Sobre política e humanidade

Quando criança, aprendi a tocar violão porque queria fazer parte do grupo que cantava na igreja. Eles transformavam o amor ao próximo em música e eu queria fazer parte dessa mensagem, desse jeito emotivo e alegre de tocar o coração das pessoas. Porém, um dia eu percebi que nem tudo era tão maravilhoso. O amor ao próximo não valia pra mim por um simples motivo: eu só merecia ser amado se mudasse quem sou. Acabei me afastando da Igreja e a vida seguiu. Muito tempo depois, refiz as pazes com Deus. Não por fraqueza, mas porque percebi que a culpa não era Dele; era dos homens. Foram eles quem transformaram a fé em algo pouco misericordioso e absurdamente condicional.

Ontem, no debate dos presidenciáveis da Rede Record, foi a vez de me desiludir com a política. Não que ela ainda gozasse de prestígio, já que é preciso estômago para enfrentar o tsunami de escândalos e conchavos. Então por que a desilusão? Porque cansei de ver gays e lésbicas serem usados como palanque de campanha. E isso vale para todos que estavam ali.

Vale para a candidata que se diz defensora do público LGBT, mas se acovarda na discussão que ela mesma propõe. Que não se indigna publicamente perante uma demonstração de ódio contra uma minoria. Que não responde à agressão sem o auxílio de uma equipe de campanha. Que se omite em uma discussão que ela mesma propôs. Que prefere terminar o debate enaltecendo seu partido em vez de repudiar a visão de mundo limitada de seu adversário. E que depois vem ao twitter manifestar sua revolta, mas que se calou quando mais precisavam dela.

Vale para o candidato que combate gays e lésbicas como uma invasão de baratas. Que defende um conceito de família apenas com fins reprodutivos, ignorando casais estéreis, homoafetivos e crianças adotadas. Que se coloca como defensor da moral e dos bons costumes, mas acha de bom tom fazer comentários jocosos sobre “aparelho excretor” em rede nacional. Que recomenda tratamento psiquiátrico a quem só quer igualdade, respeito e amor. Que usa um meio de comunicação de massa para estimular o ódio em um país que enfrenta um genocídio.

Vale também para todos os candidatos que se calaram nesse cenário de guerra para não perder o valioso voto dos conservadores e religiosos. Que abriram mão da espontaneidade para seguir o roteiro robótico do marketing de campanha. Que se esconderam por trás das regras rígidas de um debate para não exteriorizar consternação. Que preferem usar o tempo que lhes resta para fazer piadas e virar meme na internet. Que se abstêm de qualquer demonstração de humanidade e se calam perante o absurdo da situação.

E vale também para a plateia que, em vez de se revoltar, ri. Que não vaia. Que incentiva com gargalhadas a incitação ao conflito direto entre uma maioria dominante e uma minoria dominada.

O que se viu ontem é a prova de que, no Brasil, o poder é uma farsa sem a menor graça. E pior: sem o menor respeito à vida e ao amor. Um teatro no qual o ser humano está longe de ser o tema mais importante. Espero que, um dia, eu seja capaz de refazer as pazes com a política, assim como fiz com Deus. Mas, por enquanto, não dá.