‘Boogie Oogie’ vai ressuscitar a era disco?

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‘Boogie Oogie’, a nova novela das seis da Globo, só entra no ar no dia 04 de agosto, mas o twitter já está em alvoroço. Basta a chamada da trama passar na TV pra notar que a expectativa sobre a novela é grande. O principal motivo? A trilha sonora. Inspirada e com músicas empolgantes da era da discoteca, a coletânea vai mergulhar de cabeça na riqueza musical e na popularidade dos anos 70 para criar uma verdadeira máquina do tempo às 18h.

Depois das boas surpresas musicais de “O Rebu”, parece que a Globo decidiu investir cada vez mais nos clássicos pop do passado. Ainda é cedo para dizer por que a maior emissora do país tomou a decisão, mas uma coisa é certa: com essas trilhas, deve ser bem mais fácil emplacar uma novela nas feiras do mercado internacional.

Ainda tenho alguns receios sobre “Boogie Oogie”. Por mais que a era disco tenha características “universais”, acho bastante arriscado um autor estrangeiro escrever uma novela histórica. Mesmo assessorado por colaboradores, pesquisadores e uma equipe de produção competente, o português Rui Vilhena pode cair na armadilha de criar uma disco fever com a cara portuguesa, já que não conhece a fundo as particularidades do período no Brasil. Ou, então, restringir os anos 70 a mero pano de fundo para a história, ao invés usá-los como um personagem importante da trama. Algo que “Dancin’ Days” fez tão bem e cuja reexibição atualmente no Viva só aumenta o peso das comparações. De qualquer forma, é esperar a estreia para ver.

Abaixo, criei uma playlist com as músicas que os internautas já conseguiram identificar nas chamadas da programação. Vou tentar mantê-la atualizada ao longo dos capítulos.

Vejo música e ouço novela com ‘O Rebu’

Sophie Charlotte e Patricia Pillar em 'O Rebu' / Crédito: Globo/Estevam Avellar

Sophie Charlotte e Patricia Pillar em ‘O Rebu’ / Crédito: Globo/Estevam Avellar

Desde segunda, quando começou o remake de “O Rebu” na Globo, a novela tomou conta do twitter! São elogios ao elenco estelar, comentários sobre a direção inspirada de Zé Luiz Villamarim, especulações sobre o assassino do morto na piscina e, claro, piadas. Muitas piadas!

Para os noveleiros de plantão, a micronovela é um oásis depois da desilusão de “Em Família”. E para os fãs de boa música, a produção também faz muito bem aos ouvidos! Nina Simone, Elis Regina, Amy Winehouse, Chico Buarque, Luiz Melodia, New Order, Chico Science & Nação Zumbi… É assim, mesclando nomes nacionais e internacionais, estilosos ou com um pé na cafonice (amo “Don’t Let Me Be Misunderstood”, do Santa Esmeralda, mas sim, é cafona), que os responsáveis pela novela criaram uma das melhores trilhas sonoras dos últimos tempos, anos-luz à frente de qualquer outra no ar atualmente pela emissora carioca.

Pra facilitar para os fãs de “O Rebu” e para quem quer curtir um som delicioso, criei uma playlist no serviço de streaming de música Spotify. Todos os dias, eu atualizo com as novas músicas que tocam a cada capítulo. Quer ouvir? É só clicar no play!

E aproveite: não precisa pagar nada e só precisa fazer o login com o facebook!

(Atualizado às 11h36)

Sobre um livro, Roberto Carlos e meu pai

A lembrança que sempre tive de Roberto Carlos foi a do cara que atrapalhava meu fim de ano. Enquanto eu queria ver desenhos no Natal, meu pai ocupava a TV com o interminável e repetitivo especial do rei. Nunca entendi o poder que o cantor exercia sobre o meu pai, o que fazia o homem mais importante da minha vida parar todo ano pra ouvir as mesmas músicas empoeiradas. Não compreendia até este mês, quando devorei o livro “O Réu e o Rei – Minha história com Roberto Carlos, em detalhes”, do historiador Paulo Cesar de Araújo.

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Autor da polêmica biografia “Roberto Carlos em detalhes“, que foi proibida pelo cantor em 2007 após uma desgastante batalha na Justiça, Paulo Cesar conta no novo livro o processo de desenvolvimento da obra censurada e os bastidores da briga judicial. Na primeira metade, ganham espaço a admiração que Araújo cultivava com Roberto desde a infância, seu forte envolvimento emocional com o cantor ao longo da juventude e os quinze anos dedicados a pesquisas e entrevistas para montar o mais completo perfil que já se escreveu sobre um artista brasileiro. Já na segunda metade, assumem o primeiro plano os processos judiciais que o rei moveu contra o autor, os detalhes de cada derrota sofrida por Paulo Cesar e intensa e polarizada briga midiática que ambos travaram – e ainda travam – pela proibição/liberação da obra. É um relato passional, pesado de se ler, mas que deixa transparecer que a admiração de Araújo por Roberto Carlos ainda existe, embora manchada pela mágoa e pelo rancor de ver o livro ser retirado de circulação.

Ainda que a tirania e ferocidade de Roberto deixem um gosto amargo ao fim do livro, com o “O Réu e o Rei” eu me permiti conhecer o cantor. Resolvi ouvir seus clássicos com outros ouvidos e, pela primeira vez, senti que eles conversavam comigo. Por baixo da aura cafona e antiquada que eu via no ídolo, encontrei um artista que desperta as emoções mais autênticas e genuínas a partir de letras e melodias simples. Claro que, como jornalista, nunca mais vou conseguir olhar Roberto Carlos com os mesmos olhos. Infelizmente, pra mim ele sempre será um artista mimado, incoerente e egoísta, além do homem que lutou para limitar a liberdade de expressão no Brasil. Mas se Paulo Cesar de Araújo consegue conviver com a contradição que é amar e odiar o rei, eu também consigo.

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Porém, o que eu sempre deverei ao livro, ao autor e ao músico é que eles me fizeram entender o que meu pai sente quando ouve “Detalhes” ou “Todos Estão Surdos” no Natal. Tenho certeza de que, como Paulo Cesar, meu pai foi o menino de origem humilde que encontrou na músicas do rei um jeito de preencher a vida de poucas condições. Que não tinha dinheiro para comprar o LP do rei, mas que colava o ouvido no rádio para ouvir Roberto Carlos cantar. Que encontrava no Roberto aquele “amigo de fé, irmão camarada” que ajudava a encarar a cidade grande e a quem pedia conselhos amorosos. É esse filme que passa na cabeça do meu pai a cada vez que ele senta no sofá pra assistir ao rei.

Duvido que meu pai sequer saiba que o rei proibiu um livro. Se souber, não acredito que tenha pensado que poderia ser eu o escritor censurado. Não tem problema. Ele pode continuar amando o Roberto da primeira metade de “O Réu e o Rei” enquanto eu odeio o da segunda metade do livro. O que eu não perco mais é a chance de sentar ao lado dele e dividirmos o próximo especial no fim do ano.

A bruxa está solta em ‘Abracadabra’

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No começo dos anos 90, mais precisamente em 1993, o diretor Kenny Ortega, criador de “High School Musical”, foi o homem por trás de outro o filme da Disney “Abracadabra” que marcou uma geração. Um lançamento de Dia de Bruxas que correu o mundo e conquistou audiência até onde a data não é comemorada (como o Brasil).

Inicialmente desenvolvido como um telefilme para o Disney Channel, “Abracadabra” chamou a atenção dos executivos da Disney, que viram no filme potencial para fazer sucesso em escala global. Como prova da confiança do estúdio, o elenco foi liderado pela veterana Bette Midler. Hoje, é engraçado também identificar no trio de protagonistas a atriz Sarah Jessica Parker. Vivendo uma bruxa burra, porém sedutora, a feiticeira Sarah Sanderson poderia muito bem ser um laboratório para Carrie, o símbolo sexual da série “Sex And The City” que ela daria vida muitos anos depois.

No roteiro de “Abracadabra”, as três irmãs bruxas são ressuscitadas pelo jovem Max, que invade a antiga casa das feiticeiras na véspera do Dia das Bruxas para impressionar a garota por quem está apaixonado. Começa então uma perseguição pela cidade de Los Angeles na qual as feiticeiras vão fazer de tudo para recuperar o livro de magia que está com o garoto. É literalmente uma questão de vida ou morte, pois se elas não fizerem o feitiço para a vida eterna antes do nascer do sol, as três morrerão novamente.

O ponto alto do filme fica por conta da cena em que as três feiticeiras se veem no meio de um baile à fantasia. Embora Max tente alertar a todos que as bruxas estão vivas, ninguém lhe dá ouvidos. As irmãs Sanderson aproveitam, então, e lançam um feitiço sobre todos que estão no salão. É só ouvirem a música “I Put A Spell On You” para que todos os convidados dancem até a morte.

Prepare-se para ser amaldiçoado!

(Publicado originalmente em 09/11/2013, no site Salada de Cinema)

‘Mudança de Hábito’ alegra a terça

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Já deu pra perceber a minha predileção por cenas musicais, não? Principalmente as de filmes dos anos 90. Tomando a década como referência, não tem como não falar de uma das comédias de maior sucesso daquela época, o filme “Mudança de Hábito”. Tão bem sucedido, aliás, que ganhou uma continuação e ainda gerou um musical na Broadway.

Protagonizado pela atriz Whoopi Goldberg, o filme conta a história de uma cantora de cassino que, após testemunhar um crime, é colocada no sistema de proteção à testemunha pela polícia. Para não ser descoberta pelos bandidos, Dolores é escondida em um convento. Para ocupar o tempo da cantora, a Madre Superiora coloca Dolores na regência do coral da igreja. É aí que surge seu maior desafio: ensaiar um conjunto de freiras desafinadas e sem sintonia alguma.

A cena mais memorável do filme é esta abaixo, que marca a primeira apresentação pública do coral. O que começa como um coro gospel tradicional aos poucos se transforma em uma apresentação musical menos religiosa, na qual Dolores utiliza técnicas musicais de uma apresentação em um cassino para atrair a atenção. Uma evolução que desagrada os líderes religiosos presentes, mas que cai no gosto da maioria dos frequentadores comuns.

Além do talento de Whoopi Goldberg, merece destaque o tratamento pop que é dado à música gospel na cena e no filme como um todo. Não à toa, a trilha sonora de “Mudança de Hábito” ficou mais de um ano entre os 200 álbuns mais vendidos nos Estados Unidos na época de lançamento (1992).

(Publicado originalmente em 02/11/2013, no site Salada de Cinema)

As trilham que embalam Baz Luhrmann – parte 2

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Se a trilha de “Romeu + Julieta” colocou o nome de Baz Luhrmann no cenário fonográfico americano, a de “Moulin Rouge” mostra como a música pop pode estar na raiz de um filme. Em um momento no qual o musical era visto como um gênero morto em Hollywood, o diretor decidiu que era hora de atualizar o formato para os dias atuais e para a geração que cresceu assistindo aos clipes da MTV. Para isso, Luhrmann traçou uma estratégia infalível: fez releituras de canções que as pessoas já conheciam e criou novas músicas juntando versos de várias composições. Uma fórmula que originou uma das trilhas mais marcantes dos anos 2000.

De original mesmo, há apenas uma música: “Come What May”, que é cantada pelos atores Nicole Kidman e Ewan McGregor. Todo o restante são covers ou mashups (junção das letras ou melodias de duas músicas ou mais). Dentre as releituras, tem Nirvana (“Smell Like Teen Spirit”), Nat King Cole (“Nature Boy”), Madonna (“Like a Virgin”) e Queen (“The Show Must Go On”). O cover mais famoso, sem dúvida, é o de “Lady Marmalade”, que fez a música do grupo Labelle voltar com tudo para as rádios quase 30 anos após ter sido número um na Billboard. Nas vozes de Christina Aguilera, Mya, Pink e Lil’ Kim, a canção esteve novamente no topo das paradas de vários países, ganhou um Grammy e o clipe recebeu dois prêmios no MTV Video Awards.

Já dentre os mashups, nenhum consegue bater o “Elephant Love Medley”. Na música de pouco mais de 4 minutos são misturados trechos de 12 canções dos mais diferentes artistas. De Beatles, Phil Collins e U2 a Elton John, Kiss e Whitney Houston. Além da dinâmica que dá ao filme, o mashup é responsável por um dos momentos mais divertidos, que leva o espectador a tentar adivinhar qual verso é de qual música.

Além de cativar o espectador, a música pop no filme também é usada parasurpreender. Com as mudanças de arranjo e principalmente com as misturas musicais, cada coreografia é uma surpresa para o público, que nunca sabe o que esperar. O melhor exemplo é “El Tango de Roxanne”. Após uma introdução de tango clássico emprestada da música “Tanguera”, entram os vocais de “Roxanne”, do The Police. O resultado é uma música tão criativa quanto improvável.

Unindo o que existe de melhor na música pop, é claro que a recepção também seria a melhor possível. O álbum da trilha sonora de “Moulin Rouge” estreou em quinto lugar na parada americana e foi subindo até ficar em terceiro. Em outros países, como a Austrália, virou hit absoluto e emplacou em primeiro. Resultado que compensou os dois anos de negociações para conseguir autorização de uso de todas as músicas.

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Depois de optar por uma trilha instrumental clássica e épica em “Austrália” (pra mim, um tiro no pé que justifica boa parte do fracasso do filme com o público, uma vez que a marca pop do diretor não estava presente), Luhrmann volta à boa forma agora com “O Grande Gatsby”. É só pegar a lista das faixas para perceber como ele entregou este trabalho para figurões da música atual. Segundo o diretor, foram dois anos de trabalho nos quais ele tentou identificar quais cantores hoje teriam o mesmo peso e representatividade que os ícones do jazz tinham na década de 1920, na qual se passa a história. Produzida em conjunto com o rapper americano Jay-Z, a trilha aposta em novos nomes de prestígio (como Florence + The Machine, Sia e Gotye) e artistas de popularidade mais que comprovada (como Beyoncé, Fergie, will.i.am e Jack White). Além de canções próprias, novamente a seleção inclui releituras, como a versão para “Back to Black”, da Amy Winehouse, e de “Crazy In Love”, da Beyoncé.

Assim como em “Romeu + Julieta”, mais uma vez Luhrmann investe em uma trilha que sintetiza a indústria musical na época do lançamento do filme. É um álbum que, se ouvido daqui a 10 anos, mostrará ao ouvinte a mistura de pop com influência retrô, música eletrônica e R&B que atualmente domina as rádios. A decisão de sonorizar os anos 1920 com música contemporânea já rendeu inclusive ótimos resultados nas paradas. A trilha sonora estreou em segundo lugar entre os CDs mais vendidos nos Estados Unidos na primeira semana de venda, um resultado melhor que os de “Moulin Rouge” e “Romeu + Julieta” atingiram em todo o tempo em que ficaram na listagem da Billboard. Um sucesso que só mostra que o Midas australiano voltou com tudo!

(Publicado originalmente em 14/06/2013, no site Salada de Cinema)

As trilhas que embalam Baz Luhrmann – parte 1

Pela estética extravagante, farsesca e exagerada, só de bater os olhos em um filme dá pra dizer que ele é do diretor Baz Luhrmann. Do mesmo jeito, dá pra reconhecer suas obras só por um passar de ouvidos. Além de assumir a música pop como uma marca de identidade, o diretor ainda é conhecido por usar músicas atuais para sonorizar histórias que se passam em períodos históricos distantes. Daí surge um bordel na França de 1900 que toca Nirvana e uma Nova York de 1920 embalada pelo rap de Jay-Z. Fator importante ainda na atração do público jovem, as trilhas sonoras recheadas de canções conhecidas e populares são um traço presente desde a estreia do diretor australiano nas telas.

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E não havia melhor jeito de usar música no cinema do que com um musical. Em “Vem Dançar Comigo”, de 1992, Luhrmann mescla composições instrumentais e clássicos do pop para contar a história do bailarino que precisa ganhar um concurso de dança de salão. Com um pé no teatro de revista e outro no conto de fadas, as canções ganham um novo significado: viram ao mesmo tempo um hino de salão e um hit de rádio. É o caso, por exemplo, de “Perhaps Perhaps Perhaps”, bolero em versão de 1964 cantada para atriz Doris Day. Já para embalar o envolvimento entre o dançarino galã e a aprendiz atrapalhada, é o cover de “Time After Time”, de Cindy Lauper, que entra na parada. Uma tática para aproveitar a carga emocional da música para muitas pessoas e usá-la a favor da identificação com o filme.

Uma artimanha que o diretor também usou ao escalar “Love Is In The Air” como música-tema de “Vem Dançar Comigo”. A canção de John Paul Young lançada em 1978 ganhou uma versão remixada, que mantém diversos elementos sonoros da versão original e acrescenta atualidade e efervescência. Ainda possui a aura cafona que tomou conta da música ao longo do tempo, mas a transformou naquele guilty pleasure que ninguém assume que gosta, mas todo mundo ouve e dança. Por causa do filme, “Love Is In The Air” voltou à parada de sucesso australiana e chegou a ser a quarta mais tocada no país em 1992. Uma prova de que as trilhas de Baz não ficam restritas apenas aos filmes e mexem também com a indústria fonográfica.

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Um poder de fogo que os Estados Unidos conheceram com ainda mais força na estreia de Luhrmann em Hollywood. Em “Romeu + Julieta”, a história clássica de William Shakespeare foi atualizada para os dias atuais tanto na concepção visual e narrativa quanto na auditiva. Para falar do amor proibido entre dois adolescentes, além de colocar atores jovens e bonitos em cena, era preciso também incluir o que o público-alvo ouvia naquele momento. Por isso, a trilha transborda bandas que faziam sucesso entre os jovens em 1996 e, com isso, o rock radiofônico não ficou de fora. Estão lá, por exemplo, Everclear, Radiohead e Garbage, que estourou nas paradas americanas naquele ano. “Crush #1”, a música da banda na trilha, ficou no topo da parada de rock por quatro semanas, virou tema de abertura de série de TV e ainda recebeu uma indicação de Melhor Música no MTV Movie Awards.

No entanto, quem realmente virou a cara da MTV naquele ano foi o grupo The Cardigans. “Lovefool” foi lançada dois meses antes da estreia de “Romeu + Julieta” e foi um sucesso imediato. Com isso, o filme se beneficiou e muito do barulho gerado nas paradas de sucesso, uma vez que o clipe com as imagens dos atores Leonardo DiCaprio e Claire Danes passava sem parar na MTV.

Se por um lado “Romeu + Julieta” foi ajudado pelo The Cardigans, o filme também criou seus ícones com a cantora Des’ree. A música “Kissing You”, que toca quando os apaixonados se veem no baile pela primeira vez, é o grande tema romântico do filme e é apontada pelos críticos como o ponto alto da produção. Escrita especialmente para a trilha, a canção é executada quase na íntegra no filme e conta até com a participação especial da própria cantora. Para espremer o hit até a última gota, “Kissing You” também ganhou um videoclipe com imagens do filme e foi incluída no terceiro álbum de Des’ree, “Supernatural”.

Além de catapultar os artistas para o sucesso, o álbum de “Romeu + Julieta” foi ainda o primeiro grande sucesso das trilhas sonoras de Baz Luhrmann. A coletânea alcançou o posto de segunda trilha mais vendida no período de acordo com os levantamentos da Billboard. Um resultado que supera inclusive as vendas da trilha de “Moulin Rouge”, filme no qual a música pop adquiriu o papel mais importante na carreira do diretor australiano.

(Publicado originalmente em 13/06/2013, no site Salada de Cinema)

O homem que transformou o banho em medo

Uma mulher no banho. A porta se abre. Pela cortinha do banheiro, vemos um vulto se aproximar. Uma mão puxa a cortina. A mulher se assusta. O vulto desfere uma série de facadas. A mulher se debate. O sangue da vítima escorre pelo ralo. O vulto vai embora. O corpo da mulher fica caído no chão. Tenho certeza de que só pela descrição você visualizou a cena mais famosa de “Psicose”, do diretor Alfred Hitchcock. E, junto com a cena, ouviu também a trilha sonora angustiante e fatal que embala o homicídio. Além da inventividade do mestre do suspense, um dos responsáveis por este momento tão icônico do cinema é o compositor Bernand Herrmann, um dos maestros mais importantes que passaram por Hollywood e que trabalhou com os diretores como Orson Welles e Martin Scorcese.

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Nascido em Nova York em 1911, Herrmann enveredou pela música graças ao estímulo do pai, que o levava à ópera e o incentivou a aprender violino. Sua primeira experiência profissional na composição de trilhas sonoras foi para programas de rádio. Foi assim que conheceu Orson Welles. O maestro criava as trilhas que davam a atmosfera dramática das adaptações radiofônicas de Welles, inclusive a de “Guerra dos Mundos”, que deixou a população americana em pânico ao acreditar que o país realmente estava sendo invadido por alienígenas (o que só mostra que, desde o começo, Herrmann já estava destinado a mexer com o imaginário das pessoas).

A passagem do rádio para o cinema também foi consequência da parceria com Orson Welles. E não foi qualquer estreia: Herrmann é o compositor da trilha de “Cidadão Kane”, filme tido até hoje como um dos melhores da história do cinema. O debute foi tão bem sucedido que ele recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Trilha Sonora pelo filme.

Apesar de trilhar a obra-prima de Welles, a fama de Herrmann veio mesmo com os trabalhos junto a Hitchcock. Com o diretor, trilhou quase todos os filmes entre “O Terceiro Tiro”, de 1955, a “Marnie, Confissões De Uma Ladra” de 1964, período que inclui os grandes sucessos “Um Corpo que Cai”, “Intriga Internacional” e “Psicose”. Além dos filmes, era também o responsável pela trilha sombria e assustadora do programa de TV do diretor, o “The Alfred Hitchcock Hour”. No entanto, em 1966, a parceria que parecia tão sólida foi abalada. Hitchcock recusou a trilha composta por Herrmann para o filme “Cortina Rasgada”, alegando que queria algo mais pop e o que o estilo do compositor estava ultrapassado. Aí os dois nunca mais de falaram.

Se para Hithcock o som do compositor soava velho, para outros diretores isso não era verdade. Após o fim da parceria com Hitchcock, Herrmann engatou trilhas com François Truffaut (“Fahrenheit 451”), Brian de Palma (“Trágica Obsessão”) e com Martin Scorcese em “Taxi Driver”, em 1976, seu último trabalho no cinema.

As trilhas compostas por Hermann desde cedo se destacaram por fugir do lugar comum. Em uma época em que os temas eram compostos para serem executados por toda a orquestra, o maestro optava por arranjos que privilegiavam determinado naipe de instrumentos. Em “Psicose“, por exemplo, a trilha utiliza apenas instrumentos de corda. Também alterou a duração dos temas, que trocavam os longos arranjos por instrumentações curtas e de fácil identificação.

Dono de um gênio arredio e defensor da liberdade criativa irrestrita para os compositores, Hermman só se envolveu em projetos nos quais pôde transformar um roteiro em notas musicais sem a interferência do diretor (motivo pelo qual os pitacos de Hitchcock tornaram a parceria insustentável). Em busca desta realização artística, envolveu-se em 51 projetos dos mais variados, o que originou uma produção versátil que engloba temas heroicos e aventureiros (como “Intriga Internacional” e “Viagem ao Centro da Terra”) e tensos e angustiantes (como “Taxi Driver” e “Um corpo que cai”). Além de ajudar a narrativa a evoluir, Herrmann queria que as trilhas também fossem relevantes quando ouvidas fora do cinema, o que demonstra que, acima da sétima arte, seu compromisso primordial era com a música. Uma paixão, inclusive, que só considerava completa com o casamento das funções de compositor e maestro. Para ele, não liderar a orquestra na gravação dos temas era como um pintor que permite que outra pessoa coloque as cores no esboço de uma pintura. Era na regência dos músicos que ele deixava sua impressão digital. Uma assinatura que fez os banhos em hotéis nunca mais serem os mesmos no mundo inteiro.

(Publicado originalmente em 09/06/2013, no site Salada de Cinema)

Por que as mulheres do show bizz ameaçam tanto os homens?

“As mulheres estão dominando o mundo”. A frase sempre aparece para descrever como elas, desde a década de 70, ocupam territórios majoritariamente masculinos. Por mais que normalmente a frase surja em um contexto positivo e de admiração, algumas vezes também é usada para camuflar o machismo e também a insegurança dos homens em relação a essa mulher independente, dona de si e com objetivos muito bem traçados. Só que, às vezes, o medo aparece nas entrelinhas. E aí, o nosso sexismo se escancara, mesmo que, teoricamente, em tom de piada. Como aconteceu com a cantora Beyoncé na última sexta.

Beyoncé no palco do Rock in Rio - Foto: Raul Aragão/I Hate Flash/Divulgação Rock in Rio

Beyoncé no palco do Rock in Rio – Foto: Raul Aragão/I Hate Flash/Divulgação Rock in Rio

Em reportagem da Folha de S. Paulo, a cantora foi alvo de insinuações que tentavam desconstruir sua imagem de mulher poderosa. Virou motivo de riso desde a manchete, quando foi apelidada de “a maior chacrete do planeta”. Ainda que a matéria tenha superficialmente um tom elogioso, fica o incômodo pela comparação com as dançarinas do Chacrinha. E digo isso sem passionalidade, pois não sou fã irrestrito da cantora. Em uma sequência na qual elogios são sucedidos por alfinetadas, o jornalista Thales de Menezes desenvolve assim sua tese:

Chacrinha (1917-1988) disse certa vez que, se uma de suas dançarinas de palco soubesse cantar, faria dela a maior do mundo.

O Velho Guerreiro não viveu para ver, mas a maior cantora do mundo hoje é, definitivamente, uma chacrete.

Beyoncé vai mostrar esta noite que dança bem como uma delas e veste seu corpão de chacrete com roupinhas de… chacrete.

Por mais que não seja um xingamento dizer que a cantora seja uma chacrete, a comparação é no mínimo irresponsável, principalmente por causa do tom pejorativo por trás dela. Não é surpresa que as chacretes são estigmatizadas pela exploração do corpo como único meio de visibilidade. Junto ao tom sarcástico do texto, fica difícil acreditar que a analogia sirva apenas para destacar a posição de Beyoncé como “a maior do mundo”. Acreditar que o jornalista tenha feito a comparação de forma despretensiosa, sem considerar os juízos de valores por trás das palavras, é no mínimo uma ingenuidade. Principalmente porque ele não é réu primário.

Rihanna no palco do Rock in Rio, em 2011

Rihanna no palco do Rock in Rio, em 2011

Em 2011, quando Rihanna foi uma das principais atrações do Rock in Rio (por coincidência, mesmo destaque que Beyoncé possui nesta vinda ao Brasil), Thales usou seu humor questionável para criticar a independência feminina. Recém-saída de um relacionamento conturbado com o cantor Chris Brown, que terminou de forma trágica quando ele a espancou, o jornalista associou a violência a uma lição por Rihanna ser tão “decidida” e “dona de seu nariz” (escrevi sobre isso na época). Da mesma forma que fez agora com Beyoncé, ainda que as intenções não estejam explícitas, a “piada” infeliz traz nas entrelinhas uma série de preconceitos, podendo ser interpretada até como uma defesa desta “surra corretiva”.

Com a reincidência na última sexta, fica a pergunta: por que as mulheres do show bizz ameaçam tanto os homens? A única explicação é que elas simbolizam da forma mais midiática possível que o sexo feminino descobriu que não precisa do sexo masculino para se sentir realizada. Que, se foram tratadas como objeto durante séculos, agora elas estão em uma posição confortável na qual não precisam mais pautar suas vidas ao redor das necessidades dos homens. E que, por divulgarem o girl power com tanta visibilidade, são um perigo ao servirem de exemplo para a independência de muitas outras mulheres.

As mulheres do show bizz metem medo e, por isso, a reação dos homens só poderia ser a mais instintiva possível: atacar o predador antes que se tornem uma presa imobilizada.

Rock in Rio 2013: Justin Timberlake quebra jejum de 12 anos com melhor show do primeiro fim de semana

A meia hora de atraso não foi suficiente para desanimar os fãs que esperaram 12 anos para a segunda vinda de Justin Timberlake ao Brasil. O jejum, que durava desde 2001, quando ele se apresentou no Rock in Rio ainda como membro do NSYNC, foi recompensado com uma apresentação enérgica e recheada de hits do começo ao fim.

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Foto: Flavio Moraes/G1

No palco, ficou claro porque Justin é apontado como o novo rei do pop. Apesar de pouco mais de uma década de carreira solo, o show trouxe um repertório sólido e muito bem amarrado, que equilibrou na medida certa músicas para dançar e baladas. Foram 19 canções em 1h40 de música, que contemplaram os três CDs do cantor e covers de “I Need You Tonight”, do INXS, e “Shake Your Body”, do Michael Jackson. Uma sucessão de hits que não deixou de fora “Like I Love You”, “My Love”, “Cry Me A River”, “Señorita”, “Futuresex/Lovesound”, “Lovestoned”, “Rock Your Body” e “What Goes Around… Comes Around”. Foi praticamente uma versão estendida da apresentação dele no Video Music Awards, no final de agosto, e só ficaram de fora as músicas do NSYNC. Até “Sexyback”, “Suit & Tie” e “Mirrors”, ausentes no setlist divulgado à imprensa antes do show, apareceram para a alegria dos fãs e finalizaram o show com uma sequência de tirar o fôlego .

Apesar de extremamente carismático e dono de uma presença de palco hipnotizante, Justin conversou pouco com o público no Rock in Rio, limitando-se a algumas declarações de amor ao Rio de Janeiro e a pedidos para levantar as mãos e bater palmas. Mesmo assim, o público seguiu cada ordem do showman, além de gritar a cada vez que JT ameaçava passos de dança.

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Foto: Flavio Moraes/G1

Trazendo um casamento perfeito entre as canções dos três álbuns, o show mostrou que as músicas de “The 20/20 Experience”, seu CD mais recente, funcionam muito bem ao vivo, até por surgirem em versões resumidas, longe dos quase 10 minutos de duração que cada uma tem originalmente. Ainda que o frontman seja a principal estrela do show, merecem destaque também a banda e os bailarinos, que deram um show à altura do poder de fogo do repertório de Timberlake.

Pena que a transmissão do Multishow surja como um ponto negativo. O canal a cabo parecia não conhecer o show que tinha em mãos e exibiu uma sucessão de cortes frenéticos, em que cada imagem não ficava mais que 5 segundos na tela. A edição prejudicou principalmente as coreografias, pois as imagens privilegiavam gerais do palco a distância, imagens aéreas e closes da plateia.

Ainda assim, o espetáculo conduzido por Justin Timberlake só deixa uma conclusão: foi um show memorável, cuja empolgação da plateia durante o encerramento com”Sexyback” tem tudo pra entrar para a galeria de imagens inesquecíveis do Rock in Rio.

Atualizado às 12h54: Já estão pipocam no YouTube os vídeos da apresentação do Justin no Rock in Rio. Delicie-se!

 

Sexyback

 

Suit & Tie + Mirrors

 

Pusher Love Girl

Summer Love + Senorita

What Goes Around… Comes Around