Oscar 2015 – ‘Caminhos da Floresta’

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Quem me conhece, sabe que sou um cara otimista. Do mesmo jeito que procuro um lado bom nos problemas, tenho o hábito de também enxergar qualidades até em filmes ruins. Portanto, quando meu veredicto é de que uma produção é uma bomba, é sinal de que deva ser mesmo um caso perdido. É esse o meu sentimento em relação a “Caminhos da Floresta”. Indicado a três estatuetas no Oscar deste ano (sendo a mais importante a de Melhor Atriz Coadjuvante para a Meryl Streep), o musical é uma decepção do começo ao fim. E como dói um fã de musicais – como eu – ter que afirmar isso!

Apesar da embalagem bonitinha que pode até lhe valer os dois prêmios técnicos a que concorre – Design de Produção e Figurino, o filme se arrasta e consegue a façanha de minguar até o carisma de personagens consagrados como Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e Rapunzel. Com isso, o cineasta Rob Marshall só deixa claro, a cada trabalho, que os prêmios recebidos por “Chicago”, em 2003, foram realmente uma compensação pelo desprezo que “Moulin Rouge” recebeu no ano anterior.

Mas quais são os problemas de “Caminhos da Floresta”? Será que nem o carisma de Meryl Streep salva o filme? São alguns pontos que comento no vídeo abaixo.

P.S.: Não bastassem os problemas, o roteiro ainda inclui pitadas de moralismo e machismo constrangedores. É só observar o desfecho do adultério envolvendo dois personagens comprometidos. O homem segue a vida, enquanto a mulher é punida. Com a morte. Deve ser ranço do selo Disney…

(para conferir os comentários anteriores, é só clicar aqui, aqui e aqui)

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Oscar 2015 – ‘Livre’

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Quando li as primeiras notícias sobre “Livre”, não posso mentir que me bateu uma preguiça danada do filme. Afinal, quantas vezes a gente já não viu essa história da pessoa que põe o pé na estrada pra refletir sobre a vida e encontrar seu lugar no mundo? Até Machado de Assis caiu nesse clichê em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (ainda que seja pra criticar esse costume da elite – o que, claro, escapou da minha leitura adolescência). Pra piorar, histórias de autoajuda me dão sono! Tanto que a única vez em que dormi no cinema foi vendo “Comer, Rezar, Amar”. Ou seja, fui assistir ao filme com os dois pés atrás.

E não é que saí emocionado do cinema? Se é verdade que todas as histórias da humanidade já foram contadas, “Livre” é a maior prova de que o mais importante não é “o que acontece”, mas sim “como acontece”. Um roteiro adulto, doloroso, extremamente fragmentado e que nos leva a repensar profundamente as decisões que tomamos. Se a vida é feita de escolhas, enfrentar as consequências precisa ser parte do jogo. Mesmo que a gente não sabia como.

Nesta terceira postagem sobre os indicados ao Oscar, eu comento minhas impressões sobre o filme e quais as chances dele (na minha modesta opinião) nos prêmios de “Melhor Atriz” e “Melhor Atriz Coadjuvante”. É só dar play aqui embaixo!

(você confere as postagens anteriores aqui e aqui)

Oscar 2015 – ‘O Jogo da Imitação’

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Quarta-feira é o dia nacional de pagar meia no cinema. Que tal usar a promoção pra conferir mais um indicado ao Oscar deste ano? A minha dica é o filme “O Jogo da Imitação”, que concorre a oito estatuetas no dia 22 de fevereiro (Filme, Diretor, Ator, Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Montagem e Direção de Arte).

Pra quem não sabe do que se trata, é a cinebiografia do matemático Alan Turing, que foi peça-chave para descobrir o código secreto que os nazistas usavam para se comunicar na Segunda Guerra Mundial e que contribuiu e muito para o fim do conflito. Não bastasse ser um drama sensacional, é ainda a oportunidade de conhecer uma história que ficou guardada a sete chaves por muitas décadas e que tem como ponto central um protagonista cheio de nuances e contradições, herói e “bandido” ao mesmo tempo.

Quer saber o motivo? Então aperta o play aqui embaixo e confere o meu comentário sobre o filme.

(e aqui você confere a primeira postagem dessa série com os filmes “Boyhood – Da Infância à Juventude” e “O Grande Hotel Budapeste”).

Oscar 2015 – ‘Boyhood’ e ‘O Grande Hotel Budapeste’

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Crítica de cinema é algo que todo mundo acha que sabe fazer, mas nem todo mundo faz. Exige conhecimento profundo sobre estética, técnica, história, semiótica e muita bagagem cultural. Por isso, dificilmente eu me arrisco a dizer que faço “crítica”. Por mais que conheça ou goste da sétima arte (ou de música e televisão), não acho que tenha (ainda!) um conhecimento sistêmico que me gabarite como crítico.

Prefiro muito mais a resenha ou o comentário. Nesses dois formatos, posso me prender mais ao meu ponto de vista sobre determinado produto cultural. Posso mesclar minha opinião com curiosidades e detalhes da produção, com a única função trazer um guia pessoal e subjetivo para quem quer ver ou ouvir uma obra.

É com esse pensamento que tenho abordado os indicados ao Oscar deste ano no telejornal Unesp Notícias, da TV Unesp. Pra mim, funciona também como um laboratório, já que comentários sobre cinema são frequentes em jornais, mas raros na televisão. De modo geral, trata-se de uma conversa franca com o telespectador para que ele obtenha informações para decidir se quer ou não assistir a determinado filme. E, caso escolha vê-lo, que aceite esse convite com a liberdade total e irrestrita de discordar da minha opinião. Até prefiro que discorde!

Neste primeiro vídeo, dou destaque a duas produções: “O Grande Hotel Budapeste”, do diretor Wes Anderson, e “Boyhood – Da Infância à Juventude”, do cineasta Richard Linklater.

Vamos lá, contrariem-me!

‘Caçadores de Obras-Primas’ peca pela pouca importância com a História

Um tema delicado e complexo, cheio de feridas não cicatrizadas. Abordar o nazismo num filme por si só já é uma tarefa complicada. Pior ainda é se o foco da película ganha destaque nos jornais poucos meses antes da estreia. Foi com todos estes complicadores que “Caçadores de Obras-Primas” precisou lidar. É uma pena, no entanto, que muitas das boas intenções tenham ficado pelo caminho.

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Quinta experiência por trás das câmeras do mundialmente famoso George Clooney, o filme retrata um fato da Segunda Guerra Mundial pouco explorado pela sétima arte. Em meio ao holocausto, Hitler ordenou que o exército alemão roubasse obras de arte de museus e de colecionadores particulares. As pinturas e esculturas de gênios como Michelangelo, Picasso e Rodin, entre muitos outros, seriam a principal atração do museu que o chefe nazista planejava erguer na Áustria. Para frustrar os planos do ditador, um grupo de especialistas em arte se uniu ao exército americano para vasculhar a Europa, encontrar as obras saqueadas e evitar que ícones da arte ocidental caíssem em mãos erradas.

De volta às manchetes em novembro, quando o governo alemão localizou 1.500 quadros pilhados durante a Segunda Guerra, o fato histórico flerta na telona com as aventuras de Indiana Jones, mas infelizmente não tem o brilho do herói criado na década de 70. Mesclando desproporcionalmente ação, sentimentalismo e uma comédia pouco inspirada, falta ao filme transmitir a real gravidade do roubo das obras de arte e a importância da missão de resgate. Ao saquear e destruir obras-primas, Hitler pôs em perigo uma parte significativa da História. Mesmo que não sejamos amantes de arte, esses símbolos culturais representam o mundo ocidental e, indiretamente, cada um de nós. Ao ofuscar a nobreza dos heróis e o drama da situação com uma abordagem e uma trilha que transformam tudo em piada, George Clooney colocou “Caçadores de Obras-Primas” abaixo de filmes recentes como “Bastardos Inglórios” e “Operação Valquíria”. E tudo porque não consegue fazer o público se importar com o destino da humanidade.

Além disso, mesmo com astros como Cate Blanchett, Matt Damon e o próprio George Clooney, criar nove protagonistas é um exagero que só dificulta a identificação com a história. No final, sabemos tão pouco sobre cada um deles que não faz diferença se eles vivem, morrem ou voltam para suas famílias.

“Caçadores de Obras-Primas” mostra que um grande orçamento não fez bem à criatividade de George Clooney. Faltam a ele a sensibilidade de “Boa Noite, Boa Sorte” e a coragem de “Tudo Pelo Poder”. No entanto, o pior problema do filme talvez não esteja na tela, mas sim em cada pessoa na plateia. Afinal, o golpe mais dolorido é na expectativa de que o filme estivesse à altura da pequena, porém consistente, filmografia do diretor, que nunca havia amarelado diante de assuntos difíceis.

(Publicado originalmente em 19/02/2014, no site Social Bauru)

Desabafos garantem show de interpretação em ‘Álbum de Família’

Diz a sabedoria popular que família é tudo igual. Talvez venha daí a sensação de alívio após assistir a “Álbum de Família”. Isso porque o filme, que tem um elenco recheado de estrelas como Meryl Streep, Julia Roberts e Ewan McGregor, retrata um núcleo familiar desunido e cheio de ressentimentos, que felizmente se distancia bastante do dia a dia de muita gente.

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Segunda empreitada no cinema do diretor John Wells, que tem uma carreira dedicada principalmente a seriados de TV, a película acompanha a família Weston, que precisa se reunir depois que o pai desaparece sem motivo. Para tentar localizá-lo e fazer companhia para a mãe, as filhas do casal voltam para sua terra natal no Meio Oeste americano. Mas o que deveria ser um encontro reconfortante traz à tona desabafos, discussões e segredos que mostram que por dentro a grama do vizinho é mesmo sempre menos verde.

Baseado em uma peça do dramaturgo Tracy Letts (que também ficou responsável pelo roteiro), o filme não nega suas raízes teatrais ao se concentrar nos ótimos diálogos e nos embates entre os familiares. Por isso, o elenco estelar é o principal destaque. É hipnotizante a forma como os doze atores “principais” estão completamente entregues às fragilidades e deficiências de seus personagens, dando-lhes humanidade em caracterizações que poderiam facilmente descambar para a caricatura. A forma como o roteiro costura as relações familiares torna todos essenciais para a narrativa, sendo uma tarefa árdua criar uma escala de importância entre eles.

Porém, usando como referência as indicações de Meryl Streep e Julia Roberts ao Oscar, é correto afirmar que a dupla é mesmo a espinha dorsal do filme. A primeira como Violet, a mãe com câncer viciada em medicamentos, e a segunda como Barbara, a filha que se mudou pra longe da família e que retorna ao interior enquanto seu próprio casamento desmorona. É desta relação despedaçada, marcada por feridas nunca cicatrizadas, que explodem confissões cheias de mágoa e que obrigam as atrizes a navegar do afeto à loucura em poucos segundos e dentro de uma mesma cena. Um espetáculo que vale cada centavo do ingresso!

Ainda que aqui e ali surjam risadas pontuais, principalmente graças às farpas irônicas e sarcásticas trocadas pelos personagens, os risos parecem funcionar muito mais como reações nervosas à tensão da história. Confinados em uma casa do meio do nada, a sensação é de que os personagens estão sempre desconfortáveis e, como o filme bem define, em um “estado de aflição espiritual” que só aumenta com o calor insuportável do lugar.

Com isso, fica a dúvida de por que “Álbum de Família” concorreu ao Globo de Ouro entre as produções de comédia. A explicação mais sensata é a de que o estúdio inscreveu o filme na categoria para garantir indicações a Meryl Streep e Julia Roberts em um ano em que a disputa entre os dramas já estava muito acirrada. Um artifício baixo que não precisaria ser utilizado, já que os desempenhos das atrizes estão entre os melhores de suas carreiras.

(Publicado originalmente em 05/02/2014, no site Salada de Cinema)

‘O Lobo de Wall Street’ é uma comédia feroz e provocativa

Um palavrão que é repetido 506 vezes. Consumo de drogas que vai do álcool ao crack. Muita nudez, com sexo para todos os lados. Se você se incomodou com estes detalhes, talvez “O Lobo de Wall Street” não seja indicado pra você. Recomendado apenas para maiores de 18 anos, o novo projeto do diretor Martin Scorsese é uma comédia que extrapola todos os limites. E é justamente por essa ousadia que vale a pena baixar a guarda!

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Roteirizado a partir das memórias de um especulador da bolsa de valores de Nova York, o filme acompanha a vida de Jordan Belfort desde a década de 80. Entre golpes, crimes e picaretagens, ele vê seu pequeno escritório se tornar um grande centro de venda de ações. Com a riqueza, surge o vício em drogas, em sexo (na maioria das vezes com prostitutas) e a necessidade de escapar de uma equipe do FBI que investiga crimes financeiros.

Apesar de uma carreira construída principalmente com dramas, Scorsese se mostra muito seguro em “O Lobo de Wall Street” e com timing para a comédia. Enquanto algumas sequências são conduzidas devagar, dando tempo para compreender os acontecimentos que resultarão numa grande piada, em outras o diretor investe em rápidas tiradas visuais, em exageros que beiram a caricatura e em diálogos ácidos e diretos. Tudo isso sem esquecer características da sua filmografia, como a violência explícita.

A direção do elenco reforça a tradição de que ele consegue tirar o melhor dos atores. Leonardo DiCaprio, por exemplo, se entrega de forma tão intensa à loucura, ao deboche e ao nonsense do protagonista que cria o melhor papel da sua carreira. Não é a toa que o ator já ganhou o Globo de Ouro e é apontado como um dos favoritos ao Oscar. Como na maioria dos filmes de Scorsese, “O Lobo de Wall Street” conta ainda com uma galeria memorável de coadjuvantes, como o amigo vivido por Jonah Hill e a participação de Matthew McConaughey como tutor do protagonista, todos cativantes e com personalidades marcantes.

Censurado em vários países por causa dos excessos e acusado nos EUA de glamourizar a vida de criminosos (o que só mostra que muita gente não entendeu que o filme na verdade os ridiculariza), “O Lobo de Wall Street” só não é perfeito porque suas 3 horas de duração tornam a experiência um pouco cansativa. Indicada a cinco Oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado), é pouco provável que esta loucura de Scorsese leve o maior prêmio da noite. Porém, é animador ver que um cineasta com quase 50 anos de carreira ainda tem disposição para sair da zona de conforto e provocar quem assiste.

(Publicado originalmente em 28/01/2014, no site Social Bauru)

‘Frozen’ atualiza o papel da mulher nas histórias de princesa

Todo mundo na faixa dos 30 anos cresceu rodeado pelos clássicos da Disney. Seja com a Branca de Neve, a Bela Adormecida ou a Cinderela, em algum momento da infância a gente se rendeu aos contos de fada em que uma princesa esperava um príncipe encantado mudar sua vida. Com “Frozen – Uma Aventura Congelante ”, a Disney dá sinais que de que entendeu que hoje os tempos são outros, mas sem perder a magia e as características que a tornaram famosa no mundo dos desenhos animados.

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Inspirado em um conto dinamarquês de 1845 considerado clássico na Europa, o filme conta a história das irmãs Anna e Elsa, princesas do reino de Arendelle. Mas há um segredo: Elsa, a mais velha, tem o poder de controlar a neve e de transformar tudo que toca em gelo. Na noite em que ela é coroada rainha, este segredo vem à tona. Nervosa, Elsa coloca todo o reino sob um rigoroso inverno e foge para as montanhas. Cabe então a Anna ir atrás da irmã e trazer o verão de volta.

Em cartaz aqui no Bauru desde o começo do mês, “Frozen” se transformou em um sucesso imediato desde sua estreia nos EUA, em novembro. Além de conquistar a crítica logo de cara, o filme já arrecadou mais de 700 milhões de dólares em bilheteria no mundo inteiro, número que só comprova sua popularidade. Há duas semanas, o filme ganhou o troféu de Melhor Animação no Globo e Ouro e já é considerado favorito ao Oscar deste ano nesta mesma categoria. Mas o que faz a película assim tão encantadora?

Primeiro de tudo, o padrão Disney de qualidade. Os personagens e os cenários são tão bonitos e detalhados que é até difícil escolher para onde olhar em cada cena. Depois, que a história intercala romance, ação, humor, drama e foca na bonita mensagem de amor entre irmãs. É um filme que faz diverte e emociona e que ainda reforça os laços familiares.

Em terceiro lugar, é legal ver como a Disney aprendeu a rir de si mesma e recheou o filme de piadas sobre os clichês de contos de fada. É uma tiração de sarro sem fim com amor à primeira vista, príncipes encantados, amor verdadeiro, mas sem soar agressivo ou ofensivo. E ainda tem o boneco de neve Olaf, que foi dublado pelo humorista Fábio Porchat e que rouba a cena com sua inocência e suas gracinhas.

Mas o que provavelmente vai colocar “Frozen” como um marco na história da Disney é ver que o filme criou duas protagonistas fortes e que não dependem dos homens à sua volta. Ainda que essa mudança de perfil tenha começado há dois anos com a princesa Merida, de “Valente”, Elsa e Anna concretizam de vez a independência feminina entre as princesas e o entendimento de que hoje a felicidade das mulheres não está mais inteiramente nas mãos de um príncipe encantado. Uma visão que vai agradar às mamães e criar uma nova referência feminina para as meninas na plateia.

Publicado originalmente em 24/01/2014, no site Social Bauru)

‘Além da Escuridão – Star Trek’ equilibra ação e humor de forma genial

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Cercar um filme de mistérios, inclusive sobre seu enredo e seus personagens, pode gerar mais apreensão do que curiosidade. Isto porque a estratégia para impedir spoilers também cria especulações de que algo saiu errado e o estúdio quer evitar publicidade negativa. Por isso, é uma grata satisfação perceber que em “Além da Escuridão – Star Trek” a desconfiança é injustificada, pois estamos diante do melhor blockbuster do verão americano pelo menos até agora.

No segundo capítulo do reboot de “Jornada nas Estrelas”, o diretor J.J. Abrahms continua a reinvenção iniciada em 2009 e coloca os personagens novamente em provação. Agora, a Frota Estelar é alvo de um ataque terrorista liderado por um ex-membro da corporação, que, após o embate, se refugia em um planeta isolado. Para resgatá-lo, o capitão Kirk e a tripulação da nave Enterprise viajam pelo espaço em busca do criminoso. Pode parecer uma sinopse vaga, mas acredite: é o máximo que se pode dizer sem estragar as surpresas do filme.

Com um design de produção impecável, os responsáveis criam cenários grandiosos e detalhistas. No caso dos planetas visitados, são os efeitos especiais e a maquiagem que tornam a fauna, a flora e os alienígenas críveis e ao mesmo tempo encantadores. Principal novidade em relação ao filme anterior, a tecnologia 3D utilizada por J.J. Abrams atinge um resultado perspicaz, principalmente ao agregar profundidade de campo às imagens. Nas cenas espaciais, por exemplo, o efeito proporcionado pela tecnologia garante uma vastidão ainda maior à imensidão galáctica. Os que gostam de um 3D mais interativo também sairão satisfeitos, pois em algumas batalhas é preciso “desviar” para que tiros e artefatos não atinjam a plateia.

São componentes, no entanto, que teriam função apenas ilustrativa se “Além da Escuridão – Star Trek” não tivesse em um roteiro forte, algo que felizmente os roteiristas Alex Kurtzman, Damon Lindelof e Roberto Orci garantem ao filme. Trazendo novos dilemas para todos os personagens principais, a história obriga que Kirk, Spock, Uhura e o vilão John Harrison demonstrem a ambiguidade de sentimentos e de expectativas que o perigo impõe às pessoas. Dispostos desde o primeiro filme a recontar os laços que unem a tripulação, os roteiristas continuam investindo na relação tortuosa entre Kirk e Spock. Com isso, o processo de confiança mútua precisa dividir espaço com a jornada interna do capitão, que ainda busca segurança como líder da nave. A amizade real entre os atores Chris Pine e Zachary Quinto só contribui para que eles estejam mais confortáveis em seus papéis e construam uma cumplicidade genuína para os personagens.

No entanto, de nada adiantariam grandes heróis sem um vilão a altura, função que Benedict Cumberbatch exerce com precisão do começo ao fim do filme. Dono de um magnetismo impressionante, o ator transforma o agente John Harrison em uma ameaça real, destrutiva e implacável. Do cabelo impecavelmente alinhado ao figurino imponente, com sobretudos que explicitam a dramaticidade do personagem, Harrison é um homem inabalável e, por isso mesmo, um desafio imenso que Kirk precisa contornar.

Mesmo que J.J. Abrams afirme que não era fã de “Star Trek” antes de se envolver no projeto, é interessante ver que isto não o impede de reverenciar o universo da franquia. Quando criada por Gene Roddenberry em 1966, a ideia era de que uma trama espacial pudesse discutir temas contemporâneos, algo que em “Além da Escuridão – Star Trek” é representado pelo terrorismo, pelas armas secretas de destruição e pelos jogos de poder. Além disso, o funcionamento da Enterprise com base na estratégia militar, principalmente na hierarquia e nos embates navais, continua como um elemento importante para prolongar o suspense e ditar o ritmo da ação. Ritmo, inclusive, que conta ainda com o equilíbrio perfeito entre humor e aventura.

Há uma superstição que diz que os filmes pares de “Star Trek” são melhores que os ímpares. Com base em “Além da Escuridão”, J.J. Abrams criou um filme que mantém viva esta tradição.

(Publicado originalmente em 24/06/2013, no site Salada de Cinema)

‘Odeio Dia dos Namorados’ tenta risadas com piadas ruins e palavrões

Juntar uma das maiores humoristas da TV ao diretor de “Até que a sorte nos separe” e “De pernas pro ar”, duas sensações cinematográficas nacionais, parece uma fórmula de sucesso, certo? Pelo menos na teoria. O que se observa na comédia “Odeio o Dia dos Namorados” é que uma boa ideia pode naufragar quando o roteiro é tão engraçado quanto uma visita ao dentista.

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Na história, a atriz Heloisa Périssé dá vida a Débora, uma publicitária de sucesso que, como diz o nome do filme, odeia o Dia dos Namorados e evita qualquer tipo de relacionamento amoroso. Desde que abriu mão de um noivado para se dedicar à profissão, ela se transformou em uma workaholic competitiva e também na diretora de criação mais odiada da agência em que trabalha. Um dia, Débora sofre um acidente de trânsito e, enquanto espera sua passagem para o além, recebe a companhia do melhor amigo falecido Gilberto, com quem revisita vários momentos da sua vida e descobre os motivos que a tornaram tão fria e descrente no amor.

Dirigida por Roberto Santucci como se fosse um programa de TV, a produção se restringe aos planos fechados tão característicos das novelas e a uma fotografia básica, que serve apenas para iluminar os ambientes. A direção dos atores também segue a cartilha do humor televisivo e é baseada em uma série de caricaturas incapazes de dar o mínimo de profundidade aos personagens. O resultado é que o filme parece um episódio estendido de qualquer série da TV aberta e não uma produção cinematográfica.

No entanto, são problemas que poderiam ser relevados se o filme conseguisse divertir, tarefa na qual ele infelizmente obtém resultados bem questionáveis. Com exceção de um ou outro momento mais inspirado, o que se vê em “Odeio o Dia dos Namorados” é uma sucessão de piadas batidas e infantis, que apelam, na maioria das vezes, para o sexo e para os palavrões. É como se os roteiristas incluíssem um termo chulo para tentar salvar uma piada ruim, uma tática que só resulta em sorrisos amarelos e constrangidos.

Com um grave problema de ritmo, o filme não consegue encontrar o equilíbrio entre as cenas “engraçadas” e aquelas em que o público se recuperar da última piada enquanto a próxima situação começa a ser construída. Com isso, ou o diretor estende as piadas até o esgotamento, ou formam-se enormes vácuos em que nada acontece.

No balanço final, dá pra dizer que Santucci foi muito mais feliz em “De pernas pro ar 2” do que nesta nova produção, pois o mais frustrante em “Odeio o Dia dos Namorados” é ver que o filme falha no elemento mais básico de uma comédia: a diversão.

(Publicado originalmente em 13/06/2013, no site Salada de Cinema)