Serão os críticos todos recalcados?

Desde a década de 80, com mais gente tendo acesso aos produtos culturais, o papel do crítico entrou em crise e ele deixou de ser uma referência para o público. No meio deste desprestígio, a imprensa parece que lavou as mãos e não tem feito nenhum esforço para ajudar o setor a se reerguer. Pelo contrário. No desespero por visualizações e compartilhamentos, os portais de internet adotaram a postura do “twittem falando mal, mas twittem de mim”. O exemplo da Folha, chamando a Beyoncé de chacrete, é apenas um. Hoje, outro me chamou a atenção.

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Com a desculpa de selecionar os shows que não valiam a pena no Rock in Rio, a Veja disparou acusações para todos os lados. Assim, nasceram pérolas como “ninguém merece a gritaria de Florence Welch”, “os rebolados de Jon Bon Jovi deveriam ter ficado nos anos 1980” e que Maria Rita e Selah Sue são “duas cantoras enjoadas e sem sal juntas”. Ainda segundo a lista, a apresentação do DJ David Guetta só valeria a pena para você que “não gosta de música” e o show da britânica Jessie J era “um verdadeiro show de horrores de tanta falta de talento”.

Tudo bem, a liberdade de expressão é um direito previsto na Constituição. No entanto, o que se espera de um veículo jornalístico é que no mínimo a crítica seja feita com argumentos menos infantis, que contextualizem os méritos ou defeitos de uma atração cultural ao invés de valorizar picuinhas como a suposta personalidade enjoada da cantora. Já que uma das funções da crítica é ajudar o leitor a enriquecer seu repertório, ela deveria focar no que realmente importa (neste caso a música) e não nos rebolados de um cantor. Até porque , contextualizando, Elvis Presley também rebolava, criou uma produção cultural importante até hoje e ninguém o desqualificaria por causa dos movimentos pélvicos.

O mais irônico no texto da Veja é que ele foi publicado em uma seção cujo slogan é “Informação, curiosidade e diversão que enriquece a notícia”. Só que, neste caso, não enriqueceu em nada. Sua única contribuição foi reforçar a ideia de que os críticos são todos uns recalcados, frustrados e mal humorados.

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Por que as mulheres do show bizz ameaçam tanto os homens?

“As mulheres estão dominando o mundo”. A frase sempre aparece para descrever como elas, desde a década de 70, ocupam territórios majoritariamente masculinos. Por mais que normalmente a frase surja em um contexto positivo e de admiração, algumas vezes também é usada para camuflar o machismo e também a insegurança dos homens em relação a essa mulher independente, dona de si e com objetivos muito bem traçados. Só que, às vezes, o medo aparece nas entrelinhas. E aí, o nosso sexismo se escancara, mesmo que, teoricamente, em tom de piada. Como aconteceu com a cantora Beyoncé na última sexta.

Beyoncé no palco do Rock in Rio - Foto: Raul Aragão/I Hate Flash/Divulgação Rock in Rio

Beyoncé no palco do Rock in Rio – Foto: Raul Aragão/I Hate Flash/Divulgação Rock in Rio

Em reportagem da Folha de S. Paulo, a cantora foi alvo de insinuações que tentavam desconstruir sua imagem de mulher poderosa. Virou motivo de riso desde a manchete, quando foi apelidada de “a maior chacrete do planeta”. Ainda que a matéria tenha superficialmente um tom elogioso, fica o incômodo pela comparação com as dançarinas do Chacrinha. E digo isso sem passionalidade, pois não sou fã irrestrito da cantora. Em uma sequência na qual elogios são sucedidos por alfinetadas, o jornalista Thales de Menezes desenvolve assim sua tese:

Chacrinha (1917-1988) disse certa vez que, se uma de suas dançarinas de palco soubesse cantar, faria dela a maior do mundo.

O Velho Guerreiro não viveu para ver, mas a maior cantora do mundo hoje é, definitivamente, uma chacrete.

Beyoncé vai mostrar esta noite que dança bem como uma delas e veste seu corpão de chacrete com roupinhas de… chacrete.

Por mais que não seja um xingamento dizer que a cantora seja uma chacrete, a comparação é no mínimo irresponsável, principalmente por causa do tom pejorativo por trás dela. Não é surpresa que as chacretes são estigmatizadas pela exploração do corpo como único meio de visibilidade. Junto ao tom sarcástico do texto, fica difícil acreditar que a analogia sirva apenas para destacar a posição de Beyoncé como “a maior do mundo”. Acreditar que o jornalista tenha feito a comparação de forma despretensiosa, sem considerar os juízos de valores por trás das palavras, é no mínimo uma ingenuidade. Principalmente porque ele não é réu primário.

Rihanna no palco do Rock in Rio, em 2011

Rihanna no palco do Rock in Rio, em 2011

Em 2011, quando Rihanna foi uma das principais atrações do Rock in Rio (por coincidência, mesmo destaque que Beyoncé possui nesta vinda ao Brasil), Thales usou seu humor questionável para criticar a independência feminina. Recém-saída de um relacionamento conturbado com o cantor Chris Brown, que terminou de forma trágica quando ele a espancou, o jornalista associou a violência a uma lição por Rihanna ser tão “decidida” e “dona de seu nariz” (escrevi sobre isso na época). Da mesma forma que fez agora com Beyoncé, ainda que as intenções não estejam explícitas, a “piada” infeliz traz nas entrelinhas uma série de preconceitos, podendo ser interpretada até como uma defesa desta “surra corretiva”.

Com a reincidência na última sexta, fica a pergunta: por que as mulheres do show bizz ameaçam tanto os homens? A única explicação é que elas simbolizam da forma mais midiática possível que o sexo feminino descobriu que não precisa do sexo masculino para se sentir realizada. Que, se foram tratadas como objeto durante séculos, agora elas estão em uma posição confortável na qual não precisam mais pautar suas vidas ao redor das necessidades dos homens. E que, por divulgarem o girl power com tanta visibilidade, são um perigo ao servirem de exemplo para a independência de muitas outras mulheres.

As mulheres do show bizz metem medo e, por isso, a reação dos homens só poderia ser a mais instintiva possível: atacar o predador antes que se tornem uma presa imobilizada.

A realidade no Casamento Real

“O mundo em contagem regressiva para o casamento do século”. “Uma sexta-feira que vai entrar para a história”. Foi assim que a imprensa noticiou o matrimônio na monarquia britânica, assistido na sexta-feira passada. A projeção é de que cerca de dois bilhões de pessoas no mundo tenham acompanhado a união. Passada a ressaca do casamento, fica a pergunta: como um evento local, regionalizado, conseguiu atrair tanta evidência?

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Por aqui, todas as emissoras abertas interromperam e alteraram sua programação para mostrar, minuto a minuto, o percurso dos noivos. Por isso, não faltam artigos criticando o destaque exagerado ao Casamento Real. As críticas que li seguem sempre a mesma linha: critica-se que a cobertura tornou o casamento um grande espetáculo, além de estar totalmente desvinculado do contexto social brasileiro. No entanto, ninguém tenta entender por que ele recebeu esse destaque e o que fez tantas pessoas pararem para acompanhar a cerimônia.

A atmosfera criada ao redor do casamento responde muito da questão. Divulgado como um conto de fadas, o enlace entre William e Kate é a versão em carne e osso da Cinderela que todos conhecemos desde criança: a moça plebeia escolhida pelo príncipe para ser sua amada. Sua narrativa é tão popular que está presente em grande parte das histórias românticas da cultura ocidental, seja em sua versão literal ou em suas adaptações, como o rico empresário que se apaixona pela empregada. A Disney educou uma geração de crianças (como eu) usando seus desenhos sobre reinos, príncipes e princesas como uma forma de escapismo e de educação social. Assim, assistir ao Casamento Real é a oportunidade de toda uma geração ver um conto de fadas se tornar realidade.

Acompanhar o casamento não foi o mesmo que ver uma cobertura jornalística. Foi uma experiência de realização, de presenciar uma fantasia do imaginário coletivo. Por isso, a recriação do mito da Cinderela cuidadosamente ignorou ou minimizou alguns detalhes para que Willian e Kate se encaixassem como uma luva no mito. Detalhes como o fato de Kate ser uma plebeia, mas necessariamente não ser pobre; como a informação de que ela e o William já moravam juntos antes do matrimônio; e, principalmente, o fato de que ela nunca seria princesa pois não tinha linhagem real, mas ocuparia o título de duquesa. A construção do evento seguiu a cartilha das mais lúdicas fantasias: ruas repletas de súditos, histeria, cenários (como igrejas e castelos) grandiosos. O matrimônio foi um sucesso graças a esta fidelidade, pois correspondeu exatamente a tudo que a audiência esperava.

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Muitos continuarão dizendo que o destaque dado a Willian e Kate foi descabido e que um tempo valioso foi desperdiçado, que outros temas mais importantes foram relegados. Muitos continuarão resmungando que o povo tem preocupações muito mais reais que o casamento de um príncipe. Qual o problema em os meios de comunicação dedicarem um dia a um drama da monarquia, por mais que ela não faça mais parte da nossa sociedade? Recentemente, nossos dias foram interrompidos para coberturas extensivas do tsunami no Japão e do massacre no Rio de Janeiro, temas pesados, trágicos e tristes. Não deveria ser algo tão problemático e vergonhoso deixar o público acompanhar algo feliz, se deixar levar, por um dia, por uma fantasia real.

A repercussão só explicita a visão de que o jornalismo deveria se ocupar apenas de assuntos sérios e densos, trazer apenas problemas. Porém, eventos como o Casamento Real são como meteoros, ocorrem raramente. O anterior foi o da princesa Diana, em 1981 e, seguindo a regra, o próximo só deve ocorrer em 30 anos. Até lá, temos 10.950 dias para nos dedicarmos e resolvermos os problemas da realidade.