Quando o BBB me faz mal

CcwbUDRWIAAL0e7

Foto: Reprodução/@realitysocial

Todo ano eu passo pela mesma situação com o BBB: começo adorando, fico fã e depois abandono. Essa mudança de humor não acontece só porque os meus preferidos são os primeiros a sair, mas porque chega a um ponto em que o programa começa a mexer comigo. E não necessariamente de um jeito agradável. Em vez de ser apenas um programa de entretenimento no qual eu sintonizo pra relaxar, passa a ser uma tortura, algo que me afeta psicologicamente.

Se eu analisar corretamente, é um fenômeno que se estende a todos os realities de convivência. Qualquer um que enclausure pessoas num espaço delimitado. E a barra ficar mais pesada ao longo da convivência, com uma disputa psicológica mais intensa, fica ainda pior pra mim. Porque uma hora eu me dou conta de que não estou assistindo personagens que saíram da cabeça de um novelista. De que aquelas pessoas não são atores que brigam entre si e saem do personagem depois do fim da gravação. De que quanto mais eu espero barraco ou queira ver o pior das pessoas, mais eu torço pra fragilização de uma pessoa de carne e osso. Mesmo que essa pessoa tenha deliberadamente assumido aquele personagem como estratégia de jogo. Mesmo que esse sentido seja moldado pela edição do programa.

No BBB 16, há duas semanas eu tenho me sentido assim. Torcer pela loucura da Ana Paula era desejar que sua saúde mental ficasse cada vez mais fragilizada. Ver Renan e companhia planejando tirá-la do sério, a ponto de ela forçar uma agressão, era presenciar o pior lado do ser humano. Rir de alguém bêbada que mal se aguenta em pé era me divertir com a desgraça alheia. Muita gente vai dizer que estou exagerando ou levando tudo muito à sério, mas neste momento eu não consigo mais desligar a TV e fazer de conta que aquele universo ficcional desaparece quando a tela se apaga. Ou que aqueles personagens só  voltarão aos seus papéis no próximo episódio.

Talvez eu leve reality show como uma experiência muito mais sociológica do que deveria. Mas se aquele microcosmos consegue refletir mesmo a nossa sociedade, com todos os seus preconceitos e contradições, me faz mal ter a consciência de que eu torço pelo pior apenas para a minha diversão. Que eu faço parte daquela arquibancada enlouquecida que torcia para o leão devorar o gladiador. Se tudo é mesmo um circo, então eu prefiro não bater mais palma pro palhaço.

P.S.: Este texto não defende nenhum dos participantes e nem julga quem está certo ou errado. É apenas um desabafo sobre a minha percepção geral sobre o programa.

Cultura: a gente (não) vê no JN

Qual o lugar da cultura na história de um país? Pelo menos pra mim, a resposta é óbvia, já que cada produto cultural traz em seu DNA os dilemas, angústias e também festejos da época em que ganhou vida. Em alguns casos, quando a censura amordaça a imprensa, também são as entrelinhas de músicas e espetáculos que denunciam sutilmente os desmandos de uma sociedade vigiada. Mas não parece tão óbvio assim para o Jornal Nacional.

Foto: Rodrigo Gorosito/G1

Foto: Rodrigo Gorosito/G1

Prestes a completar 50 anos, a Globo anunciou um projeto ambicioso: o JN passaria a limpo cinco décadas de jornalismo usando as memórias de 16 repórteres icônicos da emissora. Após o segundo episódio, que foi ao ar nesta terça (21/04), listei os assuntos abordados até aqui. Quase na metade dos seis episódios, a série sinaliza o que o maior telejornal do Brasil considera essencial para um povo: cobertura política, tragédias e esporte, além de uma pitada generosa de noticiário internacional e autorreferência. E só. Isso quer dizer que grandes tragédias, como o incêndio do Edifício Joelma, não sejam relevantes? Não. Ou que a chegada do homem à Lua não seja marcante? De forma alguma. Mas será que se resume a apenas isto? Não deveria.

Ao relembrar duas décadas de telejornal (até agora, a série revisitou os primeiros 20 anos da Globo), o JN não dedicou um minuto sequer à cultura brasileira. Ainda que, pela censura militar, o telejornal não deva ter abordado a resistência política exercida pela MPB, nem mesmo um sucesso como o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976, mereceu citação. A renúncia do presidente americano Richard Nixon ganhou mais destaque do que a morte de Nelson Rodrigues, em 1980, que simplesmente passou em branco. E cito estes exemplos pois foram os que me vieram à mente, devem existir outros mais revelantes. Nem mesmo fenômenos criados pela própria Globo, como a febre disco de “Dancing Days”, ou artistas de seu casting, como o “rei” Roberto Carlos, ganharam espaço. Pode-se argumentar que é impossível falar de tudo, mesmo com 20 minutos por episódio – o que, diga-se de passagem, é uma eternidade em televisão! Porém, com esforço, seria possível chegar a uma solução mais equilibrada.

Já ouvi várias vezes no meu dia a dia de jornalista que “cultura não é importante porque não mexe com a vida de ninguém”, que é apenas entretenimento, “perfumaria”. Se levarmos os argumentos ao pé da letra, eles também caberiam ao esporte, não? Afinal, ninguém ficou mais rico com a Copa de 70 ou mais consciente graças ao atleta João do Pulo. No entanto, cultura e o esporte são registros de um tempo e trazem sim marcas sociais. Logo, se o jornalismo esportivo está presente na série e conta com dois jornalistas da área (Tino Marcos e Galvão Bueno), por que o mesmo não acontece com o setor de artes? Meu receio é de que essa lacuna seja mais do que um mero descuido, de que ela reflita o lugar inexistente que a cultura assumiu nesses 50 anos de Rede Globo e 45 anos de Jornal Nacional.

Assim como o William Bonner, também acredito que este encontro de repórteres do JN seja realmente histórico. É uma revisão importante sobre a trajetória do maior telejornal do país, com a mea culpa de episódios polêmicos, como a discreta cobertura do movimento Diretas Já. Por isso mesmo, resistirá ao tempo como material de referência. Daí minha tristeza em ver a cultura relegada ao esquecimento. Se o telejornalismo já é a área mais deficitária da formação universitária em Comunicação, a cultura tem tudo pra continuar como a filha bastarda do noticiário.

A nova novela das oito está nos EUA

Para quem gosta de novela no Brasil, a vida não anda muito fácil desde o fim de Avenida Brasil, em 2012. De lá para cá, “Salve Jorge”, “Amor à Vida”, “Em Família” e “Império”, em maior ou menor grau, até conseguiram segurar o público na frente da TV, mas bem longe da empolgação histérica com a vingança da Nina. Para muita gente, como eu, a saída foi ocupar o tempo com seriados americanos. E não é que os americanos estão fazendo série com jeitão de novela muito melhores que a gente?

Não chega a ser uma surpresa, afinal série e novela vêm da mesma tradição de histórias seriadas do folhetim tradicional. Porém, os gringos sempre amenizaram as características melodramáticas do gênero. Nos últimos tempos, no entanto, parece que eles perderam a vergonha e abraçaram com força as regras mais rocambolescas do gênero. E nem uso como exemplo séries como “Ugly Betty” e “Jane The Virgin”, que são adaptações de telenovelas latinas e, por motivos óbvios, terão um percentual de semelhanças muito mais significativo. Só que o maior sucesso atual da TV americana, “Empire”, é um novelão sem tirar nem por!

42549_

É só ler a sinopse. É a história de Lucius Lyon, um rapper que se tornou o dono de uma gigante da indústria fonográfica e que, ao descobrir que está com uma doença incurável, desafia os três filhos a disputarem a cadeira de presidente do império musical. Só que essa família é completamente disfuncional: o pai renega o filho mais velho por ele não ter talento para a música. Já o filho do meio, apesar de talentoso, é rejeitado por ser homossexual. Somente o filho mais novo, um rapper jovem e imaturo, é o preferido do pai. Junte a isso o fato de que a mãe dos meninos, Cookie, está presa há 17 anos por um crime que o marido cometeu e que ela assumiu para não prejudicar a carreira dele. E que, às vésperas de a empresa comercializar ações na Bolsa de Nova York, Cookie sai da cadeia e cobra sua parte no império, ameaçando destruir a gravadora com a informação de que ela foi fundada com dinheiro do tráfico de drogas. E não pense dei spoiler: tudo isso acontece apenas no primeiro episódio! É mais agitação do que “Em Família” inteira!

Pra mim, essa “mexicanização” dos seriados tem duas explicações. Primeiro, que em um mercado tão competitivo como o de televisão nos EUA, apelar para o melodrama é uma estratégia que rende ganchos de tirar o fôlego ao final dos episódios e que seguram a audiência curiosa até a semana seguinte. Ou seja, garante uma audiência constante e a longevidade da série por várias temporadas. E, em segundo lugar, demonstra a importância que o público latino conquistou na disputa por audiência e faturamento. Assim, incorporar características do dramalhão mexicano é uma forma de trazer os imigrantes para os canais americanos e roubá-los das emissoras voltados à comunidade latina, que retransmitem telenovelas latinas por lá.

Se as estratégias vão funcionar a longo prazo, sem empobrecer o formato, só saberemos com o tempo. Mas a minha audiência eles já conseguiram.

P.S.: “Empire” ainda não tem data de estreia no Brasil, mas procure ver! Ainda que a sinopse se assemelhe a dezenas de novelas que já vimos, a história é cheia de reviravoltas e sua condução torna impossível não se envolver. Para quem ainda gosta de hip hop, tem um motivo a mais: a série conta com músicas inéditas criadas especialmente para embalar a vida musical dos personagens, tudo sob a batuta do produtor Timbaland (o CD desbancou, inclusive, o novo álbum da Madonna na Billboard). E ainda tem vários músicos circulando em participações especiais, além de personagens construídos com características que os associam a figuras célebres da música americana.

BBB 15: mais jogo, menos novela

B8ZaXLyCcAEUOEY

imagem: @RealitySocial

Nesta terça, a primeiro eliminação do Big Brother Brasil deixou claro que a maior deficiência do programa continua sendo o apego aos clichês do folhetim em oposição ao jogo. A saída de Fran, participante que em uma semana fez muito mais pelo reality show do que muitos finalistas de edições anteriores, é a prova cabal de que os 13 anos do programa não alteraram muita coisa em sua espinha dorsal. O público e a própria Globo continuam tratando o BBB como um simples formato de confinamento e convivência, cuja função é criar romances, mocinhos e malvados. Ou seja, basicamente uma novela com atores amadores, mas sem vilões, já que eles são eliminados sumariamente.

Ainda que a vida “real” possa ser organizada a partir de relacionamentos amorosos e conflitos, em uma disputa por R$ 1,5 milhão o foco deveria estar justamente no que diferencia o BBB das 5 novelas diárias da Globo: o jogo. É partir dele (e por causa dele) que se formam alianças, aproximações, distanciamentos e afinidades. Se o objetivo é ficar milionário, os beijos, edredons, brigas e amores possuem um subtexto muito mais interessante do que a simples observação da rotina de 14 anônimos. São artimanhas e estratégias de guerra, algo que enriquece a narrativa audiovisual desgastada da teledramaturgia.

Pra quem acompanha o Big Brother, não é fato inédito que a audiência do programa está em queda nos últimos anos. Será que o motivo não seria justamente esse esgotamento do apego ao folhetim? Essa insistência de mostrar que os participantes entram no programa para viver um grande amor, e não para disputar R$ 1,5 milhão? Desde do BBB 1, a vitória no programa é insistentemente retratada como recompensa a uma trajetória exemplar e “honesta”. Uma decisão moralista e que que deixa os participantes confortáveis para dominar uma narrativa viciada e para a qual eles já estão treinados.

Por isso, colocar o jogo em primeiro plano é uma mudança urgente para oxigenar o BBB e chacoalhar quem de fato precisa ser surpreendido pelo reality. Os fãs do programa agradecem!

‘Boogie Oogie’ vai ressuscitar a era disco?

Boogie

‘Boogie Oogie’, a nova novela das seis da Globo, só entra no ar no dia 04 de agosto, mas o twitter já está em alvoroço. Basta a chamada da trama passar na TV pra notar que a expectativa sobre a novela é grande. O principal motivo? A trilha sonora. Inspirada e com músicas empolgantes da era da discoteca, a coletânea vai mergulhar de cabeça na riqueza musical e na popularidade dos anos 70 para criar uma verdadeira máquina do tempo às 18h.

Depois das boas surpresas musicais de “O Rebu”, parece que a Globo decidiu investir cada vez mais nos clássicos pop do passado. Ainda é cedo para dizer por que a maior emissora do país tomou a decisão, mas uma coisa é certa: com essas trilhas, deve ser bem mais fácil emplacar uma novela nas feiras do mercado internacional.

Ainda tenho alguns receios sobre “Boogie Oogie”. Por mais que a era disco tenha características “universais”, acho bastante arriscado um autor estrangeiro escrever uma novela histórica. Mesmo assessorado por colaboradores, pesquisadores e uma equipe de produção competente, o português Rui Vilhena pode cair na armadilha de criar uma disco fever com a cara portuguesa, já que não conhece a fundo as particularidades do período no Brasil. Ou, então, restringir os anos 70 a mero pano de fundo para a história, ao invés usá-los como um personagem importante da trama. Algo que “Dancin’ Days” fez tão bem e cuja reexibição atualmente no Viva só aumenta o peso das comparações. De qualquer forma, é esperar a estreia para ver.

Abaixo, criei uma playlist com as músicas que os internautas já conseguiram identificar nas chamadas da programação. Vou tentar mantê-la atualizada ao longo dos capítulos.

Vejo música e ouço novela com ‘O Rebu’

Sophie Charlotte e Patricia Pillar em 'O Rebu' / Crédito: Globo/Estevam Avellar

Sophie Charlotte e Patricia Pillar em ‘O Rebu’ / Crédito: Globo/Estevam Avellar

Desde segunda, quando começou o remake de “O Rebu” na Globo, a novela tomou conta do twitter! São elogios ao elenco estelar, comentários sobre a direção inspirada de Zé Luiz Villamarim, especulações sobre o assassino do morto na piscina e, claro, piadas. Muitas piadas!

Para os noveleiros de plantão, a micronovela é um oásis depois da desilusão de “Em Família”. E para os fãs de boa música, a produção também faz muito bem aos ouvidos! Nina Simone, Elis Regina, Amy Winehouse, Chico Buarque, Luiz Melodia, New Order, Chico Science & Nação Zumbi… É assim, mesclando nomes nacionais e internacionais, estilosos ou com um pé na cafonice (amo “Don’t Let Me Be Misunderstood”, do Santa Esmeralda, mas sim, é cafona), que os responsáveis pela novela criaram uma das melhores trilhas sonoras dos últimos tempos, anos-luz à frente de qualquer outra no ar atualmente pela emissora carioca.

Pra facilitar para os fãs de “O Rebu” e para quem quer curtir um som delicioso, criei uma playlist no serviço de streaming de música Spotify. Todos os dias, eu atualizo com as novas músicas que tocam a cada capítulo. Quer ouvir? É só clicar no play!

E aproveite: não precisa pagar nada e só precisa fazer o login com o facebook!

(Atualizado às 11h36)

O mais novo subúrbio da última semana

Uma vez por ano a Globo se dá ao luxo de arriscar. Normalmente, no final do ano com a estreia do seriado produzido por Luiz Fernando Carvalho, não por um acaso um diretor de cinema incorporado pela emissora. Responsável por trabalhos criativos e inventivos, Carvalho sempre traz para a telinha um pouco da técnica da telona. Em alguns casos, acerta na forma e no conteúdo (como em “Hoje é Dia de Maria” e “Capitu”). Em outros, se perde em devaneios estéticos e enfeitiça apenas os olhos (como “Hoje é Dia de Maria 2” e “A Pedra do Reino”). Entre acertos e erros, no entanto, Luiz Fernando alcançou status de gênio com a crítica especializada e junto a telespectadores mais exigentes e (por que não?) enjoados. Pelo primeiro capítulo de “Suburbia“, que estreou na última quinta (01/11) e tem oito episódios, a nova empreitada deve ser mais um acerto do diretor, mas não escapa de alguns ressalvas.

Suburbia

“Suburbia” conta a história da menina Conceição, que nasceu e cresceu em uma fazenda carvoeira em Minas Gerais. Após um acidente nos fornos de carvão, a mãe incentiva a filha a fugir atrás de uma vida melhor e a criança, então com 12 anos, parte rumo ao Rio de Janeiro, guiada apenas por uma foto do Pão de Açúcar que encontrou entre as toras de lenha. Assim que chega ao Rio, Conceição é confundida com criminosos, é presa, vai para uma instituição de reabilitação de menores, foge do local e é atropelada por uma senhora, que lhe acolhe e a coloca para trabalhar como empregada doméstica em sua casa. O tempo passa, Conceição vira moça e, em um fim de semana de folga, conhece o bairro de Madureira, regado a samba, funk e alegria. Quando volta para casa, na segunda, encontra apenas o esposo da patroa, que a estupra na cozinha. Tudo isso em apenas um episódio de 40 minutos.

O roteiro é uma criação conjunta de Luis Fernando com o escritor Paulo Lins, autor do livro que deu origem ao filme “Cidade de Deus”. A dupla investe em um subúrbio carioca que, apesar de soar realista, está imerso em uma atmosfera folclórica. É um subúrbio não muito diferente do de “Avenida Brasil”, criticado por alguns críticos justamente pela visão pacífica. Porém, a presença de Lins na equipe e o status alcançado por ele com “Cidade de Deus” parecem dar aval à abordagem. Tanto que os críticos de TV já elogiam o tratamento dado ao tema.

Quem acompanha a carreira de Luiz Fernando Carvalho na Globo vai identificar elementos bem sucedidos de trabalhos anteriores na história de Conceição. A valorização da infância e o peso dado à protagonista juvenil, por exemplo, podem ser facilmente associados à protagonista de “Hoje é Dia de Maria”. Já o tom testemunhal de alguns personagens, que narram a história de uma perspectiva próxima ao documental, tem ligação com a narrativa de “Afinal, o que querem as mulheres?”, exibido em 2010. Ou seja: por mais que o trabalho de Carvalho seja original e bem executado, ele recupera artifícios já experimentados nas suas outras microsséries artísticas da Globo. O que isso quer dizer? Pode ser a consolidação de um universo ficcional próprio e de uma marca autoral forte, que une todos os trabalhos do diretor, independentemente do tema. Ou podem ser sinais de que o diretor está ousando menos e permanecendo em uma zona de conforto. O telespectador que interprete como achar melhor.

O que é inegável em “Suburbia”, no entanto, é o talento de Carvalho como diretor de elenco. Com um cast basicamente de atores não profissionais, a escalação traz um frescor para a história que não seria possível com atores da Globo. E não porque os atores da emissora não poderiam dar vida aos personagens, mas porque o anonimato do elenco completa a concepção documental de que aquele é o retrato da década de 90 no Rio de Janeiro. Uma autenticidade graças à assimilação da realidade dos não-atores ao enredo, seja da protagonista (que na vida real é assistente administrativa de uma escola) ou de sua rival (que trabalha como gari e é passista de escola de samba). Não dá pra saber quantas vezes cada cena foi feita e refeita até chegar ao ponto certo, mas o que se vê na microssérie é uma naturalidade e uma presença de vídeo tão fortes que é difícil não ser seduzido.

Como bem definiu o colunista Daniel Castro, “Suburbia” é um seriado sobre “a fé que nos mantém vivos diante das maiores adversidades”. Que a trajetória de superação de Conceição também mantenha viva a nossa fé de que a televisão brasileira pode ser melhor nos demais meses do ano.

Uma esfinge chamada Galisteu

A televisão aberta no Brasil tem algumas lendas, seja pelo talento e longevidade, como Fernanda Montenegro e Sílvio Santos, ou por ter feito muito sucesso no passado e hoje viver um pastiche de si mesmo, como a Xuxa. Mas, de todo o cast nacional, o caso mais intrigante atende pelo nome de Adriane Galisteu. Por que até hoje ela se mantém em evidência, apesar da carreira cheia de altos e baixos?

Por mais que Galisteu tivesse uma carreira como modelo, ela só se tornou conhecida no Brasil com a morte de Ayrton Senna, em 1994. Revendo os vídeos daquela época (como sua participação no “Globo Repórter” sobre a morte do piloto), fiquei impressionado ao ver como aquele bicho do mato se transformou em uma mulher forte e independente. Seu grito de alforria, a capa de Playboy de 1995, com a famosa foto em que ela se depilava, até hoje é a terceira edição mais vendida da revista no Brasil, um sucesso que ela tentou repetir este ano, mas que não deu muito certo.

Foi a Playboy que abriu as portas da TV para Galisteu. Ela apresentou programas na GNT, na MTV, na Rede TV  (foi a primeira apresentadora do “Superpop”) e chegou à Record. Na emissora da Barra Funda, teve o momento de maior sucesso da carreira à frente do “É Show”. Mas a ida para o SBT afundou sua carreira. Após várias brigas com Sílvio Santos, foi colocada na geladeira, castigada com um programa nas madrugadas e precisou implorar para que seu contrato fosse rescindido. Conseguiu a rescisão, mas a vida na televisão continuou ladeira abaixo. Acabou chegando à Band, emissora em que seu talento nunca foi totalmente aproveitado e cujos programas duraram poucos meses no ar.

Mas, apesar dos altos e baixos, Galisteu nunca saiu dos holofotes, mesmo quando esteve fora do ar. Muitos críticos se perguntam se a habilidade para vender sua imagem não seria seu verdadeiro talento. Mas questionar o talento de Galisteu é um tanto pesado, pois ela é sim uma boa apresentadora. Principalmente, uma boa entretainer. A época do “É Show” a transformou em uma boa entrevistadora. Além disso, sua imagem no vídeo a consolidou como uma mulher por dentro da moda e cujas roupas eram invejadas. A visibilidade foi tanta que venceu o Troféu Imprensa de 2000 como Melhor Apresentadora, deixando Hebe Camargo para trás. O que aconteceu, então, para que o trem saísse dos trilhos?

Em seu esforço para se manter nas capas de revista, Galisteu acabou comprometendo demais a sua imagem, virando “arroz de festa”, abrindo demais sua privacidade. Além disso, se meteu em uma sucessão de projetos ruins, exibidos em horários piores ainda. O próprio “Projeto Fashion”, seu programa atual, é um exemplo disso: vai ao ar nas noites de sábado, às 22h45, horário em que ninguém mais está com a tv ligada ou já saiu de casa para aproveitar o fim de semana (o programa deu 1 ponto de audiência na estreia). Mas, apesar dos problemas, todas as cotas de patrocínio do “Projeto Fashion” foram vendidas do dia para a noite, apenas para grandes marcas (Fiat, Lojas Marisa, Embelleze, Contém 1 Grama, Impala, e Calvin Klein). Como?

Em 2002, uma pesquisa encomendada pela Veja elegeu Galisteu uma das mulheres mais adoradas pelas brasileiras. O motivo: o modo como refez sua imagem após a morte de Senna, virou exemplo de “alguém capaz de conquistar um lugar ao sol sem que um homem lhe fizesse sombra” e que “encarna a vontade das mulheres de ter independência econômica, mudar a própria vida e ter coragem de superar uma situação adversa”. Talvez estes sejam os segredos da sua sobrevivência e também as armas para superar mais esse desafio chamado “Projeto Fashion”.

_____

P.S.: Visitando o site do “Projeto Fashion”, descobri que todos as roupas produzidas durante o reality show serão doadas ao Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo e leiloadas. A renda obtida será revertida ao tratamento de garotas que sofrem de anorexia e bulimia. Apesar de ter se tornado clichê buscar uma veia social nos programas, é uma iniciativa bem legal e bem louvável. Praticamente um mea-culpa dos profissionais da moda ao sofrimento que causam a tantas modelos em todo o mundo.

Por que os brasileiros torcem contra os brasileiros?

Segunda-feira, 12 de setembro, 22h40. Foi a cantora Cláudia Leitte subir ao palco do Miss Universo 2011 para se apresentar durante o desfile em trajes de banho que o twitter foi invadido por uma onda de comentários maldosos. Os motivos? O inglês confuso da música, os clichês da apresentação (com bandeiras do Brasil, berimbaus, araras, muitas penas e capoeiristas) e suposta falta de originalidade da cantora, que teria tentando se igualar a outras artistas internacionais. Foi questão de minutos para Claudia Milk (apelido criado pela personagem Katylene) se tornar um dos assuntos mais comentados do twitter no mundo. Pra muitos, foi um dos maiores micos globais brasileiros dos últimos tempos. Será mesmo?

Imagem211

Já é tradição no Miss Universo escolher um artista para se apresentar durante o desfile de traje de banho, sempre com uma música animada e cujo ritmo anima a plateia. Aconteceu o mesmo, por exemplo, em 2008 com a apresentação de Lady Gaga. Sim, uma ainda desconhecida Lady Gaga, que seguiu à risca a cartilha do evento e que, com certeza, chamou a atenção de muitas pessoas para seu trabalho (eu mesmo fui um deles, que correu para a internet, achou o álbum “The Fame” e ficou feliz por ter achado uma cantora legal). Claudia Leitte dançou conforme a música, fez o mesmo que todas as artistas fazem e ainda aproveitou para se divulgar para milhões de pessoas o mundo inteiro. Qual foi o erro da cantora baiana? Veredicto: querer fazer sucesso.

Nunca fui fã da Claudia Leitte, por isso não tenho motivos para querer defendê-la, mas tenho percebido nos últimos anos, aqui no Brasil, que sempre que um artista tenta se aventurar no exterior, surge um movimento que torce contra ele. Foi assim quando o ator Rodrigo Santoro conseguiu um papel no filme “As Panteras 2 – Detonando”. Muita gente comemorou as poucas falas do ator no filme, em um coro que parecia dizer: “Bem feito, ninguém mandou querer sair do Brasil”. O mesmo se repetiu com a dupla Sandy & Junior em sua tentativa de carreira internacional. Mais recentemente, a patrulha anti-Made in Brazil atacou a cantora Wanessa, que se distanciou de seu passado no pop nacional e passou a investir em músicas em inglês, com arranjos e visual muito próximos das artistas pop dos EUA. No caso de Wanessa, uma tentativa de emplacar algumas músicas no exterior (como conseguiu com a música “Fly”) e também roubar uma fatia do mercado nacional ocupado pelas Spears e Aguileras. No cinema, o diretor Fernando Meirelles também tem sofrido com a torcida negativa, como apontou o crítico Pablo Villaça no twitter recentemente. O caso mais recente foi Claudia Leitte, e certamente não foi o último.

Wanessa_blusa_rendada

São tantos casos, com tantas características em comum, que me fazem pensar o que leva o brasileiro a torcer contra outro brasileiro, principalmente nós, que sempre nos orgulhamos de ser receptivos e hospitaleiros. Primeiro, acredito que o torcer contra venha do egoísmo do fã brasileiro. Ver seu ídolo buscando outros mercados é uma verdadeira punhalada nas costas. “Eu te dei tanto carinho, comprei seus cds, vi seus filmes, torci pelo seu sucesso e é assim que você me retribui? Vai fracassar então, bem feito!”. Conhecendo nossa passionalidade latina e nossa capacidade de nos apegarmos emocionalmente a tudo, acho uma hipótese bem viável.

No entanto, é a segunda hipótese que me deixa preocupado. Somos um povo que valoriza tanto a humildade, que acabamos condenando aqueles que ambicionam mais. Isso é perceptível na nossa cultura. Nas novelas, o vilão é sempre ambicioso, movido por desejos de riqueza e conquista. O rico no Brasil sempre foi a encarnação da ambição, do mal a ser combatido, pois pra nós o sucesso sempre está ligado a uma satisfação econômica. Nossa sociedade valoriza o humilde, o cara que, apesar de ser o melhor no que ele faz, se subjulga e diz não ser tudo isso, o cara que não gosta de receber elogios. No Brasil, é proibido bater no peito e dizer “Eu sou bom mesmo no que eu faço”, pois isso é para os arrogantes. Logo, desejar o fracasso dos ambiciosos é quase uma ferramenta de educação moral e social. E por que acho isso preocupante? Porque sem os ambiciosos e seu sucesso, é impossível alcançar uma palavrinha que está gravada na nossa bandeira: progresso.

A beleza de uma traição

Na semana passada, na novela “Morde e Assopra”, a Rede Globo exibiu uma das cenas mais lindas e mais duras entre mãe e filho dos últimos tempos. No diálogo, Dulce, vivida pela atriz Cássia Kiss Magro, confronta o filho Guilherme, interpretado por Klebber Toledo, ao descobrir que o filho mudará de cidade e a deixará para trás. A sequência, de cerca de 10 minutos, foi exibida inteira, sem cortes, logo no começo do capítulo de 02 de setembro.

Morde3

Confira nos links a cena (que foi dividida na Globo.com): Parte 1 e Parte 2

Embates entre mãe e filho são sempre garantia de audiência nas novelas. Aliás, não só na ficção, uma vez que os jornais sempre dão destaque a conflitos entre pais e filhos. Uma das razões é o choque que tal situação causa devido a nossa criação religiosa e cultural. Filhos se voltarem contra seus genitores é entendido como uma traição àqueles que lhes cuidaram, amaram e lhes deram o dom da vida. Quando isso tudo é aliado a uma interpretação exemplar como a de Cássia Kiss Magro, cuja Dulce é um exemplo de humildade e desprendimento em função do bem estar do filho, a catarse fica ainda mais perfeita. Não é a toa que Walcyr Carrasco, autor da novela, apostou suas fichas nesta trama quando percebeu que a novela estava indo mal de audiência, pois sabia o potencial dramático que tinha em mãos. Eu mesmo só vejo a novela de vez em quando e para ver o que ocorre nesse núcleo (e, invarialmente, acabo chorando com as cenas).

Coincidentemente (ou não), a nova novela das oito “Fina Estampa” traz o mesmo conflito na sua trama principal. Ontem, dia em que a mãe (Lilia Cabral) desmascarou o filho (Caio Castro) na frente da família de sua noiva, a sequência garantiu a liderança no Ibope com 47 pontos de audiência. E sendo a terceira semana da novela no ar, em pleno feriado nacional, com capítulo mais curto por causa do futebol, é um feito e tanto!