O cliente sempre tem razão (mas precisa exigir)

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Poucas tarefas no Brasil são tão frustrantes quanto exigir respeito na compra de um produto ou serviço. Quase 25 anos depois do Código de Defesa do Consumidor, parece que ele ainda não foi suficiente para fazer empresários, gerentes e funcionários agirem de forma ética e honesta numa relação comercial. Vou ilustrar com dois casos que aconteceram comigo nas últimas 24 horas. Coincidentemente, foram na mesma loja do Mc Donalds, em Bauru/SP.

Cena 1 – domingo à tarde
Resolvi almoçar uma Mc Salada, como já tinha feito outras vezes. Fui à lanchonete, pedi, paguei, mas, quando ela chegou, veio sem vários ingredientes. Cadê o tomate, por exemplo? Só aí fui informado de que a salada havia mudado e de que agora era só alface, queijo parmesão e umas tiras de frango. Reclamei com a atendente e ela respondeu que a salada anterior havia saído do cardápio. Pergunta 1: Custava ter informado quando fiz o pedido? Informação nunca é demais, principalmente quando o menu passa por uma mudança tão recente. Como estava com muita fome, aceitei. A atendente, então, me deu um garfo de plástico fora da embalagem lacrada e sem a faca. Precisei exigir os talheres higienizados. Enquanto uma das moças foi buscá-los, a que estava no balcão olhou minha bandeja e disse: “Moço, faltam os croutons. Pede pra ela também, senão ela não vai te dar”. Pergunta 2: Se ela notou que faltava algo no meu prato, por que ela mesma não providenciou? E outra: por que jogou essa responsabilidade pra mim, em vez de ela mesma chamar a atenção da colega? Notem que não estou pedindo regalias, só estou exigindo os itens pelos quais paguei. Resumo: tive que pedir também os croutons, fui atendido com desdém e com certeza fui taxado de “cliente chato”.

Cena 2 – segunda à noite
Com preguiça de cozinhar, fui jantar no Mc Donalds novamente. Fiz o pedido e transformei a oferta média em grande pagando um adicional de R$ 2. Meu “erro” desta vez foi trocar o refrigerante por suco. Quando veio a bandeja, o suco era de 500ml, não de 700ml. Lá fui eu cobrar novamente e a “justificativa” foi de que não existia suco grande. Pergunta 1: Se eu comprei um suco maior e ele não existe, eu deveria ter sido informado, não é? Pois é, não fui. A atendente então argumentou que não tinha cobrado os R$ 2, mas apenas R$ 1 por causa da batata frita maior. Pergunta 2: se o lanche custava R$ 21 e o adicional era de R$ 1, como o total deu R$23? Conclusão: eu paguei sim o adicional inteiro e estava levando apenas metade pra casa. Quando o gerente veio resolver o problema, a culpa foi… do sistema! Claro, essa entidade invisível que se autoprograma, sem a interferência de humanos. Resumo: ele cancelou o suco médio e me “deu” um refrigerante grande no lugar.

Por que contei esses dois casos? Pra mostrar como o consumidor no Brasil tem que supervisionar tudo, até o tamanho do copo do fast food. Não sei se é má-fé ou falta de treinamento, mas não dá pra vacilar. E, principalmente, não dá pra deixar passar. Por causa da pressa, da fome ou porque R$ 1 não vale a dor de cabeça, tem horas que a gente releva. Só que essa postura faz o erro se institucionalizar e se tornar prática comum. De R$1 em R$1, a gente fica com serviços mais sucateados e as empresas se acomodam.

Eu sei que dá muito trabalho exigir os nossos direitos, mas é o único jeito de mostrar que respeito ao consumidor vai além de um slogan bacana. Não adianta dizer “que bom que você veio” na TV. É melhor mostrar essa satisfação quando a gente estiver em frente ao balcão.

O que é vaidade pra você?

Você já deve ter esbarrado com artigos ou reportagens sobre como a Geração Y é movida a elogios. Se olharmos o comportamento nas redes sociais, esse perfil parece real: muita gente, muita mesmo, vive à base do “curtir” do facebook ou do “like” do instagram. Até o twitter mudou o “favoritar” para “curtir”, pois parece mais importante a aprovação dos seguidores do que ter um tweet salvo para consulta futura. Deve ser por isso que eu fiquei tão espantado com a cantora e compositora australiana Sia. Dona de uma voz potente e autora de um hit atualmente Top 10 da Billboard, ela tem escondido o rosto e não aparecido nas apresentações de “Chandelier“. A explicação? Ao invés de reconhecimento, ela quer paz.

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Para comprovar como essa “invisibilidade” da Sia é chocante, é só ver este vídeo. Foi uma das primeiras vezes em que a cantora soltou a voz na TV para divulgar “Chandelier” e a principal atração da performance não é ela, mas sim uma talentosíssima menina bailarina. E o mais: Sia aparece o tempo todo de costas e não mostra o rosto nem para agradecer os aplausos no final! Num mundo em que tanto artista mediano busca louros a qualquer custo, é estarrecedor perceber que alguém com essa voz e essa capacidade de emocionar não mostre o rosto nem na capa do CD e exija no contrato com a gravadora que seja liberada de fazer turnê e de dar entrevistas para promover o disco.

Acho louvável alguém pensar assim. É a prova de que é possível viver sem vaidade e que fama não tem nada a ver com talento ou reconhecimento. Mas, ao mesmo tempo, contraditoriamente, me incomoda imaginar que seja a vitória da visão de que humildade é abrir mão do nosso talento. Sabe quando você recebe um elogio e, em vez de agradecer, você menospreza uma qualidade que realmente tem? Ou, como a Rosana Hermann disse dia desses no twitter, quase pedir desculpas por um talento, como se fosse crime ser bom em algo? Não quero dizer que alguém precise ter fãs, dar autógrafos ou se sentir único e insubstituível. Meu único medo é de que atitudes como a da Sia fortaleçam uma cultura na qual o talentoso precisa se esconder, enquanto o oportunista não tem receio de receber aplausos.

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Por que as mulheres do show bizz ameaçam tanto os homens?

“As mulheres estão dominando o mundo”. A frase sempre aparece para descrever como elas, desde a década de 70, ocupam territórios majoritariamente masculinos. Por mais que normalmente a frase surja em um contexto positivo e de admiração, algumas vezes também é usada para camuflar o machismo e também a insegurança dos homens em relação a essa mulher independente, dona de si e com objetivos muito bem traçados. Só que, às vezes, o medo aparece nas entrelinhas. E aí, o nosso sexismo se escancara, mesmo que, teoricamente, em tom de piada. Como aconteceu com a cantora Beyoncé na última sexta.

Beyoncé no palco do Rock in Rio - Foto: Raul Aragão/I Hate Flash/Divulgação Rock in Rio

Beyoncé no palco do Rock in Rio – Foto: Raul Aragão/I Hate Flash/Divulgação Rock in Rio

Em reportagem da Folha de S. Paulo, a cantora foi alvo de insinuações que tentavam desconstruir sua imagem de mulher poderosa. Virou motivo de riso desde a manchete, quando foi apelidada de “a maior chacrete do planeta”. Ainda que a matéria tenha superficialmente um tom elogioso, fica o incômodo pela comparação com as dançarinas do Chacrinha. E digo isso sem passionalidade, pois não sou fã irrestrito da cantora. Em uma sequência na qual elogios são sucedidos por alfinetadas, o jornalista Thales de Menezes desenvolve assim sua tese:

Chacrinha (1917-1988) disse certa vez que, se uma de suas dançarinas de palco soubesse cantar, faria dela a maior do mundo.

O Velho Guerreiro não viveu para ver, mas a maior cantora do mundo hoje é, definitivamente, uma chacrete.

Beyoncé vai mostrar esta noite que dança bem como uma delas e veste seu corpão de chacrete com roupinhas de… chacrete.

Por mais que não seja um xingamento dizer que a cantora seja uma chacrete, a comparação é no mínimo irresponsável, principalmente por causa do tom pejorativo por trás dela. Não é surpresa que as chacretes são estigmatizadas pela exploração do corpo como único meio de visibilidade. Junto ao tom sarcástico do texto, fica difícil acreditar que a analogia sirva apenas para destacar a posição de Beyoncé como “a maior do mundo”. Acreditar que o jornalista tenha feito a comparação de forma despretensiosa, sem considerar os juízos de valores por trás das palavras, é no mínimo uma ingenuidade. Principalmente porque ele não é réu primário.

Rihanna no palco do Rock in Rio, em 2011

Rihanna no palco do Rock in Rio, em 2011

Em 2011, quando Rihanna foi uma das principais atrações do Rock in Rio (por coincidência, mesmo destaque que Beyoncé possui nesta vinda ao Brasil), Thales usou seu humor questionável para criticar a independência feminina. Recém-saída de um relacionamento conturbado com o cantor Chris Brown, que terminou de forma trágica quando ele a espancou, o jornalista associou a violência a uma lição por Rihanna ser tão “decidida” e “dona de seu nariz” (escrevi sobre isso na época). Da mesma forma que fez agora com Beyoncé, ainda que as intenções não estejam explícitas, a “piada” infeliz traz nas entrelinhas uma série de preconceitos, podendo ser interpretada até como uma defesa desta “surra corretiva”.

Com a reincidência na última sexta, fica a pergunta: por que as mulheres do show bizz ameaçam tanto os homens? A única explicação é que elas simbolizam da forma mais midiática possível que o sexo feminino descobriu que não precisa do sexo masculino para se sentir realizada. Que, se foram tratadas como objeto durante séculos, agora elas estão em uma posição confortável na qual não precisam mais pautar suas vidas ao redor das necessidades dos homens. E que, por divulgarem o girl power com tanta visibilidade, são um perigo ao servirem de exemplo para a independência de muitas outras mulheres.

As mulheres do show bizz metem medo e, por isso, a reação dos homens só poderia ser a mais instintiva possível: atacar o predador antes que se tornem uma presa imobilizada.

Por que os brasileiros torcem contra os brasileiros?

Segunda-feira, 12 de setembro, 22h40. Foi a cantora Cláudia Leitte subir ao palco do Miss Universo 2011 para se apresentar durante o desfile em trajes de banho que o twitter foi invadido por uma onda de comentários maldosos. Os motivos? O inglês confuso da música, os clichês da apresentação (com bandeiras do Brasil, berimbaus, araras, muitas penas e capoeiristas) e suposta falta de originalidade da cantora, que teria tentando se igualar a outras artistas internacionais. Foi questão de minutos para Claudia Milk (apelido criado pela personagem Katylene) se tornar um dos assuntos mais comentados do twitter no mundo. Pra muitos, foi um dos maiores micos globais brasileiros dos últimos tempos. Será mesmo?

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Já é tradição no Miss Universo escolher um artista para se apresentar durante o desfile de traje de banho, sempre com uma música animada e cujo ritmo anima a plateia. Aconteceu o mesmo, por exemplo, em 2008 com a apresentação de Lady Gaga. Sim, uma ainda desconhecida Lady Gaga, que seguiu à risca a cartilha do evento e que, com certeza, chamou a atenção de muitas pessoas para seu trabalho (eu mesmo fui um deles, que correu para a internet, achou o álbum “The Fame” e ficou feliz por ter achado uma cantora legal). Claudia Leitte dançou conforme a música, fez o mesmo que todas as artistas fazem e ainda aproveitou para se divulgar para milhões de pessoas o mundo inteiro. Qual foi o erro da cantora baiana? Veredicto: querer fazer sucesso.

Nunca fui fã da Claudia Leitte, por isso não tenho motivos para querer defendê-la, mas tenho percebido nos últimos anos, aqui no Brasil, que sempre que um artista tenta se aventurar no exterior, surge um movimento que torce contra ele. Foi assim quando o ator Rodrigo Santoro conseguiu um papel no filme “As Panteras 2 – Detonando”. Muita gente comemorou as poucas falas do ator no filme, em um coro que parecia dizer: “Bem feito, ninguém mandou querer sair do Brasil”. O mesmo se repetiu com a dupla Sandy & Junior em sua tentativa de carreira internacional. Mais recentemente, a patrulha anti-Made in Brazil atacou a cantora Wanessa, que se distanciou de seu passado no pop nacional e passou a investir em músicas em inglês, com arranjos e visual muito próximos das artistas pop dos EUA. No caso de Wanessa, uma tentativa de emplacar algumas músicas no exterior (como conseguiu com a música “Fly”) e também roubar uma fatia do mercado nacional ocupado pelas Spears e Aguileras. No cinema, o diretor Fernando Meirelles também tem sofrido com a torcida negativa, como apontou o crítico Pablo Villaça no twitter recentemente. O caso mais recente foi Claudia Leitte, e certamente não foi o último.

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São tantos casos, com tantas características em comum, que me fazem pensar o que leva o brasileiro a torcer contra outro brasileiro, principalmente nós, que sempre nos orgulhamos de ser receptivos e hospitaleiros. Primeiro, acredito que o torcer contra venha do egoísmo do fã brasileiro. Ver seu ídolo buscando outros mercados é uma verdadeira punhalada nas costas. “Eu te dei tanto carinho, comprei seus cds, vi seus filmes, torci pelo seu sucesso e é assim que você me retribui? Vai fracassar então, bem feito!”. Conhecendo nossa passionalidade latina e nossa capacidade de nos apegarmos emocionalmente a tudo, acho uma hipótese bem viável.

No entanto, é a segunda hipótese que me deixa preocupado. Somos um povo que valoriza tanto a humildade, que acabamos condenando aqueles que ambicionam mais. Isso é perceptível na nossa cultura. Nas novelas, o vilão é sempre ambicioso, movido por desejos de riqueza e conquista. O rico no Brasil sempre foi a encarnação da ambição, do mal a ser combatido, pois pra nós o sucesso sempre está ligado a uma satisfação econômica. Nossa sociedade valoriza o humilde, o cara que, apesar de ser o melhor no que ele faz, se subjulga e diz não ser tudo isso, o cara que não gosta de receber elogios. No Brasil, é proibido bater no peito e dizer “Eu sou bom mesmo no que eu faço”, pois isso é para os arrogantes. Logo, desejar o fracasso dos ambiciosos é quase uma ferramenta de educação moral e social. E por que acho isso preocupante? Porque sem os ambiciosos e seu sucesso, é impossível alcançar uma palavrinha que está gravada na nossa bandeira: progresso.

Esse papo de diversidade…

Há pelo menos uns dois anos, uma pauta tem sido muito constante na imprensa: a importância do respeito à diversidade sexual e do incentivo à tolerância. Acho ambos de uma relevância social muito grande, talvez porque eu faça parte de um grupo que, historicamente, é vítima de desrespeito e discriminação: os homossexuais. A respeito desse grupo, especificamente, desde o ataque na avenida Paulista com lâmpadas fluorescentes, no ano passado, a pauta de homofobia virou figurinha carimbada pelo menos uma vez por semana nos grandes sites, na televisão e em programas de debate. Não acho errada essa onipresença, pois esses casos têm mesmo que ser mostrados para que as pessoas tomem conhecimento das atrocidades que ocorrem no Brasil. O que me incomoda é a postura adotada pela mídia (e, nesse caso, emprestada do movimento gay e dos especialistas em homossexualidade) de que é legal ser diferente e que temos que aceitar o fato dos gays não serem iguais às outras pessoas.

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Por que isso me incomoda? Porque eu não me sinto diferente em nada! Minha única “diferença” é minha orientação sexual. Mas até aí eu também sou diferente do meu vizinho porque ele é quase albino e diferente de outro amigo de trabalho porque a barba dele é mais grossa que a minha. Essa minha “diferença” é tão pequena que não altera quase nada no meu dia a dia. Hoje parei para analisar minha rotina. Prestei atenção em cada momento pra saber até onde ela interfere. A resposta? Em nada. Tive que preocupar com o que comer para não engordar, como qualquer outra pessoa. Tive responsabilidades a cumprir no meu trabalho como qualquer pessoa que gosta do que faz e que precisa seguir regras para manter seu emprego. Tive que pagar contas no fim do dia para garantir que meu celular continue fazendo ligações ou que meu apartamento tenha luz elétrica. Tive que pedir comida fora porque não tinha nada na geladeira e não estava com vontade de cozinhar por causa do frio. Inclusive, tive que me agasalhar para escapar do frio, antes que pegasse uma gripe. Perceberam como eu sou diferente? Minha rotina, minhas ações e minhas atitudes são exatamente iguais à de qualquer pessoa, heterossexual ou não, católica ou não. As diferenças? Quando conversei sobre relacionamentos com uma amiga, me referia a outro cara e não a uma mulher. Só. É suficiente para que rotulem de diferente?

O grande erro do movimento gay e das pessoas ligadas ao estudo da homossexualidade é valorizar demais o confronto. Gays, héteros, obesos, deficientes sempre são colocados em campos opostos, como pessoas que disputam a posse de determinado direito e este não pode ser vivenciado por todos, na coletividade. Com isso, fica em segundo plano o fato de que todos temos as mesmas necessidades: todos têm contas para pagar, medo de terminar a vida sozinho e necessidades fisiológicas como comer, beber, fazer sexo e ir ao banheiro. Se a vida é cheia de similaridades, por que valorizar justamente as pouquíssimas diferenças, os detalhes? Querem transformar cada membro dessa suposta “diversidade” em um objeto raro e que é rico pela diferente ante os demais. O que se consegue em troca? Por exemplo, (justas) acusações de que querem transformar os homossexuais em uma classe privilegiada.

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Hoje, dia 28 de junho, Dia do Orgulho LGBT, mais do nunca é o momento de dizer que tenho muito orgulho de ser o que sou. Só que não quero ser melhor que ninguém, superior a ninguém. Minha vontade é apenas seguir minha vida como todo mundo. Por isso, a partir de hoje, estou substituindo a palavra “diversidade” por “igualdade”. Se todos lutássemos para sermos vistos como iguais, não haveria quem não se identificasse com o que desejamos. 

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Imagens do videoclipe “The Best Thing About Me Is You”, do Ricky Martin, que sempre me anima.

A realidade no Casamento Real

“O mundo em contagem regressiva para o casamento do século”. “Uma sexta-feira que vai entrar para a história”. Foi assim que a imprensa noticiou o matrimônio na monarquia britânica, assistido na sexta-feira passada. A projeção é de que cerca de dois bilhões de pessoas no mundo tenham acompanhado a união. Passada a ressaca do casamento, fica a pergunta: como um evento local, regionalizado, conseguiu atrair tanta evidência?

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Por aqui, todas as emissoras abertas interromperam e alteraram sua programação para mostrar, minuto a minuto, o percurso dos noivos. Por isso, não faltam artigos criticando o destaque exagerado ao Casamento Real. As críticas que li seguem sempre a mesma linha: critica-se que a cobertura tornou o casamento um grande espetáculo, além de estar totalmente desvinculado do contexto social brasileiro. No entanto, ninguém tenta entender por que ele recebeu esse destaque e o que fez tantas pessoas pararem para acompanhar a cerimônia.

A atmosfera criada ao redor do casamento responde muito da questão. Divulgado como um conto de fadas, o enlace entre William e Kate é a versão em carne e osso da Cinderela que todos conhecemos desde criança: a moça plebeia escolhida pelo príncipe para ser sua amada. Sua narrativa é tão popular que está presente em grande parte das histórias românticas da cultura ocidental, seja em sua versão literal ou em suas adaptações, como o rico empresário que se apaixona pela empregada. A Disney educou uma geração de crianças (como eu) usando seus desenhos sobre reinos, príncipes e princesas como uma forma de escapismo e de educação social. Assim, assistir ao Casamento Real é a oportunidade de toda uma geração ver um conto de fadas se tornar realidade.

Acompanhar o casamento não foi o mesmo que ver uma cobertura jornalística. Foi uma experiência de realização, de presenciar uma fantasia do imaginário coletivo. Por isso, a recriação do mito da Cinderela cuidadosamente ignorou ou minimizou alguns detalhes para que Willian e Kate se encaixassem como uma luva no mito. Detalhes como o fato de Kate ser uma plebeia, mas necessariamente não ser pobre; como a informação de que ela e o William já moravam juntos antes do matrimônio; e, principalmente, o fato de que ela nunca seria princesa pois não tinha linhagem real, mas ocuparia o título de duquesa. A construção do evento seguiu a cartilha das mais lúdicas fantasias: ruas repletas de súditos, histeria, cenários (como igrejas e castelos) grandiosos. O matrimônio foi um sucesso graças a esta fidelidade, pois correspondeu exatamente a tudo que a audiência esperava.

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Muitos continuarão dizendo que o destaque dado a Willian e Kate foi descabido e que um tempo valioso foi desperdiçado, que outros temas mais importantes foram relegados. Muitos continuarão resmungando que o povo tem preocupações muito mais reais que o casamento de um príncipe. Qual o problema em os meios de comunicação dedicarem um dia a um drama da monarquia, por mais que ela não faça mais parte da nossa sociedade? Recentemente, nossos dias foram interrompidos para coberturas extensivas do tsunami no Japão e do massacre no Rio de Janeiro, temas pesados, trágicos e tristes. Não deveria ser algo tão problemático e vergonhoso deixar o público acompanhar algo feliz, se deixar levar, por um dia, por uma fantasia real.

A repercussão só explicita a visão de que o jornalismo deveria se ocupar apenas de assuntos sérios e densos, trazer apenas problemas. Porém, eventos como o Casamento Real são como meteoros, ocorrem raramente. O anterior foi o da princesa Diana, em 1981 e, seguindo a regra, o próximo só deve ocorrer em 30 anos. Até lá, temos 10.950 dias para nos dedicarmos e resolvermos os problemas da realidade.

A teimosia da indústria cultural

Há cerca de dez dias, o vice-presidente da Associação Cinematográfica dos EUA (MPAA), Greg Frazier, veio ao Brasil divulgar dados de uma pesquisa sobre o consumo de pirataria no país. Na mala, trouxe o impressionante dado de que 55% dos brasileiros consumem filmes piratas. Várias reuniões com as lideranças nacionais em Brasília e em São Paulo foram agendadas para pedir maior combate à pirataria. Porém, qual a contrapartida da MPAA para diminuir o problema? Nenhuma. É o que se entende de sua entrevista concedida à Folha de S. Paulo.

A MPAA considera consumo ilegal os filmes assistidos por DVDs comprados em camelôs, por download na internet, via streaming (como os filmes disponíveis no YouTube), por cópia de filmes originais, pelo empréstimos de filmes piratas e pelo compartilhamento de arquivos entre amigos. Portanto, não entra na lista apenas o produto em si, mas também as relações sociais estabelecidas entre os consumidores. Logo, para combater a pirataria no Brasil os investimentos não devem focar apenas em uma maior fiscalização, mas também projetar uma mudança cultural no comportamento da população. E isso é fácil? Não. Como levantado pelo jornalista da Folha, vivemos em um país em 44% das residências não possuem acesso à rede de esgoto. Como colocar na cabeça dessas pessoas, que não possuem o básico de infraestrutura para moradia, que um filme adquirido a R$ 5 reais é errado?

Foto: Filipe Redondo – 20.jun.2008/Folhapress

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Greg Frazier, vice-presidente da Associação Cinematográfica dos EUA

É muito fácil para um empresário norte-americano chegar ao Brasil e exigir uma série de mudanças, eximindo-se da culpa e fechando os olhos para as particularidades do país. Greg chega a afirmar que “estamos falando das pessoas que eu represento e eles fazem entretenimento”. Resumindo: não quero saber dos problemas de vocês, quero resolver o meu problema. Mas, da mesma forma que joga para o governo brasileiro a responsabilidade pelos seus problemas sociais, deveria saber que o dilema da indústria do entretenimento é, antes de tudo, de sua própria alçada.

A indústria cultural já seguia na corda bamba durante a década de 90. Com a popularização da internet nos anos 2000, a situação ficou ainda mais grave. A facilidade no compartilhamento de arquivos e na disponibilização de conteúdo sem proteção dos direitos autorais aumentaram o acesso à pirataria. Some a isto a imensidão da rede, que inviabiliza o contínuo monitoramento dos arquivos, e percebe-se que frear a internet não é a maneira mais inteligente de tapar o buraco. A solução lógica para o problema seria a própria indústria revisar o modelo de negócio e propor mudanças, adequando-se às novas características do mercado. É o percurso que todos os ramos comerciais têm sido obrigado a percorrer com as mudanças tecnológicas. Mas, sabe lá por que, o entretenimento considera-se alguém que não precisa seguir as regras. Ao invés de buscar a renovação do modelo, tem batido o pé como uma criança teimosa, insistido que o erro está nos outros. Parece dizer: “Eu sempre funcionei assim e sempre deu certo”. E, enquanto ela se comportar assim, cada vez mais perderá espaço .

Se a indústria do entrenimento quer mudar este cenário, precisa se preocupar cada vez mais com o acesso aos itens culturais. Não adianta exigir que os governos revisem as leis de direitos autorais e apertem o cerco. Se a internet não pode ser vencida, ela precisa agir como parceira. O combate ao compartilhamento de arquivos precisa ser feito analisando as raízes do problema. Por que tantos seriados são baixados mundo a fora? De modo geral, pela demora entre a exibição nos EUA e a distribuição ao redor do mundo. E como se resolve isso? De forma simplória, de duas formas: ou a própria indústria deve criar canais para disponibilizá-la legalmente para download ou os episódios precisam chegar mais rapidamente às TVs pagas locais (“Lost” provou que isso é possível em sua última temporada, chegando ao Brasil com apenas uma semana de atraso em relação aos EUA; nas temporadas anteriores, o prazo era de seis meses) . Porém, alterações implicam em aumento nos investimentos e, possivelmente, em redução na margem de lucro. E mexer nos rendimentos é justamente o que a indústria não quer.

Eleição combina com emoção?

Observação: Esse post não é favorável a nenhum dos candidatos, apenas analisa alguns pontos da campanha de 2010 comparando a outras eleições e ao que observei na cobertura deste ano.

Falta menos de um mês para as eleições e não há como se manter fora do assunto, todo dia os institutos de pesquisa divulgam novas intenções de voto. Longe de refletir o que a população realmente pensa sobre os candidatos (já que ouvem cerca de 2 mil pessoas, enquanto somos mais de 135 milhões de votantes no país), as pesquisas servem para iludir uma boa parte dos brasileiros, que preferem votar no candidato que estaria ganhando. E, claro, também servem para medir o sucesso das campanhas de marketing dos partidos.

Vendo o programa eleitoral na TV, uma coisa me impressionou: o esforço dos candidatos em se mostrar perto da população. Marina quer conquistar o mesmo público carente que apoia Lula, contando sua história de acreana pobre que teve a oportunidade tardia de estudar (entrou na escola aos 16 anos) e venceu na vida. Serra, definitivamente o candidato mais elitizado da disputa, desenterra a história de que estudou na escola pública, colocando-se no mesmo nível que milhares de brasileiros. E Dilma não usa sua vida pessoal, mas utiliza a história de milhares de brasileiros que só tiveram uma chance na vida, na escola e na universidade graças aos programas sociais de Lula. Ou seja, nada novo no mundo da política. Collor fazia o mesmo em 1989, mas, naquela época, o “ser gente como a gente” era mostrar um futuro presidente que não pensava apenas em governar, mas que também tinha vida pessoal. Daí o vimos cavalgando e andando de jet sky.

Quando causar identificação já não é mais suficiente, o jeito é apelar para a emoção do eleitor, uma tática também já usada nesta década. Em 2002, Serra e Lula fizeram uma disputa totalmente baseada nos instintos primitivos. De um lado, Serra usava Regina Duarte para disseminar o discurso do medo e amedrontar o eleitor de que um governo esquerdista seria o fim das instituições e colocaria as famílias em risco. Enquanto isso, Lula trazia o discurso da mudança, implorava o sentimento de esperança da população e dizia que havia chegada a hora de um novo Brasil. O resultado a gente já conhece. Então o que há de novo nessa eleição? Sinceramente, acho que nada. O que me motivou a escrever esse texto foi que, pela primeira vez, deixei de ser apenas uma testemunha da história e comecei a participar da sua construção.

Cobri a visita de Dilma e Serra a Bauru nestas eleições e estive muito perto na visita da Marina. Por tudo que presenciei, digo: o golpe da emoção não está apenas na edição dos programas eleitorais; já ganhou as ruas e o corpo a corpo com os eleitores. Em detalhes:

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  • Marina chegou serena como sempre. Fez questão de atender a todos com tranquilidade, porém firme nas suas opiniões e na convicção de que chegará sim ao segundo turno. Uma firmeza e autenticidade que, sinceramente, me emocionaram, pois transformam a candidata aparentemente franzina e frágil em uma gigante, além de colocá-la como uma fiel representante do povo brasileiro, que mantém a confiança apesar das adversidades. Seu discurso de que o mundo pode ser diferente e de que ela é a responsável pela mudança, que analisado de forma racional soaria no mínimo inocente, ganha credibilidade. Dá vontade de acreditar em Marina justamente por sua simplicidade;

 

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  • Serra, que teve a infelicidade de vir a Bauru no dia em que o Datafolha apontou vitória de Dilma no primeiro turno, fez o possível para se enturmar. Na caminhada pelo calçadão, entrou em todas as lojas, cumprimentou todos os clientes, tomou café no local mais apertado da rua (conosco da imprensa se estapeando pra conseguir entrar), sorriu, acenou, brincou, chupou o sorvete de uma menininha. E a simpatia parou por aí. Quando veio falar com a imprensa, foram 5 minutos de coices para todos lados, como um boi que rodopia na arena do rodeio. Quando achou que não tinha mais nada a dizer, simplesmente virou as costas e saiu;

 

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  • Dilma protagonizou a visita mais apoteótica que eu já vi. Tumulto, tumulto e mais tumulto. Mas, apesar do alvoroço, manteve o sorriso de porcelana o tempo todo, mesmo quando pressionada na coletiva de imprensa. Sua passagem-relâmpago pelo calçadão comercial foi incrível pelo aglomerado de gente: militantes agitando bandeiras, imprensa querendo o melhor ângulo, pessoas querendo furar a segurança para dar um abraço na candidata, fogos de artifício. Três quadras de caminhada e três quadras de showbizz. Quando chegou ao final e entrou na van que a esperava, se despediu de uma multidão, um carro de som com seu jingle e um partidário ao microfone pedindo palmas para “a futura presidenta do Brasil”. Terminei a cobertura esgotado e com um nó na garganta. Não conseguia racionar o que tinha acontecido e o que tinha sido aquele furacão. Só sabia que tinha acabado de presenciar um fato único na história do Brasil.

 

Ainda é cedo pra dizer quem vai vencer a disputa. Mas algo já é certo: desassociar a emoção das eleições, principalmente de sua importância nos resultados, deve ser uma missão cada vez mais impossível no Brasil.

Uma câmera na mão e um ídolo na cabeça

Tenho uma compulsão por regravações. Se achar um mp3 com a inscrição “cover” entre parênteses, fico louco. Talvez isso explique porque gosto tanto de Glee (mas Glee é assunto pra outro post). Na minha loucura, tenho uma verdadeira coleção de covers. E, mais recentemente, de vídeo-paródias. Afinal, uma paródia é o equivalente ao cover numa versão audiovisual. De toda a minha coleçãozinha, nunca tinha ficado tão impressionado como fiquei com a versão de dois filipinos para a música Telephone, da Lady Gaga.                                                                                                          

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O clipe original foi lançado no começo de março e, além de causar aquele burburinho no qual Gaga já se especializou, veio cheio de referências a outras obras da cultura pop, em especial aos filmes Thelma & Louise e Kill Bill. Produzir um vídeo desses com o aporte de uma grande gravadora é simples quando se possui os melhores diretores, produtores e editores à disposição. Mas e quando não se tem?

Tudo na reprodução filipina é tosco ou improvisado. Mas nem por isso é gratuito. As coreografias são iguais, as roupas são semelhantes (apesar de feitas com sacos de lixo ou papel) e, o mais incrível, os enquadramentos e a edição são muito parecidos. É assombroso ver tanta criatividade em um barraco. No início do vídeo aparece uma menção a uma certa Mayaman University, mas não achei nada no Google que mostre se o vídeo é fruto de uma universidade; pra começar, não achei nem o site dessa suposta universidade. Mas achei muitas histórias de que Lady Gagita e Haronce moram numa favela nas Filipinas e fazem shows em boates locais. Mas não sei até onde isso realmente importa.

Não é de hoje que fãs desejam imitar seus ídolos, mas parece que essa loucura chegou a um grau muito mais elevado, o que faz pensar sobre a a força desses ícones na cultura mundial, independente da classe social. Que perspectiva Gagita e Haronce têm para o futuro? Se o ambiente em que vivem for realmente esse do vídeo, provavelmente são muito poucas no meio de tanta pobreza. Mas isso não impediu que elas investissem tempo em cada detalhe do vídeo, em cada trouxa de papel que serviu de seio, em carcaça de ventilador que serviu de volante ou em cada passo exaustivamente ensaiado para a coreografia. E, com isso, fizeram a melhor paródia de Telephone, com pouquíssimos recursos. Pode-se não ter o que comer, mas há tempo para alimentar um sonho. E não digam que isso é alienação porque pra mim é pura criatividade e persistência. Pode ser escapismo, mas é uma forma de contornar essa situação desumana e indigna a que estão sujeitas e encontrar forças pra seguir em frente. Mesmo que seja apenas marketing, que haja uma mega produtora por trás usando essa estética paupérrima pra satirizar sei lá o que, a mensagem pra mim continua a mesma, pois não deixa de ser impressionante pensar que existem sim milhares de Gagitas pelo mundo dançando no quintal de casa.

É por essa lógica que vejo cada vez mais sentido em a Lady Gaga chamar seu álbum de Fame Monster, de chamar a atenção para o monstro da fama. E, por tabela, fica fácil entender porque ela chama seus fãs de little monsters. É o único jeito de explicar a capacidade que eles têm de surpreender.

Fiuk, RPM e a indústria cultural

Personalidades forjadas não duram. Isso explica (um pouco) porque existem tantas one hit bands no mundo – as bandas que só emplacam um sucesso. Faz parte da engrenagem pop determinar um prazo de validade pra tudo que a indústria cria, é o jeito que ela encontra de “renovar” a linha de frente. Por isso, quando vejo o Fiuk, sei que estou frente a mais um caso. Se ser filho do Fábio Jr. não era suficiente, protagonizar Malhação (que segue à risca os ciclos anuais de renovação) e ter uma banda de emo-pop-rock completa o círculo de apelos comerciais.  

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Ao contrário do que já ouvi dizer, o Fiuk não é o primeiro caso. Talvez seja o atualmente o mais explícito. Vivemos uma sucessão de Fiuks há décadas e com certeza outro surgirá quando esse se esgotar. Afinal, quantos Fiuks já foram moda no país? O É O CPM 22 foi um Fiuk. O Tchan foi um Fiuk. O RPM foi um Fiuk. E aqui não se deve entrar no mérito de que o RPM, por exemplo, era bom e o filho do Fábio Jr. não é; os dois fazem parte da mesma engrenagem e foram (e estão sendo) usados pra vender discos e fazer dinheiro. Pra quem viveu nos anos 80, Paulo Ricardo parecia bom e fazia sentido, porque tinha muito a ver com a década. Do mesmo jeito, o Fiuk diz coisas que fazem sentido pros adolescentes de hoje. Como eu não vivi em nenhuma das duas épocas (tinha acabado de nascer em 1984 e hoje o público-alvo do Fiuk não é a minha idade), nenhum dos dois me diz nada, mas respeito enquanto manifestação cultural.

No Brasil, todo ídolo tem que ser humilde e, por isso, ninguém possui uma personalidade realmente autêntica. Acho que esse bom mocismo não vai levar a lugar nenhum. Mas pra entender porque esse é o comportamento dos nossos ídolos, enquanto na Inglaterra o Liam Gallagher, do Oasis, é totalmente o oposto e faz sucesso justamente por isso, sai a indústria cultural e entra em cena o perfil do brasileiro. O comportamento manso reflete justamente o modo de ser do brasileiro e as qualidades que ele valoriza. Nós nos orgulhamos de ser um povo pacífico e amistoso. Portanto, uma postura agressiva vai contra essa herança cultural. A única exceção que eu vejo foram os Mamonas Assassinas, que fizeram sucesso falando palavrão, sacanagem e besteira o tempo todo. Mas ainda assim eles não deixavam de refletir a sociedade brasileira. Afinal, somos ou não um povo desbocado e sexista?