Nunca entendi o poder que o cantor exercia sobre o meu pai, o que fazia o homem mais importante da minha vida parar todo ano pra ouvir as mesmas músicas empoeiradas. Não compreendia até este mês, quando devorei o livro “O Réu e o Rei – Minha história com Roberto Carlos, em detalhes”, do historiador Paulo Cesar de Araújo.

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Autor da polêmica biografia “Roberto Carlos em detalhes“, que foi proibida pelo cantor em 2007 após uma desgastante batalha na Justiça, Paulo Cesar conta no novo livro o processo de desenvolvimento da obra censurada e os bastidores da briga judicial. Na primeira metade, ganham espaço a admiração que Araújo cultivava com Roberto desde a infância, seu forte envolvimento emocional com o cantor ao longo da juventude e os quinze anos dedicados a pesquisas e entrevistas para montar o mais completo perfil que já se escreveu sobre um artista brasileiro. Já na segunda metade, assumem o primeiro plano os processos judiciais que o rei moveu contra o autor, os detalhes de cada derrota sofrida por Paulo Cesar e intensa e polarizada briga midiática que ambos travaram – e ainda travam – pela proibição/liberação da obra. É um relato passional, pesado de se ler, mas que deixa transparecer que a admiração de Araújo por Roberto Carlos ainda existe, embora manchada pela mágoa e pelo rancor de ver o livro ser retirado de circulação.

Ainda que a tirania e ferocidade de Roberto deixem um gosto amargo ao fim do livro, com o “O Réu e o Rei” eu me permiti conhecer o cantor. Resolvi ouvir seus clássicos com outros ouvidos e, pela primeira vez, senti que eles conversavam comigo. Por baixo da aura cafona e antiquada que eu via no ídolo, encontrei um artista que desperta as emoções mais autênticas e genuínas a partir de letras e melodias simples. Claro que, como jornalista, nunca mais vou conseguir olhar Roberto Carlos com os mesmos olhos. Infelizmente, pra mim ele sempre será um artista mimado, incoerente e egoísta, além do homem que lutou para limitar a liberdade de expressão no Brasil. Mas se Paulo Cesar de Araújo consegue conviver com a contradição que é amar e odiar o rei, eu também consigo.

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Porém, o que eu sempre deverei ao livro, ao autor e ao músico é que eles me fizeram entender o que meu pai sente quando ouve “Detalhes” ou “Todos Estão Surdos” no Natal. Tenho certeza de que, como Paulo Cesar, meu pai foi o menino de origem humilde que encontrou na músicas do rei um jeito de preencher a vida de poucas condições. Que não tinha dinheiro para comprar o LP do rei, mas que colava o ouvido no rádio para ouvir Roberto Carlos cantar. Que encontrava no Roberto aquele “amigo de fé, irmão camarada” que ajudava a encarar a cidade grande e a quem pedia conselhos amorosos. É esse filme que passa na cabeça do meu pai a cada vez que ele senta no sofá pra assistir ao rei.

Duvido que meu pai sequer saiba que o rei proibiu um livro. Se souber, não acredito que tenha pensado que poderia ser eu o escritor censurado. Não tem problema. Ele pode continuar amando o Roberto da primeira metade de “O Réu e o Rei” enquanto eu odeio o da segunda metade do livro. O que eu não perco mais é a chance de sentar ao lado dele e dividirmos o próximo especial no fim do ano.

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